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Nas urnas, holandeses podem indicar rumo da ascensão da extrema-direita

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Resultado deve ter efeitos sobre futuras eleições na França e na Alemanha

AMSTERDÃ – Habitualmente tranquilas e sem grandes efeitos na política internacional, as eleições gerais holandesas começaram nesta quarta-feira sob o olhar atento de todo o mundo, encaradas como um dos principais indicadores do futuro do populismo na Europa após a inesperada vitória do Brexit no referendo britânico de junho do ano passado. Marcado pela indecisão do eleitorado — que segundo as previsões oscila entre 40% e 60%, deixando os resultados imprevisíveis — o pleito está em vias de chancelar a ascensão do Partido para a Liberdade (PVV, na sigla em holandês), legenda de extrema-direita comandada pelo polêmico Geert Wilders. Tal resultado deve ter efeitos sobre futuras eleições — especialmente na França, em abril, e na Alemanha, em setembro — nas quais o discurso anti-imigração e a retórica antimuçulmana ganharam força em meio à crise migratória que assola o continente.

A indecisão também deve aumentar a diversidade partidária no Parlamento. Com o cenário político mais fragmentado do que nunca, especialistas preveem que 14 partidos — número recorde — podem eleger deputados, oito deles com pelo menos dez cadeiras e outros seis, entre eles o PVV, com até 25 representantes.

— Precisamos fazer escolhas para nosso povo, para nossos pais, e não para os requerentes de asilo — disse Wilders ao premier Mark Rutte, que busca seu terceiro mandato, em debate transmitido pela TV holandesa na noite de segunda-feira. — Você não é o primeiro-ministro da Holanda, mas sim dos estrangeiros.

Já Rutte garantiu que o Partido Popular para a Liberdade e a Democracia (VVD, na sigla em holandês) não formará qualquer coalizão com o PVV.

— Enquanto nos concentramos nas causas da crise de refugiados, você gasta toda a sua atenção na sua política contra o Alcorão — afirmou Rutte, que classificou o plano de Wilders de fechar fronteiras e mesquitas e banir a publicação do livro sagrado do Islã como “falsas soluções”. — Você quer o “Nexit”, quer a Holanda fora da Europa.

De acordo com as mais recentes pesquisas, Rutte deverá manter seu cargo. Um levantamento do instituto I&O aponta uma queda nas intenções de voto do PVV, que ocuparia o quinto lugar, com 16 cadeiras no Parlamento, atrás do centrista D66, do Partido Verde, e dos democratas-cristãos, todos possíveis parceiros na coalizão de governo que o VVD espera formar. Na pesquisa publicada pelo instituto Ipsos, o PVV de Geert ocuparia a terceira colocação, atrás dos democratas-cristãos, enquanto os números da Kantar Public indicam que a legenda de extrema-direita ficaria com o segundo lugar, mas com uma diferença consideravelmente maior que a apontada meses atrás.

Atualmente o PVV é a quinta força no Parlamento holandês, com 12 deputados e integra a Europa de Nações e Liberdade, coalizão do Parlamento Europeu comandada pela líder da Frente Nacional francesa, Marine Le Pen.

— Geert Wilders não é de extrema-direita, é um patriota. Cada vez que alguém se opõe à imigração em massa é tachado de populista, racista, xenófobo. Podemos nos opor à imigração sem que sejamos insultados? — questionou Le Pen à rádio RFI.

Paralelamente, o pleito tem como pano de fundo a crise diplomática com a Turquia, agravada pelas acusações do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. A polêmica — iniciada no fim de semana após ministros turcos serem impedidos de entrar na Holanda para realizarem atos de campanha em favor de Erdogan junto aos cerca de 400 mil turcos no país — também intensificou a reta final da campanha holandesa. Durante o debate, Wilders afirmou que o embaixador turco e sua equipe deveriam ser expulsos da Holanda.

— Caso contrário, estamos aceitando ser insultados — afirmou o líder do PVV, em referência às frases de Erdogan, que classificou o país como “nazista” e pregou sanções internacionais à Holanda.

E encerrou, dirigindo-se ao premier:

— Você está sendo tomado como refém por Erdogan. Feche as fronteiras.

Erdogan volta a atacar holandeses

Durante um discurso televisionado em Ancara, Erdogan voltou a atacar a Holanda, associando o país ao massacre de oito mil muçulmanos em Srebrenica, em 1995, durante a guerra da Bósnia. Segundo o presidente turco, um batalhão holandês das forças de paz da ONU fracassou em interromper a chacina.

— Conhecemos os holandeses desde Srebrenica — afirmou. — Sabemos o quão podre seu caráter é pelos oito mil bósnios massacrados.

Em entrevista à rede de TV RTL Z, Rutte condenou os comentários de Erdogan, classificando-os como “uma nojenta distorção da História”.

— Não desceremos a esse nível — afirmou o primeiro-ministro. — É totalmente inaceitável.

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