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Abandono do Teatro Nacional, fechado há quatro anos, atrai usuários de drogas

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Governo deveria manter e preservar monumentos históricos e importantes para a sociedade, mas na prática, o que se vê é o abandono.

Ao menos 29 edificações no Distrito Federal são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de a capital deter o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Na teoria, isto quer dizer que todos esses reconhecimentos obrigariam o governo a manter e preservar monumentos históricos e importantes para a sociedade. Na prática, o que se vê é o abandono. O assunto volta à tona após um incêndio destruir o Museu Nacional do Rio de Janeiro, que carecia de reparos.

Um dos bens tombados é o Teatro Nacional Claudio Santoro. Há quatro anos de portas fechadas, o público tem apenas a possibilidade de acessar o foyer da Sala Villa- Lobos, reaberto em dezembro passado. O local passou por reparos, como a troca de vidros e instalação de sinalização de incêndio. Nessa reforma, foram gastos R$ 41,5 mil.

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O que prevalece, porém, é descuido com um espaço que marcou a história cultural do DF . Durante a apuração no local, a equipe do Jornal de Brasília flagrou pessoas em situação de rua usando drogas à luz do dia. Um homem fez ameaças caso houvesse fotos. Nas portas de acesso subterrâneo, mais rastro de usuários de drogas: latinhas usadas para o consumo de crack, camisinhas e roupas espalhadas, além do cheiro de urina e fezes.

Dentro do teatro, o vazio. Apesar de ter voltado a receber exposições, não havia nenhum visitante no local, nem mesmo peças ou obras no foyer. Na lista de presença, não mais que dez pessoas assinaram o livreto na porta de entrada. Um vigilante, porém, garantiu que o espaço tem recebido mais visitantes e ressaltou que a última exposição saiu de lá no início da semana.

O fim das obras do Teatro Nacional não está próximo. Sequer tem data para acabar. De acordo com a Secretaria de Cultura, a reforma será dividida em cinco etapas, ao custo total estimado em R$ 200 milhões. O objetivo é que o edifício atenda às normas de segurança e acessibilidade e se modernize.

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Rastros do uso de drogas são facilmente encontrados. Foto: Kléber Lima/Jornal de Brasilia

Muito trabalho e investimento pela frente

A primeira etapa da reforma do Teatro Nacional compreende a Sala Martins Penna. Prevê troca de revestimentos, cadeiras, iluminação e urdimentos (estruturação do teto do palco), além de intervenções para adequação da sala às normas universais de acessibilidade, combate a incêndio e pânico. No foyer, o painel de Athos Bulcão será restaurado, e o paisagismo, reformado. A obra está estimada em R$ 35 milhões e deve começar no fim do ano, com duração de 12 meses.

A segunda etapa será na Sala Villa-Lobos e no Espaço Dercy Gonçalves. Também inclui a troca de revestimentos e a adequação dos espaços às normas de acessibilidade, combate a incêndio e prevenção de pânico. A terceira etapa será a reforma da Villa-Lobos, da sala Alberto Nepomuceno e das Salas de Serviço. “A etapa compreende também a correção acústica da Sala Villa-Lobos, a reforma dos camarins e demais ambientes de serviço do teatro, além da restauração do painel de Athos Bulcão no foyer”, informa a Secretaria de Cultura.

A penúltima etapa será a reforma da área externa do teatro e do anexo, sede da secretaria. Haverá pintura, paisagismo e reparos nas vedações. A quinta – e última – etapa será a instalação de elevadores de palco e outros equipamentos cênicos. Tudo depende da conclusão dos primeiros passos.

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Catetinho

“Cuidado! Abelhas”. O aviso está nítido a quem entra na primeira casa da capital. Ao contrário do Teatro Nacional, no Catetinho, a estrutura da edificação – mesmo que de madeira – não apresenta muitos problemas. O que causa incômodo é a presença das abelhas. Em um aviso, a Subsecretaria do Patrimônio Cultural explica que a instalação dos insetos se deu por conta da mata próxima e pede desculpas pelo transtorno. “A retirada não destrutiva da colmeia, para um apiário de cultivo, está sendo providenciada”, diz o aviso.

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A estudante Patrícia Alves, 20 anos, levou a tia carioca Roseane Alves, 45, para conhecer o Catetinho. Eram as únicas visitantes no momento. “É a segunda vez que venho. Nas duas vezes, o movimento foi baixo”, observa a estudante.

Para Roseane, falta empenho para levar as pessoas aos museus. “Deveriam falar mais, levantar a discussão. O museu é como se fossem nossas fotos de infância, mas do País e do mundo. É preciso cuidar, trazer as crianças para conhecerem a nossa história”, defende.

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Roseane e Patrícia foram visitar o Catetinho, casa onde viveu Juscelino Kubitschek. / Foto: Kléber Lima/Jornal de Brasilia

Iphan e bombeiros acompanham situação

Maurício Goulart, analista de Infraestrutura do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), diz que a autarquia tem feito reuniões para tratar da conservação dos bens públicos. Em 2017, houve encontro com responsáveis pelos palácios do Planalto, da Alvorada, do Jaburu, do Itamaraty e da Justiça, além do Supremo Tribunal Federal. “O Iphan tomou conhecimento das prioridades de conservação elencadas por cada órgão. Nenhuma urgente ou capaz de colocar o edifício em risco”, acrescenta.

A respeito do Museu Vivo da Memória Candanga – estrutura que carece de reparos, como o JBr. mostrou ontem -, Goulart conta que houve obras de manutenção no ano passado. “Incluíram a recuperação estrutural de duas casas e de instalações elétricas em uma delas”, pontua. “Temos realizado um trabalho conjunto com a Secretaria de Cultura para tratar dos equipamentos sob sua responsabilidade. Nesse sentido, foram feitas vistorias ao Memorial dos Povos Indígenas e ao Teatro Nacional, este último com projeto de restauração em fase de captação de recursos pela Secretaria”, completa.

Vistorias

O Corpo de Bombeiros faz vistorias técnicas nas edificações para atestar a segurança. Esse procedimento, inclusive, contribuiu para o fechamento do Teatro Nacional em 2014. Atualmente, a corporação considera que não há necessidade de intervenções parecidas, apesar de haver “pendências pontuais”.

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Quatorze espaços foram vistoriados neste ano, e o cronograma de inspeções está em andamento.

No Catetinho, Panteão da Pátria, Museu Vivo da Memória Candanga, Museu Histórico de Planaltina e Memorial JK, não constam processos para vistoria.

Museu de Arte de Brasília e Espaço Cultural da 508 Sul serão inspecionados na conclusão das obras. O Museu da Imprensa e o Arquivo Público foram visitados recentemente e estão no prazo para cumprir as exigências. Há retorno para 4 de outubro ao Memorial dos Povos Indígenas. Já o Museu Nacional está regular. A Casa do Cantador e o Museu do Banco do Brasil não têm mostras permanentes, por isso as vistorias antecedem algum evento.

Versão Oficial

Em nota, a Secretaria de Cultura explicou quais são os cuidados que a pasta têm com os bens tombados pelo Iphan. “Tratamento da madeira: evitar a perfuração e manutenção preventiva periódica, incluindo controle de possíveis focos de incêndio (equipamentos e instalações) e de focos de infestação de insetos, micro-organismos, animais e plantas, além de controle de umidade”. As edificações de alvenaria exigem periodicidade menor de manutenção.

Procurada, a Unesco, que trata do tombamento e da conservação do patrimônio, não respondeu aos questionamentos.

Saiba Mais

De 2015 até este ano, a Secretaria de Cultura teve mais de R$ 538 milhões reservados para pagamento de pessoal, despesas e investimento. Deste valor, apenas R$ 332 milhões foram usados até o momento. A pasta alegou que nem toda dotação total prevista é utilizada, porque o valor vem de emendas parlamentares. “Na maior parte das vezes não são realizadas, pois dependem da gestão dos projetos da própria sociedade civil interessada em realizá-los e da aprovação dos parlamentares”, argumentou.

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Raphaella Sconetto
Jornal de Brasília

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