‘Sou negro e da periferia’, responde procurador a Lula

Procurador da República,Igor Miranda, interrompeu o ex-presidente para dizer que não era autor intelectual da denúncia e que tinha obrigação de questioná-lo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou um embate nesta quarta-feira, dia 19, com um dos procuradores que atuam na Operação Zelotes. Exaltado, Lula apontou o dedo ao procurador e em alto tom de voz disse que desafiar o Ministério Público a provar que ele havia recebido propina de empresários e que tinha “origem” humilde. O procurador da República Igor Miranda interrompeu o ex-presidente para dizer que não era autor intelectual da denúncia, mas que tinha obrigação de questioná-lo sobre os crimes de que é acusado.

“Eu estou cansado de tanta mentira contra mim, de tanta leviandade, de tantas insinuações. Eu tenho desafiado nesses últimos cinco anos, eu duvido que tenha um juiz, um procurador, um delegado, um deputado, um empresário que diga o seguinte: ‘Eu vi um empresário dar 5 centavos ao Lula’. Eu tenho desafiado vocês do Ministério Público. Apresente uma prova pelo amor de Deus. Parem de insinuar coisas a meu respeito. Possivelmente muita gente que trata com leviandade muita atuação como presidente da República talvez agisse com leviandade se estivesse no meu lugar”, declarou Lula, em tom ríspido. “Eu sou de uma terra onde a gente nasce pobre, mas aprende a ter caráter e dignidade. Eu não abro mão disso.”

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Imediatamente o procurador rebateu:

“Para deixar claro, presidente, não sou autor intelectual dessa denúncia. Como o senhor perceber eu sou negro, cresci numa periferia, até nesse sentido é um prazer conhece-lo, mas é meu dever institucional buscar a verdade”.

Lula respondeu ficar “orgulhoso” de ver um negro no Ministério Público e disse que tinha esperança de ver mais. “Somos poucos”, afirmou o procurador.

 

Lula disse que merecia “desculpas” por parte do MPF e da Polícia Federal e lançou novamente desconfianças sobre procuradores da República. O ex-presidente foi condenado e preso na Operação Lava-Jato por crimes como corrupção e lavagem de dinheiro – ele foi solto em 2019 por ordem do Supremo Tribunal Federal até que os últimos recursos de defesa se esgotem.

“Estou dizendo em alto e bom som 24 horas por dia: Eu desafio a instituição Ministério Público a provar algum deslize na minha vida. A gente não pode falar o mesmo de alguns procuradores”, provocou o petista.

O depoimento de Lula ocorreu como réu na ação penal da Operação Zelotes sobre a Medida Provisória 471 de 2009, que deu incentivos fiscais ao setor automobilístico e levou à instalação de fábricas de automóveis em Pernambuco, na Bahia e em Goiás. O processo foi separado para tratar apenas de atos ocorridos dentro do Poder Executivo, relacionados à elaboração da norma.

O ex-presidente é acusado de ter cometido corrupção ao solicitar ou assentar promessa de valores ao PT por parte de representantes de montadora. O petista disse que a denúncia é uma das “grandes mentiras” contadas pelo Ministério Público Federal.

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“Se alguém levou dinheiro foi o povo de Pernambuco, de Goiás, da Bahia e do Nordeste”, disse Lula.

A audiência foi marcada por uma série de questionamentos de advogados de defesa dos réus à atuação do procurador. Lula chegou a dizer que “não havia nada pior do que uma pergunta mal feita”.

O procurador Igor Miranda e o juiz Vallisney Oliveira, titular da 10a Vara Federal, tentavam extrair do ex-presidente informações sobre o processo de elaboração da MP e cotejar o depoimento de Lula com o do ex-ministro e ex-chefe de gabinete Gilberto Carvalho, também réu na ação. Carvalho era o responsável por intermediar contatos com lobistas e representantes do setor automobilístico, como Mauro Marcondes, outro dos réus, conhecido de Lula desde os tempos de sindicalista no ABC paulista. Ele negou ter atendido pedidos de Marcondes.

Lula disse ter feito uma série de reuniões com personalidades do setor, mas que discutia os termos da MP apenas com os ministros das áreas envolvidas. Ele negou ter recebido Marcondes a sós no Palácio do Planalto para discutir o conteúdo da MP 471, apesar de ressalvar que não tem a memória de todos os fatos aos 74 anos de idade. “Eu nunca recebi o Mauro Marcondes sozinho enquanto presidente da República para discutir a MP 471″, afirmou Lula.

Ao fim, o ex-presidente fez uma espécie de mea-culpa ao juiz e ao procurador. “Não pense que eu fiquei nervoso não, fico admirado de ver um negro no Ministério Público. E quero ver muitos”, afirmou antes de deixar pelos fundos a sede da Justiça Federal. “Parece que estou nervoso, mas não sou nervoso não, sou muito calmo e respeito a Justiça.”

Lula negou a acusação de que o PT tenha recebido R$ 4 milhões para campanhas em troca da aprovação da Medida Provisória 471. Lula chamou a acusação de “ilação” e “mentira com M maiúsculo”.

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“O que acho grave é o MP fazer uma ilação de que tudo foi feito para dar dinheiro PT”, declarou.

O petista disse que a norma foi aprovada por unanimidade no Senado e na Câmara e que sugeriu à PF investigar 513 deputados e 81 senadores como forma mais fácil de descobrir se houve corrupção e “quem levou dinheiro”.

“Um dos interesses de fazer com que a indústria automobilística fosse para o Nordeste era levar conhecimento, fazer transferência em ciência e tecnologia”, declarou o petista.

Ele desacreditou o relato do ex-ministro petista Antônio Palocci, que fechou acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal, e revelou detalhes de negociações em torno das medidas provisórias. A defesa de Lula questiona a validade do depoimento de Palocci – o ex-ministro afirmou que o lobista Mauro Marcondes tinha acesso irrestrito a Lula.

“A única explicação era porque ele (Palocci) deveria estar ganhando um prêmio por fazer delação e tenha se prestado a contribuir com o Ministério Público”, respondeu Lula ao juiz quando questionado se a acusação de Palocci era mentirosa.

Lula tentou descredibilizar provas documentais apreendidas, dizendo que “pedaços de guardanapo com anotações” não eram documentos.

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O depoimento foi acompanhado por senadores e deputados do PT na sala de audiências da 10ª Vara Federal em Brasília.

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