Garis aprendem a ler e a escrever e comemoram com formatura

Pegar um ônibus não era nada fácil para Francisco Lino Gomes da Silva, 52 anos. Utilizar metrô era ainda pior, pois ele tinha que decorar o nome das estações. Para tudo isso, era necessário ler palavras básicas. Habilidade que o varredor de rua não tinha.

A situação começou a mudar quando ele, junto a outros 46 profissionais da Sustentare, empresa que presta serviço para o Serviço de Limpeza Urbana (SLU), começaram um curso de alfabetização. A formatura, cheia de alegria e orgulho, ocorreu na noite dessa quarta-feira (5).

Depois de nove meses de estudo, Francisco se diz orgulhoso por poder assinar seu nome e ler livros. Essa foi a primeira vez na vida que ele entrou em uma sala de aula como aluno. A escola não teve parte em sua infância, vivida em na terra natal Luzilândia (PI). Ele teve que trocá-la pelo trabalho na roça. Era o jeito de auxiliar a mãe, que era separada, a criar os irmãos.

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Em 1991, veio para a capital. “Era tudo tão difícil. Eu ficava muito perdido. Sempre tinha que perguntar para as pessoas para onde os ônibus estavam indo”, lembra. Isso mudou quando ele resolveu se inscrever no curso de alfabetização. “Agora, eu sei me virar muito bem. Reconheço os ônibus pela escrita. Coloco Deus na frente e vou para tudo quanto é lugar”, afirma o varredor.

Paletó

Tímido, Francisco estava meio sem jeito de ficar andando de terno e gravata. Uma vestimenta preparada para “para esse dia muito especial e gratificante”. Ele queria mesmo era encontrar as filhas que o apoiaram nessa jornada e comemorar a conquista. Todos os formandos receberam roupa e maquiagem de graça, por iniciativa de empresas apoiadoras (Lisdamas, Sonho Real e Instituto Embelleze).

A também varredora Maria Helena da Silva, 42, estava toda feliz com a noite de formatura. Para a mulher que abandonou a escola na 4ª série, retomar o estudo depois de todos esses anos foi uma luta, mas foi possível pois as aulas ocorriam no horário de trabalho, o que facilitava a presença dos estudantes.

O ensinamento ocorreu duas vezes por semana no auditório da unidade do SLU que fica no fim da L4 Sul, e atendeu a profissionais de 34 a 70 anos. Eles trabalhavam por algumas horas e, no restante do turno, recebiam as lições básicas de português e matemática.

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“Eu tenho orgulho do meu trabalho. Não tenho vergonha do que faço. Agora vai ser melhor ainda, porque vou conseguir ler tudo o que quero. Sou muito agradecida por esta oportunidade”, afirma a gari, com quase cinco anos de experiência e mãe de quatro filhos.

Palavras e instruções agora fazem sentido

Este é o quarto ano do projeto de alfabetização. Do início para cá, 140 pessoas foram formadas. A ideia veio de uma necessidade básica: que todos os funcionários consigam assinar a folha de ponto e ler os comunicados institucionais. A Sustentare emprega 2,5 mil trabalhadores na capital. A estimativa era que 70% deles eram parcialmente ou completamente analfabetos.

A empresa percebeu que, se os funcionários fossem alfabetizados, eles poderiam dar voos mais altos e conseguiriam autonomia. Esse foi o diagnóstico da psicóloga da Sustentare Amanda Teles. “Para eles, ter a capacidade de ler e escrever representa muito. Ler uma receita de bolo era difícil. Isso representa liberdade para eles”, diz.

Amanda foi a encarregada de dar as aulas para os estudantes e revela que foi gratificante ver o desenvolvimento deles. Ela lembra que no início do curso a maioria não sabia diferenciar seu nome e data de aniversário. Isso foi mudando aos poucos. Ao final, os alunos já pediam para ler as palavras que eram escritas no quadro branco.

A varredora Jane Marinho, 38 anos, tinha estudado até a 7ª série e acredita que a entrada da alfabetização em sua vida veio para facilitar. Nem mesmo as consequências da ceratocone, uma doença que afeta a estrutura da córnea e pode diminuir o grau de visão, a impediu de estudar. Ela não nega que teve muita dificuldade para enxergar o quadro, mas que não faltou auxílio da professora e dos colegas de trabalho e de estudo. Os livros também facilitaram bastante, já que era mais fácil de enxergá-los.

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Ela diz que tem gosto de pegar um livro e entender o que está escrito. O gostinho do aprendizado que sentiu não foi o suficiente. Ela quer continuar. “Eu vou seguir estudando. Quero me aprofundar”, afirma a trabalhadora.

Saiba Mais

Outras turmas vão ser abertas no próximo ano, até que o número de analfabetos totais ou parciais da empresa seja zerado.
Segundo IBGE, o número de pessoas analfabetas no Distrito Federal é de 60 mil pessoas, acima dos 15 anos. Elas não sabem ler nem escrever.

O número ainda é alto, se levado em consideração que a intenção dos governos Federal e local é acabar com o problema até o ano de 2024

João Paulo Mariano
Jornal de Brasília

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