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Política e Brasil

Enem: das mil escolas com maior média, só 49 são da rede pública

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Mais uma vez, as escolas com as médias mais altas são da rede privada, têm alunos de alto poder aquisitivo e turmas pequenas. Inep ressalta que lista não é ranking e desempenho deve ser avaliado dentro de contextos que permitam comparar semelhanças e diferenças entre as escolas.

As notas do Enem 2015 por escola foram divulgadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nesta terça-feira (4). Os arquivos reúnem as notas de 1.212.908 estudantes de 14.998 escolas do país que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio no ano passado. Os dados são divulgados anualmente pelo governo federal para fomentar o debate sobre a qualidade na educação.

É possível fazer recortes que levam em conta desde o porte da escola até a condição socioeconômica dos alunos, fatores que influenciam no desempenho acadêmico dos estudantes e que, portanto, devem ser considerados na hora de avaliar a situação de cada escola.

Entretanto, em uma análise que considera apenas a nota das provas objetivas (excluindo redação), os dados apontam um aumento do abismo que separa as escolas públicas e as privadas. Neste ano, das 100 escolas com maior nota média no Enem 2015, 97 são privadas. No universo de 1 mil escolas, somente 49 são da rede pública. No ano anterior, eram 93, e em 2013, 78.

Esse cenário considera o cálculo da média aritmética das quatro provas objetivas (linguagens, matemática, ciências humanas e ciências da natureza). A lista apresenta o Colégio Objetivo Integrado, de São Paulo, com a melhor média geral.

O colégio, privado, tinha apenas 41 alunos matriculados no último ano do ensino médio em 2015, mas fica no mesmo endereço de outra escola do mesmo grupo, o Objetivo Centro Interescolar Unidade Paulista, que, no ano passado, tinha 321 estudantes concluintes do ensino médio, e teve a 526ª melhor média na lista do Enem 2015 (veja aqui a lista dos colégios com as melhores notas médias gerais).

Por fatores como esse, é consenso entre especialistas em educação que a nota do Enem por escolas não pode ser tomada como único critério para escolha de um colégio.

Para Francisco Soares, presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE), e ex-presidente do Inep, a lista do “Enem simplesmente consagra as escolas que fazem seleção de seus alunos”.

“Entre as melhores classificadas, um primeiro fato a considerar é que as privadas selecionam primeiro seus alunos pela renda e também pelo desempenho em provas. Esta seleção é frequentemente feita ao longo dos anos, convidando os estudantes mais fracos a saírem. As escolas públicas que estão nas melhores colocações são também aquelas que admitem seus alunos através de difíceis vestibulares”, afirmou Francisco Soares.

Em Brasília

Gui Prímola/Metrópoles

DESIGUALDADES

Os dados mostram que a diferença de financiamento direto na escola também reflete o desempenho médio dos estudantes. A comparação entre as (mil escolas com as maiores médias na nota do Enem e as mil escolas com as médias mais baixas revela que, no primeiro grupo, 951 escolas são privadas, e as demais são colégios públicos de regime e orçamento diferenciados, incluindo a prática, em alguns casos, de vestibulinho para selecionar novos alunos.

Essa é a concentração mais alta de escolas privadas entre as melhores do país em pelo menos três anos. No Enem 2014, entre as mil melhores escolas, 93 eram públicas. No Enem 2013, 78 das mil melhores escolas eram da rede pública.

Já no segundo grupo, que reúne as mil escolas com as menores médias, só 15 – ou 1,5% do total – são escolas particulares. Há apenas uma Etec (escola técnica da rede estadual paulista), localizada em uma zona rural. Além dela, 980 escolas são estaduais, e quatro são municipais.

“As melhores escolas públicas têm nível socioeconômico bastante alto. Como a professora Maria Helena comentou muito bem, elas têm vestibulinho para alunos frequentarem o ensino médio”, diz Maria Inês Fini, presidente do Inep.

“Ranking é inapropriado para indicar aos pais a qualidade da escola”, diz Maria Inês.

Para o Inep, novamente os resultados das escolas públicas apontam a necessidade de reforma do ensino médio. “Temos contingente enorme de alunos que estão aprendendo muito pouco, currículo organizado de maneira tradicionalista e conservadora. Os resultados apontam para a necessidade da reforma do ensino médio”, afirma Maria Inês.

O nível socioeconômico entre as mil escolas com média mais alta, e as mil escolas com média mais baixa, também varia muito.

REDAÇÃO

Amaior nota obtida pela média dos alunos de uma escola na prova de redação foi 920 pontos. O resultado foi conseguido pelos 17 alunos do Instituto Educacional São José, unidade Mocambinho, de Teresina, no Piauí. Em outro recorte, que considera apenas as escolas com alunos classificados com nível socioeconômico “muito baixo”, o melhor resultado também aparece no Piauí, na Unidade Escolar Antônio Pereira de Araújo, da rede estadual em São Luís do Piauí (PI), com média 531,82 pontos. Entre os dois extremos, uma diferença de 388 pontos.

A prova de redação foi uma das duas que apresentou aumento na média geral de todos os participantes. Com o tema “A Persistência da Violência contra a Mulher na Sociedade Brasileira”, as notas subiram de 491 para 543 pontos, uma alta de 10,5%.

Enem 2015: nota média dos alunos por área de conhecimento.

LINGUAGENS

As escolas com as notas de maior destaque na área de linguagens estão nos grupos das escolas de pequeno porte, com entre 31 e 60 alunos, segundo a classificação do Inep. Todas são privadas. Nesta área de Linguagens, o Objetivo Colégio Integrado, escola com 41 alunos de nível socioeconômico classificado como “muito alto”, a média na prova foi 681,23 pontos.

A diferença entre os melhores desempenhos por nível socioeconômico da média dos alunos concentra na área de linguagens um abismo de 183,9 pontos. Isso porque entre as escolas classificadas como tendo alunos de nível socioeconômico “muito baixo”, aparece como tendo obtido a melhor nota média uma escola estadual de Floresta do Piauí (PI). Com 16 alunos concluindo o ensino médio no ano passado, 10 fizeram a prova e tiveram média 497,33 pontos.

MATEMÁTICA

Olevantamento revela um abismo entre as melhores notas médias obtidas na prova de matemática. O contraste aparece na comparação entre grupos de escolas com alunos de diferentes perfis socioeconômicos. Uma diferença de 415 pontos separa o melhor resultado conseguido por uma escola com alunos classificados com nível “muito baixo” daquele resultado medido em uma escola com estudantes de nível “muito alto”.

Prova de matemática do Enem 2015

Em um recorte amplo, sem filtros por estados ou outros critérios, as quatro escolas com as maiores notas em matemática são da rede privada e estão localizadas em São Paulo e no Ceará. A melhor nota média em matemática, 873,65 pontos, é da escola Objetivo Integrado.

Considerando a outra ponta da classificação socioeconômica, a melhor nota média foi registrada na Paraíba: a escola da rede estadual Maria Soledade Assis Freitas alcançou 458,02 pontos, a melhor nota entre aquelas com alunos classificados com nível “muito baixo”.

CIÊNCIAS HUMANAS

As maiores médias em ciências humanas foram obtidas por alunos de escolas particulares da Região Sudeste, mais especificamente no eixo São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Na nota de ciências humanas é possível ver na prática como a lista de escolas pode mudar se considerados outros fatores e cruzamentos. Se o resultado levar em conta apenas o resultado dos 30 melhores alunos que fizeram a prova em cada escola, o Colégio Bernoulli, de Belo Horizonte, ostenta a melhor nota média na área, com 772,95 pontos, acima da nota que obtida pelos 30 melhores alunos do Objetivo, que ficaram com 733,77 pontos.

No Colégio Bernoulli, 300 alunos fizeram a prova. Já no Objetivo, foram 41. Se considerados todos os alunos, os números são 713,63 e 721,47, respectivamente.

CIÊNCIAS DA NATUREZA

As quatro melhores notas médias em ciências da natureza também são de escolas privadas, de pequeno porte, localizadas em São Paulo (SP) e em Fortaleza (CE). A nota mais alta foi de alunos do Colégio Etapa III, de São Paulo, com 730,51 pontos, e contou com participação de 32 alunos na prova.

Se considerado só o nível socioeconômico, a diferença nas médias de ciências na natureza é de 255 pontos entre a melhor escola de nível “muito baixo” e a melhor de nível “muito alto.” O melhor desempenho entre as de nível “muito baixo” é da unidade escolar Wilson Nunes Martins Filho, em Floresta do Piauí (PI), com média de 473 pontos.

FORMAÇÃO DOS PROFESSORES

Sessenta e oito das 100 escolas com as piores média no Enem 2015 não possuem nem metade dos professores com graduação ou curso na área em que lecionam. Já entre os 100 colégios com melhores médias, apenas seis têm mais da metade dos professores sem formação especializada nas disciplinas que ensinam aos alunos.

Se consideradas todas as escolas do Brasil, 27% têm menos da metade dos professores com formação específica. Isso quer dizer que, nestes colégios, a maior parte dos docentes não estudou na universidade para se tornar professor naquela matéria e também não fez curso de complementação pedagógica. Se encaixam neste caso, por exemplo, graduados em matemática que lecionam física, entre outras possibilidades.

CRÉDITOS:

Reportagem: Ana Carolina Moreno, Luiza Tenente e Vanessa Fajardo
Fotos: Marcelo Brandt
Edição: Ardilhes Moreira
Arte: Fabio Rosa

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