‘Laboratórios se agilizam para encurtar produção de vacina para um ano’, diz infectologista

A droga ainda está em testes e será produzida pelo Instituto Butantã. A partir de julho, a vacina será testada com 9 mil voluntários no Brasil

O governo de São Paulo anunciou nesta quinta-feira, 11, uma parceria com chineses para a produção de uma vacina contra o novo coronavírus, que foi batizada de coronavac. A droga ainda está em testes e será produzida pelo Instituto Butantã. A partir de julho, a vacina será testada com 9 mil voluntários no Brasil.

O Estadão tirou algumas dúvidas sobre a vacina com Sergio Cimerman, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia. Confira abaixo:

Como funciona a tecnologia da vacina coronavac?

Várias vacinas contra a covid-19 estão sendo testadas ao redor do mundo, com diversos componentes diferentes, como vírus enfraquecidos ou inativados, ácido nucleico, proteínas, entre outros. A coronavac utiliza especificamente o vírus inativado – ela não contém vírus vivos, apenas fragmentos. Na produção da vacina, um coronavírus é introduzido em uma célula cultivada em laboratório, o vírus se multiplica e, no final, ele é inativado e incorporado na vacina.

A vacina está na fase 3 de testes. Como funciona essa fase?

A vacina já passou pelas fases 1 e 2 de testes na China, com testagem em macacos e também em 744 voluntários. A fase 3 será feita no Brasil, com 9 mil pessoas a partir de julho. Nas fases iniciais a vacina teve uma eficácia superior a 90%, e agora precisamos observar se na fase 3 teremos uma eficácia acima de 85%. Tendo em vista a situação de pandemia, essa porcentagem já seria excelente. Quando se fala de vacina, o 100% é muito improvável. Ainda não foi definido um protocolo para os testes, mas espera-se que a testagem seja feita em adultos que não tiveram covid-19, em um modelo chamado ‘duplo cego’: duas vacinas são aplicadas nos voluntários, uma placebo e a outra verdadeira, e compara-se a eficácia.

Estar na fase 3 de testes significa que as chances de darem certo são altas?

As fases 1 e 2 avaliam se a vacina é factível para usar em seres humanos, enquanto a fase 3 é a hora em que se vê se ela vai funcionar mesmo. Nesses processos não se pula de fase se não houve sucesso nas anteriores. Mas, ao mesmo tempo, não é garantido que vai ter sucesso nessa última fase.

Segundo o governo de São Paulo, o mundo contabiliza hoje 136 vacinas em desenvolvimento, mas apenas 10 atingiram a fase de testes. Por que apenas 10 estão caminhando?

Isso acontece porque há dificuldade no desenvolvimento. A produção de uma vacina demora em média 10 a 15 anos, e os laboratórios hoje estão se agilizando para transformar esse processo em um ano. Essas 10 vacinas que atingiram a fase de testes são os estudos clínicos consistentes que temos hoje. O que tiver uma resposta melhor, vai ser adotado.

A meta do governo de São Paulo é que a vacina seja disponibilizada no primeiro semestre de 2021. Esse objetivo é plausível?

Como a maioria dos estudos clínicos hoje estão na fase 3, é factível que tenhamos respostas e resultados no começo de 2021.

A imunização é a única forma de combater a pandemia?

Não. Independentemente da vacina, é preciso manter as medidas essenciais contra a covid-19, como distanciamento, uso de máscara e higienização das mãos.

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