Pandemia: índice de isolamento despenca no DF

Na capital que já registrou adesão de 65,6% ao distanciamento, apenas 42,8% se mantêm em casa

O índice de respeito ao isolamento social no Distrito Federal caiu de 53,7% no dia 12 de abril para 42,8% no mesmo dia de maio. A queda do índice de isolamento no mês se mostra ainda mais preocupante se comparada com a porcentagem do pico dos isolamentos, com 65,6% da população ficando em casa no dia 22 de março. Essas porcentagens são dados fornecidos pelo grupo In Loco, que utiliza a localização dos aparelhos celulares para identificar rompimento do isolamento social.

O Governo do Distrito Federal (GDF) também pesquisou os índices relativos à participação da população no isolamento social, alcançando resultados próximos. A pesquisa do GDF mostra que a queda no respeito ao isolamento varia de forma desigual entre as regiões administrativas: Sobradinho foi a região com a maior redução no índice de isolamento, com uma queda de 21 pontos percentuais entre 1º de abril e 12 de maio, enquanto o Lago Norte foi a região mais estável, com queda de apenas um ponto percentual ao longo desse período.

A médica infectologista Heloisa Ravagnani explica que a quebra do isolamento não representa risco apenas para o indivíduo, mas para as pessoas ao redor. “Principalmente agora que a gente tem uma transmissão comunitária, as pessoas às vezes nem têm sintomas mas ainda assim estão transmitindo. Ou aquelas que estão com tosse mas não receberam diagnóstico, acabam ficando próximas de outras pessoas, o que pode aumentar a transmissão do vírus para outras pessoas. Com isso, teremos um aumento do número de casos confirmados de covid-19”.

Ravagnani acredita que a crescente descrença da população com a importância do isolamento se deve à diferença do cenário visto fora do país. “O fato de não termos tido um grande pico de infectados e de cenários dramáticos como os que foram vistos fora do país e se esperava que acontecesse por aqui pode ter sido um fator que levou à relativização das medidas de isolamento. Talvez a população acredite que a parte pior já passou e que de agora em diante o cenário vai melhorar”, afirma.

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal reforça a importância do isolamento. “Com as medidas de distanciamento social, houve uma redução na velocidade do crescimento no número de casos de infectados, internados e mortes, se comparado com as projeções iniciais sem as medidas. A projeção para o mês de abril era de 15 mil casos graves que, possivelmente, necessitariam de UTI. Com a adoção das medidas de isolamento, a avaliação é de que tenhamos um total de casos críticos, no pico da pandemia, em torno de 700 casos”, informa a assessoria de comunicação do órgão.

Medo de sair

Fora de casa, na altura do Setor Hospitalar Norte, Isabel da Silva, 60 anos, precisou ir a uma consulta para o tratamento de varizes que faz toda quarta-feira. “Medo eu até tenho, mas não eu não posso ficar ficar com medo isolada de tudo, então tenho que encarar”, afirmou. Um dos dois filhos da aposentada trabalha em um supermercado, um dos comércios considerados como essenciais no período de quarentena. Apesar do fluxo maior de pessoas neste tipo de estabelecimento, a sextagenária prefere crer que as medidas de precaução estão sendo seguidas, tanto por ele quanto pelo local de trabalho.

“O povão precisa sair para trabalhar”

“Lá no supermercado estão cuidando direitinho: eles têm álcool em gel, estão esterilizando os carrinhos, não podemos entrar sem máscaras e na entrada colocam um pouco de álcool em gel nas nossas mãos. Os trabalhadores [tomando como referência seu filho] estão a toda hora trocando de máscara e, quando meu filho chega, vai direto tomar banho”, conta Isabel Silva. A roupa do uniforme do filho, é lavada todos os dias por ela.

Sobre as medidas de isolamento, ela levanta a diferença entre o Plano Piloto, onde se consulta, e a região onde mora, Ceilândia, um dos principais focos de contaminação pelo vírus da covid-19 no DF. “Aqui, no Plano Piloto, é a área do funcionário público, então estão perdendo pouca coisa porque conseguem trabalhar de casa. Mas o ‘povão’ de onde moro precisa trabalhar dia a dia, e muita gente não consegue ficar dentro de casa”, disse.

No caso de Jeziel Alves Silva, 24, a razão para estar fora de casa é profissional. Ele trabalha como entregador de uma revendedora de descartáveis. “Estou com bastante medo, ainda mais porque estou no grupo de risco, que tenho uma placa no coração. Não teria salário se eu não estivesse aqui, então só por Deus mesmo”, comenta.
“Tento me cuidar sempre e evitar o máximo possível de contato. Faço as entregas de longe”, detalha. Morador da Asa Sul, a jornada até o serviço é pelo transporte público. “Noto que as pessoas têm sentado separadas e quando os ônibus estão cheios, os motoristas dão um sinal para quem está na parada. Já vi também condutores passarem direto porque a pessoa que pediu estava sem máscara.” Para ele, os meios de transporte público poderiam distribuir o item a quem entrasse sem.

A bombeira militar Mariana Inês do Nascimento, 28, não teve a opção de ficar em casa e fazer home office na quarentena. O trabalho essencial tem exigido atenção redobrada em atendimentos e ocorrências de socorro. “Pacientes com sintomas respiratórios, a orientação é tratar como suspeito de covid-19. A paramentação precisa ser completa com os EPIs”, contou. No trabalho, feito nas ruas, ela nota que o cidadão brasiliense se adequou ao novo hábito, com raras exceções. “Na verdade, quando o isolamento estava mais intenso, notei que haviam menos ocorrências”

“Quando estou de folga, tomo as máximas medidas de isolamento, sempre de máscara”, afirma. Nesta ocasião, estar fora de casa também significou prestação de serviço: foi doar sangue na Fundação Hemocentro de Brasília. “Notei que lá tomaram bastante cuidado com relação ao espaçamento entre um paciente e outro, havia outras pessoas para doar também, o que é bom”, opinou.

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