Enfermeiro é mais uma vítima de covid-19 no DF

Em ato póstumo, profissionais de saúde da unidade carregaram rosas brancas e, nos jalecos, fixaram um laço preto em sinal de luto pela morte do colega

A morte do enfermeiro Antônio Júnior Araújo da Silva, 50 anos, no último sábado (20), em decorrência da covid-19, levou colegas de profissão a prestarem homenagens póstumas ao companheiro em frente ao Hospital Regional do Guará (HRGu) e ao lado do Centro de Saúde 1, locais onde trabalhava, nesta segunda-feira (22). Por ser hipertenso e diabético – doenças que agravam quadros clínicos do novo coronavírus-, ele havia pedido afastamento das atividades, mas teve o pedido negado pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal.

À reportagem, a SES/DF afirmou, no entanto, que o enfermeiro não solicitou o afastamento para “o teletrabalho, pois não queria se afastar de suas atividades laborais”. Em nota, a pasta informou que “lamenta a morte do servidor, mas garante que não houve nenhuma negligência com relação ao seu afastamento”.

Sobre a questão, a esposa Viviane Teodoro, que também participou da homenagem, afirma que ele o fez, mas que, segundo as palavras de Antônio à época, “não era muito simples”. “Ele disse que havia pessoas com mais de 60 anos com as mesmas comorbidades que ele e que também estavam trabalhando. Para mim ele falou que estavam tentando”, contou.

Durante o ato póstumo, profissionais de saúde da unidade seguraram rosas brancas e, nos jalecos, fixaram um laço preto em sinal de luto pela morte do colega, que atuava tanto como enfermeiro quanto como técnico de enfermagem. Balões brancos de gás hélio também foram soltos pelos funcionários. Abraços foram e em um círculo, de mãos dadas, os profissionais discursaram.

“Herói de máscara e jaleco”

“Ele era um homem simples e discreto. Foi um herói sem capa, mas de máscara e jaleco, assim como seus colegas. Nosso Júnior era anjo aqui na Terra e agora é nosso anjo lá no céu”, descreveu a esposa do enfermeiro. De acordo com a companheira, que também contraiu o vírus, mas está curada, os 25 anos que Antônio dedicou à profissão demonstravam seu amor incondicional pelo que fazia e pelas vidas que cuidava.

“Eu faço um apelo. Um apelo para que as pessoas tenham sensibilidade sobre o que estamos vivendo. Nossa luta é contra um mal invisível e muitos usam sua própria vida para salvar outras, e foi isso o que Júnior fez, até o último minuto”, complementou Viviane. “Ele partiu com a mesma serenidade que ele viveu.” Antônio ficou internado no Hospital Santa Marta durante 17 dias.

Para evitar uma possível transmissão do vírus para Hugo Araújo, filho do casal, Viviane e Antônio decidiram deixá-lo na casa da avó, em Minas Gerais, desde o início da pandemia. O enfermeiro partiu sem ter um último contato próximo da matriarca e herdeiro. “É um momento que dói, por conta de toda a alegria que ele transbordava”, compartilhou Hugo.

Viviane conta que os procedimentos em casa para a não contaminação eram rígidos. De acordo com ela, assim que o profissional chegava em casa, mergulhava as roupas em baldes com soluções para limpeza e se dirigia ao banheiro mais próximo para um banho. “A partir do momento em que ele desconfiou que pudesse estar contaminado, evitou o contato físico comigo.

Neia Gomes, técnica de enfermagem do Centro de Saúde 1 do Guará, afirmou que, em primeiro lugar, Antônio começou a sentir falta de ar durante um plantão no HRG. Após a confirmação da doença e piora no quadro, foi afastado. “Nem era para ele estar trabalhando pelas condições de doenças dele”, opinou. “Nunca o vi negar ajuda ou chegar aqui de mau humor. As crianças eram apaixonadas por ele, porque ele também as vacinava. Ele era quem vacinava minha neta. Era uma pessoa do bem e de um coração enorme”, afirmou.

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