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Ingrid Betancourt elogia acordo de paz na Colômbia e alerta sobre desafios

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Ex-senadora colombiana refém das Farc durante seis anos crê que a desmobilização da guerrilha será um processo que vai demandar a construção de um vínculo de confiança entre sociedade e ex-combatentes

Rodrigo Craveiro

O celular tocou por volta das 9h30. Do outro lado da linha, a voz, serena, raras vezes transparecia o horror vivido entre 23 de fevereiro de 2002 e 2 de julho de 2008, período em que esteve sequestrada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A ex-senadora e ex-candidata à Presidência da Colômbia Ingrid Betancourt silencia apenas ao ser questionada sobre a experiência no cativeiro. “São tantos e numerosos os grandes momentos de dor”, admite a franco-colombiana de 55 anos, que hoje vive em Paris. Na entrevista de 21 minutos ao Correio, ela afirmou que o acordo de paz era a única opção para os colombianos e fez uma advertência sobre o referendo do próximo domingo, quando a população vai às urnas para se posicionar sobre o pacto com a maior guerrilha marxista da América Latina. “Se o ‘Não’ vencer, a Colômbia vai regredir. É como voltar às cavernas”, alertou.

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Ingrid crê que a desmobilização das Farc será um processo repleto de desafios, o qual vai demandar a construção de um vínculo de confiança entre sociedade e ex-combatentes. De acordo com ela, os algozes precisarão aprender o jogo da democracia. “Eles (membros da guerrilha) entrarão num espaço no qual todos negociam, onde as decisões não são de consenso, mas de maioria e impostas”, lembrou.

A ex-refém admitiu que todas as vítimas do conflito colombiano são sensíveis ao pedido de perdão feito por Timoleón Jiménez, o “Timochenko”, na última segunda-feira, durante assinatura do acordo com o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, em Cartagena das Índias. Ela vê o gesto do líder máximo das Farc como “uma semente de reconciliação”. “Essas declarações ajudam a nós todos, e as palavras curam a alma e os corações”, comentou. Ingrid Betancourt disse à reportagem que não possui ambições de retornar ao Congresso. Prefere manter distância da política, a fim de evitar controvérsias e ceticismo, mas mostrou-se disposta a confrontar as próprias emoções e a dialogar com os integrantes das Farc. “Minha ambição atual é que a Colômbia consiga construir a paz real, não simplesmente a assinatura de um acordo”, admitiu.

Como a senhora analisa o acordo de paz assinado com as Farc?
A verdade é que a Colômbia, durante muitos anos, tratou a opção radical de eliminar as Farc pela via militar. No governo de Álvaro Uribe e nos anteriores, as forças militares se propuseram a derrotar as Farc, e isso foi feito. Este foi um dos componentes que permitiram levar os membros das Farc à mesa de negociações. Havia uma conjuntura muito favorável neste momento, na qual as forças militares receberam grande apoio por parte dos EUA e estão muito bem financiadas. O presidente Uribe, naquele momento, tinha 85% de respaldo dos colombianos a favor da guerra e, realmente, foi um momento ótimo para ganhar essa guerra. Com todas as possibilidades de derrotar as Farc, a guerrilha se manteve de pé.

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Por que as Farc resistiram?
Isso ocorreu por várias razões. A primeira delas é que a selva colombiana é muito fechada. É muito difícil pensar que se pode derrotar, completa e militarmente, uma organização como as Farc, dentro de um espaço tão complicado, estrategicamente. Um grupo que se sustenta por meio do comércio da droga. A única opção que restava aos colombianos era aderir à negociação com as Farc, em busca de um acordo no qual elas aceitem desmantelar a organização, entregar as armas e se submeter a um tribunal.

Quais as consequências de uma vitória do “Não” no referendo de domingo, em seu ponto de vista?
Se o “Não” vencer, a Colômbia vai regredir. É como voltar às cavernas. Seria como regressar a uma situação de muita violência, de muita crueldade, de muitos mortos, de muita dor para todos os colombianos. Nesse momento, o acordo é — pela primeira vez na minha geração, na de meus pais e de meus avós… Pela primeira vez, os colombianos têm um pouco de céu azul. É como uma luz ao fim do túnel. Se apagarmos essa luz, nós voltaremos às cavernas.

A senhora acredita que o processo de desmobilização das Farc e a incorporação à vida política será muito complicado?
Eu creio que será um processo repleto de desafios. Vários problemas terão que ser resolvidos. Em primeiro lugar, está a possibilidade de que a sociedade colombiana aprenda a estabelecer uma relação de confiança com as Farc. E isso será muito difícil, pois, mesmo assinando a paz, com as declarações de boas intenções por parte dos comandantes das Farc, muitos colombianos continuam céticos. No âmbito político, isso vai se traduzir numa dificuldade das Farc de obterem grandes votações. No começo, as Farc terão que aprender os jogos da democracia. Nos acordos de paz, há um ponto segundo o qual as Farc poderão ter membros de sua organização assistindo ao Congresso colombiano, porém, sem possibilidade de votar. Eu creio que isso vai ser muito importante para eles, pois o aprendizado da democracia tem que ser feito. São outras as regras do jogo. Eles (membros das Farc) estão acostumados a tomar decisões de consenso. São decisões muito hierarquizadas. Aqui, eles entrarão num espaço no qual todos negociam, onde as decisões não são de consenso, mas são de maioria e impostas.

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Ao assinar o acordo, Timochenko pediu perdão às vítimas. A senhora aceita esse pedido?
Bom, esta é uma pergunta importante, pois, obviamente, creio que todas as vítimas somos sensíveis a Timochenko no momento da assinatura do acordo de paz, ao dizer que perde perdão pelos crimes das Farc. No entanto, eu vejo mais a importância que isso tem para as Farc. Há um ano, Timochenko deu declarações dizendo que não se arrependia de nada. Que seguiria sendo um guerrilheiro, mesmo depois de assinar um acordo. Não se pode ignorar o fato de que, no intervalo de um ano, Timochenko foi capaz de expressar algo que parecia tão difícil. Tem existido um processo, dentro das Farc, de tomada de consciência. Não somente da necessidade de pedir desculpas, como formalidade, ante uma sociedade que espera por isso, mas também considerando o que isso significa, como reflexão, para eles. As Farc foram uma organização que sempre justificou o que fazia em nome da ideologia. Independentemente do fato de que Timochenko deu a declaração por oportunismo político ou porque é politicamente correto fazê-lo no momento, o que tenho consciência é de que, ao fazê-lo, isso implica em um questionamento em toda a estrutura das Farc. Os guerrilheiros de 14 ou 15 anos que ouviram essas palavras foram impactados. Para mim, isso é uma semente de reconciliação. É importante que aqueles que causaram tantos danos à Colômbia tenham a capacidade de se perguntarem por que tomaram essas decisões. Por que mataram colombianos? Por que sequestraram? Isso tem que ir muito além da cobertura ideológica. É a consciência pessoal. Eu, como pessoa, como ser humano, como explico a mim mesmo ter feito sofrer a outro ser humano na proporção que ocorreu? Eu diria que essas declarações ajudam a nós todos e que as palavras curam a alma e os corações.

AFP - 30/11/07

 

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