Moradores da comunidade de Santa Luzia temem contaminação e mudam rotina

Casas de madeira dividem espaço com edificações de alvenaria. O que já era difícil antes da pandemia declarada no dia 11 de março, ficou pior

A 20 quilômetros de distância da Praça dos Três Poderes, os cerca de 16 mil moradores dos 3.793 domicílios da comunidade Santa Luzia, localizada na cidade Estrutural, sobrevivem com dificuldades. Os moradores driblam o esgoto a céu aberto que passa em frente às suas casas e dificulta o trânsito nas ruas estreitas e barrentas. A  comunidade ganhou novos desafios após o fechamento do lixão da Estrutura em 2018. Casas de madeira dividem espaço com edificações de alvenaria. O que já era difícil antes da pandemia declarada no dia 11 de março pela Organização Mundial da Saúde (OMS), ficou pior.

Poliana Feitosa Teixeira, 32, é catadora e mora na comunidade há 10 anos. Sem poder trabalhar, ela vive com o marido e seus dois filhos em uma casa com quatro cômodos. Apenas o esposo, Ednaldo Santos Nunes, que exerce a profissão de pedreiro, está trabalhando.  Ela não imaginava que a situação atual devido a pandemia causada pelo novo coronavírus fosse grave. “A princípio ouvi falar sobre a doença, mas pensei que seria algo normal. Porém percebi depois que não se tratava de uma questão simples, quando vários lugares estavam sendo fechados não só no Brasil, mas no mundo todo por causa desse vírus. E foi então que comecei a ficar com medo.”

Preocupada com a saúde de sua família, principalmente, dos dois filhos, Poliana conta que orienta as crianças de 6 e 11 anos a adotarem as recomendações de prevenção contra a doença. “Eu comprei máscaras para os meus filhos. Eles não estão acostumados com elas e dizem que sentem falta de ar. Porém eu sempre falo para utilizarem, além de lavarem as mãos e usarem o álcool em gel.” Poliana gostaria de estar trabalhando, mas, com a falta de materiais apropriados, prefere não ir às ruas e teme pela saúde.  “Por ser catadora, o meu maior medo é em relação ao meio ambiente, pois a nossa atividade tem um papel muito grande na sociedade. O material que a gente separava para não voltar à área de transbordação da Samambaia acaba indo para lá. Infelizmente, não podemos cuidar da separação, pois não sabemos a origem dos lixos e se estão contaminados”, lamenta. 

A nova realidade tem afetado a saúde psicológica da família. “Esse momento causou impactos na minha rotina, pois era da separação de materiais que eu tinha meu trabalho e tirava o sustento para a minha família. Nossa vida mudou totalmente. Estamos ficando só em casa mesmo. Acabou o hábito de levar os meninos para brincar no parquinho e deixar eles soltarem pipa na rua”, relata. Fazer compras também ficou mais difícil.  “Os preços aumentaram muito. O álcool em gel, por exemplo, a gente estava pagando cerca de R$ 15 em um frasco pequeno de 100ml”, completa.

Educação

Hodineia de Souza Paiva, 34, mora em Santa Luzia há 4 anos e era voluntária, além de ser responsável pela faxina em uma creche no local. Atualmente, ela e o marido, Valdemilson Alves Fernandes, estão desempregados. O sustento do casal e de mais dois filhos pequenos, de 2 e 9 anos, acontece por meio do auxílio emergencial e de doações de cestas básicas que a família tem recebido. Sem poder trabalhar, a moradora utiliza o tempo em casa para estimular que o filho mais velho continue a estudar, mesmo com a prorrogação da medida que suspendeu as atividades escolares no Distrito Federal. “Eu passo atividades. Não é a mesma coisa, mas eu passo alguns exercícios para ele”, destaca. 

Além de ajudar o filho de 9 anos com os estudos,  Neia, como é chamada pelos amigos,  relata o temor do filho sobre o período vivido. “Ele  questiona o que é isso é isso e quando vai acabar, pois ele quer voltar logo para a escola para estudar e ver os colegas de turma.”

Água e desinformação

Para Erlania Maria dos Santos, 38, um dos problemas é a falta d’água que compromete a higiene da família e dos vizinhos mesmo após a instalação de uma fossa séptica. Nascida no Maranhão,  ela é mãe de 7 filhos, mas só 5 vivem com ela e o esposo em uma casa de quatro cômodos. Erlania não trabalha no momento, fazia faxinas, mas a patroa dispensou devido a pandemia. Os bicos que o marido faz e o Bolsa Família tem ajudado no sustento da casa. Ela tem receio que os filhos morram infectados pelo coronavírus, por isso tenta ao máximo mantê-los em casa, mesmo sem, muitas vezes, conseguir supervisionar. “Eles estão sem estudar, mas eu não consigo ensinar eles a maioria dos deveres que as professoras mandam para o meu whatsapp, vão ficar prejudicados”, lamenta. 

Com sintomas de depressão e também vítima da doença de Chagas, ela tem se informado sobre a pandemia pelos telejornais, mas os discursos das autoridades a deixam confusa. “O governador fala uma coisa e o presidente outra. Tenho medo dos meus filhos irem para a escola e voltarem infectados, pois sou do grupo de risco. Se eu morrer, quem vai cuidar deles?”, desabafa.

Daniele Soares, 29, mora na Santa Luzia há cinco anos. Mãe de três filhos, mora apenas com a mais nova de quatro anos. A artesã está sem trabalhar na pandemia, o marido que trabalha em um buffet também está parado.”Nós estamos sobrevivendo de doações dos vizinhos e das ONGs”, conta. Terminando o ensino médio ela e a filha estão com o ensino prejudicados sem atividades escolares em casa. “A minha filha está passando o tempo em casa brincando com pinturas, mas mesmo assim ela fica nervosa em alguns dias sem entender o que está acontecendo no mundo”. 

Medo da dengue

Ela não imaginava que a quarentena ia chegar ao atual ponto. Morando em um barraco de madeira, Daniele conta que apesar de não faltar água em sua casa aumentou os cuidados com a higiene usando álcool. Até o momento, os casos de coronavírus nas redondezas da sua casa são desconhecidos, e por isso, segundo ela,  mesmo com temor do vírus acha as medidas de isolamento social um exagero. A doença que preocupa mesmo Daniela e a família é a dengue, que está sem controle na favela e já fez de vítimas fatais até vizinhos próximos. 

Apoio

Fundado em 2012, o projeto EducAmar desenvolve atividades para que os moradores de Santa Luzia, consigam suprir suas necessidades básicas por meio da educação e da fé. Jéssica Motta, presidente da instituição, explica que o trabalho realizado atende cerca de 120 famílias e possibilita que os participantes possam ser responsáveis pelas conquistas pessoais. “O objetivo, além de levar fé, é fazer com que as pessoas da comunidade cresçam de maneira mais autônoma e não apenas entregando doações. A maioria das associações visam doar, o que não é a nossa visão. Queremos fazer com que eles sejam protagonistas das próprias vitórias e não vivam sempre precisando que alguém doe uma cesta básica ou uma roupa.”

A falta de centros educacionais e a evasão escolar são problemas enfrentados não apenas em Santa Luzia, mas também em toda a cidade Estrutural. Para auxiliar a população local, os projetos educacionais oferecidos pelo EducAmar permitem que os moradores, especialmente o público infantil,  tenham acesso à prática de atividades de ensino, físicas e culturais. 

“As crianças têm aula de reforço, inglês, capoeira, jiu jitsu, além de balé e música. Nós tínhamos uma parceria com uma rede de ensino superior, porém não foi possível continuar. Essa colaboração proporcionava a alfabetização dos pais e teve duração de um ano”, relata Jéssica Motta. Segundo a responsável pela associação, as participantes da comunidade trabalham em oficinas de artesanato e se reúnem mensalmente para discutir sobre as necessidades que elas possuem.

Outra atividade promovida é o Bazar Solidário, em que roupas, alimentos, brinquedos e produtos de limpeza são vendidos para a comunidade com valores simbólicos. “A gente monta como se fosse uma loja, e as pessoas compram por um preço acessível, que elas podem pagar. Isso gera renda para o projeto e cria uma responsabilidade para que eles não nos vejam como a iniciativa que doa coisas. Isso gera uma dignidade neles, pois podem comprar o que querem”, completa Jéssica.

A situação de vulnerabilidade social vivida pelos moradores de Santa Luzia tem gerado preocupação, principalmente, durante este período de pandemia. Jéssica  ressalta que a realidade das milhares de famílias é escassa de serviços essenciais. “Lá não têm acesso a saneamento básico, água, luz. Eles vivem do famoso ‘puxadinho’. O sistema de água e elétrico é feito pelos moradores mesmo, em que eles puxam da Estrutural. Então, elas vivem de forma precária e não tem o mínimo que a gente precisa de dignidade. Além disso, não possuem asfalto, as ruas são de terra, e convivem com esgoto a céu aberto. As famílias não têm moradia digna e a maioria são barracos de madeira. Na parte central, existem casas de alvenaria, pois é um pessoal que está lá a mais tempo  e que foi criando uma confiança para construir. Porém ainda há muitas residências de madeira com muitas pessoas morando em um cômodo só com banheiro. Elas vivem em extrema necessidade.”

Devido o período de quarentena e de isolamento social, o projeto EducAmar suspendeu as atividades presenciais. Porém realiza o acompanhamento dos participantes de maneira remota. “Nós temos um grupo de whatsapp com os moradores que tem celular. Os que não possuem, a gente tem famílias de referência que ficam responsáveis por eles. Além disso, fizemos uma ação com outras seis associações menores dentro da comunidade e realizamos a campanha SOS Santa Luzia. O objetivo era atender as família dos projetos com cestas básicas e produtos de higiene. As instituições fizeram o cadastramento de 1 mil famílias, e nós ficamos responsáveis por trezentas delas. Durante três meses, elas vão ser auxiliadas com esses produtos. A gente vai marcar datas, em que possam buscar os kits com horário marcado para evitar aglomeração”, esclarece Jéssica.

A reportagem entrou em contato com a Administração Regional do SCIA e Estrutural para comentar a situação dos moradores da comunidade de Santa Luzia, porém não obteve retorno até o fechamento da matéria.

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