Mandetta, o ministro rebelde que fez sombra a Bolsonaro

Seu destino mudou no fim da semana passada, quando alcançou o dobro da popularidade de Bolsonaro (76%) em sua gestão

O presidente Jair Bolsonaro alertou há dias que poderia demitir seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, quando amenizasse a pandemia do novo coronavírus, por “falta de humildade”. Mas nesta quinta-feira (16), antecipou-se e se livrou de seu popular ministro, agravando a crise política em meio a uma sanitária.

Há dois meses, quando a COVID-19 era observada de longe no Brasil, este ortopedista pediátrico e político de 55 anos, com experiência em gestão sanitária, começou a ganhar a confiança de três quartos dos brasileiros que, como ele, eram favoráveis ao confinamento para conter a disseminação da doença.

Foi o único ministro a se opor com firmeza e aparente calma a um Bolsonaro que minimizava o coronavírus, chamando-a de “gripezinha” e se lançou em uma campanha aberta e provocadora contra o isolamento social, adotado em boa parte do país e do mundo, alegando que queria evitar um desastre econômico e um drama social.

Apesar dos boatos de demissão e de ser publicamente humilhado pelo presidente, que desconsiderou várias vezes suas recomendações com saídas pelas ruas de Brasília para saudar seus seguidores, Mandetta se manteve no cargo com boa dose de equilibrismo e astúcia política, com o argumento de que “um médico nunca abandona um paciente”.

 

A não ser que “o paciente queira mudar de médico”, costumava dizer o ministro, que se apresentava diariamente vestindo o colete azul do SUS nas coletivas diárias na televisão para informar sobre o avanço da pandemia no Brasil, que deixa cerca de dois mil mortos.

Seu destino mudou no fim da semana passada, quando alcançou o dobro da popularidade de Bolsonaro (76%) em sua gestão.

Foi perdendo o apoio dos influentes militares, que até então haviam salvo sua pele, mas teriam ficado incomodados com uma declaração sua ao programa “Fantástico”, da TV Globo, na qual disse que faltava uma “fala unificada” no combate à pandemia e que o brasileiro “não sabe se ouve o presidente ou o ministro”.

Em sua última coletiva, nesta quinta-feira, Mandetta agradeceu a Bolsonaro pela oportunidade de comandar um ministério vital neste momento.

– “Escute mais o presidente” –
A princípio, Mandetta tentou justificar Bolsonaro, apoiado sobretudo por núcleos do empresariado e das igrejas neopentecostais, mas há várias semanas deixou claro que era favorável ao máximo distanciamento social possível para combater a pandemia. “Só trabalho com o que é ciência”, afirmou.

Isso incomodou a Bolsonaro e o presidente passou ao ataque frontal.

“Não pretendo demiti-lo no meio da guerra”, disse Bolsonaro em entrevista recente à rádio Jovem Pan. “Nenhum ministro meu é indemissível. Em algum momento, ele (Mandetta) extrapolou. Teria que ouvir um pouco mais o presidente da República. Faltou humildade”, advertiu.

– “Fiel escudeiro” –
Nascido em Campo Grande, capital do estado do Mato Grosso do Sul, Mandetta iniciou a carreira como médico no Hospital Geral do Exército e ocupou vários cargos de gestão sanitária, entre eles a Secretaria Municipal de Saúde de sua cidade natal. Depois, foi duas vezes deputado federal, entre 2010 e 2018, pelo DEM.

Em Brasília, conheceu o então deputado Bolsonaro, a quem se uniu na oposição ao governo de Dilma Rousseff (2011-2016), especialmente ao programa “Mais Médicos”, missão médica cubana no Brasil. Em 2019, se tornou um dos poucos ministros com experiência política no governo de Bolsonaro, que deu preferência a ministros com perfil puramente técnico ou militares.

“O Mandetta foi um fiel escudeiro do presidente, um dos poucos que acreditou nas chances do Bolsonaro quando poucos o faziam. Participou ativamente da campanha e da elaboração do programa de governo de Bolsonaro”, afirma o especialista em política, Thiago Vidal, da consultoria Prospectiva.

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