Especialistas chamam atenção para saúde mental e violência durante o isolamento

“O isolamento é um bom momento para nos colocarmos no lugar das pessoas com transtornos mentais”, diz professora

Esta segunda (18 de maio) concentra duas temáticas de fundamental reflexão para o Brasil, e que requer atenção ainda mais diferenciada durante o período da pandemia.  O dia é tanto da “Luta Antimanicomial” como do “combate ao abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes”. Em Brasília, professores e pesquisadores da área da saúde e do direito entendem que é necessária discussão redobrada sobre como ajudar o próximo nessa situação de potencial vulnerabilidade. 

“Somos seres sociais e precisamos conviver em sociedade. E quando somos pegos de surpresa, como foi o caso da Covid, e a maneira de combater isso é se isolando, nossos sentimentos, como a raiva, o medo, acabam ficando mais aflorados”, explica o professor do curso de enfermagem, pesquisador em saúde mental, Roberto Albuquerque, que integra o projeto de extensão interdisciplinar Prisme no Centro Universitário de Brasília. Em função disso, para o pesquisador, a situação pode gerar comportamentos violentos e diferentes transtornos mentais.

Tranquilidade e a compreensão de que esse isolamento é uma medida necessária e de prevenção. Essa é a ponderação do professor sobre o que ele acredita ser primordial para que essas emoções sejam trabalhadas. “Saímos da nossa rotina, onde tínhamos horários para tudo. Agora, tendo que largar isso, é um baque para a nossa mente”, explica.

Esse choque na rotina estaria diretamente ligados aos problemas que começam a ser desenvolvidos pelas pessoas em confinamento. “Nos perdemos nos horários e começamos a ter problemas de insônia, a sensação de improdutividade começa a aparecer, e as relações familiares vão ficando mais difíceis devido as emoções estarem afloradas”.

De acordo com Roberto Albuquerque, é nesse momento que a violência doméstica, ou contra criança, assim como os pensamentos suicidas e os agravamentos de quadros de transtornos mentais, podem surgir. “As crises vão ficando mais frequentes e, muitas vezes, as pessoas que vão procurar os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) poderão encontrá-los sem os grupos atuando normalmente”, conclui.

A situação é ainda mais delicada quando se trata de pessoas que estão tendo contato com as crises de ansiedade, pela primeira vez, nesse momento de pandemia. “Por ser algo novo para essas pessoas, muitas vezes elas ficam sem saber para onde ir”, explica.

O professor recomenda organizar os horários de ler ou assistir a notícias. “Ficar sendo bombardeado o tempo inteiro de notícias ruins pode agravar o medo. Então, uma das sugestões em relação a isso é ter momentos específicos para saber novidades sobre a doença. Elas são importantes, mas o bombardeamento delas pode ser perigoso”, esclarece Roberto Albuquerque.

Luta Antimanicomial 

“O isolamento requerido pela pandemia é um bom momento para nos colocarmos no lugar das pessoas com transtornos mentais e percebermos que, ficar isolado, não é a alternativa mais adequada para o tratamento”, diz a professora de direito Luciana Musse, que também é pesquisadora em saúde mental.

A professora, ressaltando os impactos negativos que o isolamento tem causado na mente de muita pessoas, afirma que a eficiência do cuidado em meio comunitário ou extra-hospitalar já é comprovada, e que é uma medida mais efetiva que a internação. A professora  ressalta ainda que, tal medida, em casos específicos pode vir a ser necessária, mas mesmo assim, por um período de tempo curto.

Luciana Musse conta que a situação de pandemia e o cenário de confinamento pode ser oportuno para que possamos refletir sobre a importância da data. “Estamos vivendo na pele o isolamento e tendo a prova de que, ficar confinado não cura, apenas produz e intensifica o sofrimento”, afirma a professora.

“É um dia para se refletir sobre a importância da liberdade, do respeito, da autonomia e do querer do outro. Por muito tempo as pessoas com transtornos mentais foram vistas como pessoas sem voz e sem vontades. Precisamos aprender a respeitar o desenvolvimento saudável dessas pessoas, e isso está diretamente ligado à saúde física, mental e social delas”, avalia Luciana Musse.

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