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Novembro Roxo, quando nascer é uma vitória

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Ana Luísa Rodrigues nasceu com 23 semanas de gestação, pesando apenas 515 gramas. No entanto, naquele mesmo dia, o irmão gêmeo dela morreu.

Eles são um exemplo dos muitos casos de crianças que nascem prematuras no País. Em 2016, por dia, 13 brasilienses nasceram antes do esperado, totalizando 5.022. Na contagem mais recente da Secretaria de Saúde, neste ano já foram 3.889 bebês nessa condição.

Para dar atenção a esses casos, foi criada a campanha Novembro Roxo, que busca levar informação e suporte às famílias, além de buscar o desenvolvimento científico para que menos bebês nasçam prematuros, e os que venham ao mundo dessa forma possam sobreviver.

Para a mãe de Ana Luísa, Alice Rodrigues da Silva, 20 anos, o dia 1° de junho será sempre marcante, pois foi quando a filha nasceu, na terceira tentativa de ficar grávida. Quem vê a criança hoje, com um ano e meio, se arrastando de lado para o outro da casa, pode até não conseguir imaginar, mas Alice lembra bem do tempo em que a menina cabia inteira em sua mão e pesava quase a metade de um saco de feijão. Mesmo com todas as complicações, a mulher destaca que a filha sempre teve uma vontade de viver surpreendente.

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A origem da ação

  • O Novembro Roxo surgiu a partir da definição do dia 17 de novembro como o Dia Internacional de Sensibilização para a Prematuridade, já que um em cada dez bebês é prematuro em todo o mundo. A data foi escolhida para homenagear o nascimento da filha de um dos fundadores da Fundação Europeia para o Cuidado da Criança Prematura, da sigla em inglês EFCNI. No mesmo ano, a organização estadunidense de caridade March of Dimes escolheu o dia 17 para conscientização do tema.

Gravidez delicada

A jovem sofre de uma enfermidade que faz com que seu útero não se desenvolva na mesma velocidade da gravidez. Assim, ao chegar ao quinto mês, o organismo não consegue mais segurar a gestação. Ela sofreu um aborto no dia 30 de maio de 2016, quando perdeu o menino, e Ana Luísa permaneceu na barriga por mais dois dias. No dia do segundo parto, ela lembra que os médicos mostraram rapidamente a filha para ela e a levaram para a incubadora, mas alertaram que ela “não deveria ter tanta esperança”.

“Duas horas depois de ela nascer, os médicos voltaram e falaram que tinham uma notícia. Eu já perguntei se ela tinha morrido. Mas disseram: ‘Ela quer viver. A gente só não garante por quanto tempo’”, diz a mãe, que passou cinco meses indo e vindo de casa para o hospital para conseguir ficar com a filha.

No dia 14 de novembro de 2015, já com dois quilos e respirando sem a ajuda de aparelhos, Ana Luísa finalmente conheceu o quarto preparado para ela. Desde então, a mãe “só tem o que agradecer a Deus”.

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Brasil tem o dobro da taxa de países europeus, diz pesquisa

Segundo classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), Ana Luísa Rodrigues era considerada uma recém-nascida prematura- extrema, que são os que nascem com menos de 28 semanas. De acordo com essa classificação, ainda existem os muito prematuros, entre 28 e 32 semanas; os prematuros moderados, entre 32 e 34 semanas; e os tardios, entre 34 e 37 semanas. Os últimos são 74% no País.

De acordo com a pesquisa Nascer no Brasil, lançada no ano passado, a taxa de prematuridade brasileira é de 11,5% do total de crianças. O dado é quase duas vezes superior ao observado nos países europeus.

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Clóvis Puttini é médico intensivista da Intensecare, empresa que cuida da UTI do Hospital de Santa Maria, e estima que nasça uma média de 250 bebês prematuros por ano apenas nessa unidade.

O especialista explica que a prematuridade significa que a criança ainda não está bem formada. Dessa forma, ela pode apresentar complicações nos sistemas digestivo, metabólico ou pulmonar, o que ocasiona, muitas vezes, a morte. Ele ressalta que o recebimento de muitos casos na UTI de Santa Maria se dá à demanda de municípios goianos, como Valparaíso e Luziânia. A unidade conta com 18 leitos preparados para as crianças.

Ainda que infecções e outros problemas na mãe possam causar o nascimento prematuro, ele garante que, com um pré-natal bem feito, diversos casos podem ser evitados. “Quanto mais cedo se procurar o pré-natal, a possibilidade de o bebê chegar no tempo normal é maior. A mulher recebe toda a assistência necessária”, diz o médico.

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Agonia

Puttini reconhece que, mesmo com o trabalho que é feito na UTI, o tempo de internação dos filhos é difícil para as mães. Keyce Kelly Andrade Chagas tem apenas 14 anos mas sabe bem o que é esse sentimento. Há pouco mais de um mês, sua primeira filha, Ágatha Vitória, nasceu. Porém, quatro meses antes do esperado. “Foi um baque. Vim para o hospital porque estava com infecção urinária e até hoje não consegui levar minha filha para casa. É muito ruim”, lamenta a adolescente. Ela, porém, não perde a esperança e confia que sua bebê crescerá forte e saudável.

Saiba mais

  • Segundo a Secretaria de Saúde, todos os hospitais regionais do DF, com exceção do Hospital Regional do Guará, possuem maternidades. Essas unidades estão preparadas para atender bebês prematuros.
  • A partir das 9h desta sexta-feira, a Intensicare, empresa que faz a gestão das UTIs no Hospital Regional de Santa Maria, faz uma programação especial para famílias e pessoas que queiram descobrir mais sobre a prematuridade. As palestras serão no auditório do hospital.

João Paulo Mariano
Jornal de Brasília

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