Siga o Jornal de Brasília

Internacional

Restaurante afegão exclusivo para mulheres combate preconceitos

Avatar

Publicado

em

‘Nossa sociedade ainda não atingiu a maturidade para aceitar novas práticas e costumes normais no mundo de hoje’, diz a fundadora do restaurante

Criado como um projeto para vítimas de maus-tratos, o primeiro restaurante exclusivamente para mulheres no Afeganistão é um espaço pensado para ajudar àquelas que sofrem abuso físico e psicológico de uma sociedade machista e querem desfrutar uma comida sem sofrer com estigmas ou com o assédio.

Um lugar para comer sem que dezenas de olhos estejam encarando, onde uma mulher possa beber água sem que o marido precise passar o copo por baixo da burca ou onde possa conhecer a vida da mulher afegã através dos rostos de outra época, assim é o restaurante Bost Family.

▼ CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE ▼

Concebido como um projeto para mulheres maltratadas, após um trabalho de quase três anos da ONG Centro para o Desenvolvimento do Talento das Mulheres Afegãs (AWSDC), o estabelecimento é há cerca de um mês um lugar de encontro para mulheres e famílias que querem desfrutar de uma opção nem sempre fácil em Cabul.

Cerca de 25 jovens, em sua maioria vítimas de violência doméstica, trabalham como garçonetes e cozinheiras no primeiro restaurante construído, decorado e dirigido por mulheres na capital do Afeganistão. Em uma parede laranja, retratos das mulheres dos reis afegãos; sobre as mesas, comida tradicional e de outros lugares com a qualidade de um restaurante de primeiro nível, onde procuram alimentar, além do corpo, o espírito.

“Nossa sociedade ainda não atingiu a maturidade para aceitar novas práticas e costumes normais no mundo de hoje”, afirmou Humaira Kohzad, fundadora do restaurante e consultora. Humaira quer que o local seja um “lugar seguro para que as mulheres possam se reunir, sentir-se livres, longe do assédio nas ruas e onde possam conversar enquanto comem”.

▼ CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE ▼

“Se um homem vai a um restaurante com sua namorada em Cabul, todos os homens olham para a menina. Como vão desfrutar a comida?”, questionou a ativista, ressaltando que esta é uma das razões pela qual as famílias não frequentem este tipo de estabelecimento. A única maneira que eles encontram, segundo ela, é pagando um bom dinheiro para viajar ao exterior e poder desfrutar lá de um espaço público. “Queremos dar-lhes isso a menor custo”, afirmou, mencionando um menu onde o prato mais caro custa aproximadamente 5 dólares (cerca de 18 reais).

Melhora da autoestima — Os benefícios do restaurante também chegam aos bolsos das funcionárias, sobreviventes da violência e das dificuldades que passaram, algumas delas sem família e todas na luta para continuar sua vida após o trauma. Aryan tem 23 anos e é mãe de três crianças de entre um e quatro anos. Foi vítima de violência em seu lar e se separou do marido há um ano.

Buscou refúgio em um abrigo da ONG e hoje é uma garçonete no restaurante, mas, apesar dos 15 anos de progressos para a mulher, após a queda do regime talibã em 2001, a conservadora sociedade afegã segue considerando um tabu que as mulheres trabalhem fora ou tenham seu próprio negócio.

▼ CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE ▼

“Sofri muito, minha família não me deixava trabalhar, venho aqui na busca de refúgio, meu único objetivo é agora permanecer firme e ter meu próprio negócio para alimentar meus três filhos”, afirmou Aryan, sem esconder a expressão de tristeza. “Como membros da sociedade, quero cuidar dos meus filhos, quero ter outra vez minha própria vida e minha própria identidade”, completou.

(Com agência EFE)

Continue lendo
Publicidade
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *