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Reação xenófoba revela também poder dos imigrantes na Holanda

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Ascensão da direita é resposta a sucesso de integração e aumento populacional

AMSTERDÃ – Quando Ahmed Marcouch voou 2.240 quilômetros de um pequeno vilarejo no Marrocos até Amsterdã em 1979, ele sentia que não apenas percorrera uma longa distância, mas também que havia viajado no tempo.

— Foi como sair de uma máquina do tempo, cem anos no futuro — diz Marcouch, hoje um parlamentar do Partido Trabalhista em busca de um novo mandato, numa eleição que se tornou um referendo sobre a imigração. — No vilarejo, havia apenas uma televisão. Aqui havia luzes e telas por toda parte. E as mulheres, todas com roupas e cabelos diferentes.

O fato de Geert Wilders — o provocador populista que chamou marroquinos de “escória” e prometeu “desislamizar” a Holanda — estar tão bem nas pesquisas eleitorais mostra a ascensão dos sentimentos anti-islâmicos, não apenas no país, mas em todo o Ocidente. O Partido para a Liberdade, legenda de Wilders, deve ter um crescimento no Parlamento, e seu sucesso pode impulsionar legendas de extrema-direita que disputarão eleições na França e na Alemanha este ano.

O caminho que levou Marcouch às ruas da Holanda, que ele patrulhou como policial antes de se tornar parlamentar em 2010, oferece um contraponto à narrativa do levante nacionalista na qual os estrangeiros são apenas um problema apontado pela extrema-direita. Sua história, compartilhada por muitos dos imigrantes do país, reflete a abertura da Holanda, que abrigou seu pai como um trabalhador temporário, mas lhe deu uma educação e um emprego mais sólido, que permitiram que buscasse um maior envolvimento na sociedade e reivindicasse uma identidade holandesa.

De certa forma, a sociedade holandesa está sendo redesenhada segundo novas diretrizes étnicas. A presidente do Parlamento, Khadija Arib, é de origem marroquina, assim como o prefeito de Roterdã, Ahmed Aboutaleb.

— Temos soldados nas Forças Armadas, especialistas nos hospitais e homens de negócios — diz Marcouch. — A maioria das crianças marroquinas vive bem e têm mais facilidade para entender que pertencem a este país.

Imigração faz população crescer

Segundo o Departamento Central de Estatísticas da Holanda, a população holandesa teve um crescimento superior a 110 mil habitantes em 2016, impulsionado pela chegada de 88 mil imigrantes — a maior parte sírios. Pessoas de origem estrangeira agora são 22% da população.

Essa mudança abriu espaço para que partidos de menor expressão abraçassem uma mensagem fortemente pró-imigração. Não apenas os trabalhistas, mas também o Partido Verde abraçou esse discurso, assim como o Denk (“Pense”, em tradução livre), um partido antiestablishment de natureza oposta à da legenda de Wilders. Os Verdes parecem estar colhendo as recompensas, com aumento de popularidade às vésperas da eleição.

— Somos um dos poucos partidos que dizem que há 65 milhões de refugiados no planeta, dos quais 95% são abrigados nos países mais pobres do mundo, e portanto deveríamos fazer mais, e não menos — diz Bram van Ojik, ex-líder da legenda que busca um retorno ao Parlamento este ano. — A maioria dos partidos diz que estamos no limite do que podemos suportar e que o povo não quer mais imigrantes. Tentamos exibir o outro lado da moeda.

Essa abordagem conquistou dois estudantes de Medicina em Amsterdã. Salima Talib e Duygu Talan têm 27 anos e nasceram na Holanda, filhos de imigrantes marroquinos. Foram atraídos pelo Partido Verde por causa de suas propostas para a Saúde, e pelo carisma de seu líder, Jesse Klaver, que segundo os estudantes “projeta tolerância”. Salima afirma que os insultos de Wilders não a assustam e diz sentir-se mais segura no país do que o avô, que veio buscando trabalho.

— Temos uma voz, fomos educados aqui. Wilders é que se sente ameaçado pela boa maneira como representamos nossas comunidades — diz ela.

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