Mesmo com denúncia, fiscalização não aparece para conter pirataria no transporte

A motivação dos passageiros é quase unânime: falta de transporte público adequado.

A denúncia da pirataria escancarada em uma das principais rodovias do DF não abala o esquema. No mesmo dia em que o Jornal de Brasília revelou a artimanha que envolve até um agenciador na Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia) Sul, nem sinal da fiscalização por ali. Ontem, a equipe do JBr. retornou ao local e se deparou com o mesmo cenário: filas de carros e o mesmo agenciador recrutando passageiros. Em outros pontos do DF, a ação dos piratas é parecida.

Na Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), os carros formavam filas próximos à parada de ônibus da Rodoviária Interestadual e cada motorista aguardava a sua vez. O carro da vez ficava separado da fila e aguardava a lotação máxima, de quatro passageiros, para sair. Até com a mesma roupa do dia anterior, o “recrutador” continuava abordando os pedestres na tentativas de convencê-los sobre o embarque.

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Próximo à estação BRT do Park Way, o cenário é parecido. A diferença é que a figura do agenciador desaparece e os motoristas assumem a abordagem.


A dona de casa Luciene Lucínea, 48 anos, mora em Valparaíso (GO) e recorre ao transporte pirata. “Eu me sinto insegura, sabe? Ônibus não tem e a gente tem se recorrer aos piratas. É difícil pegar, tomo cuidado, fico preocupada. Mas, fazer o quê? É difícil pegar, mas geralmente pego com uma pessoa que já conheço”, comenta.

Luciene assegura que, se houve uma frota de ônibus adequada, não utilizaria o transporte pirata. “Prefiro pagar mais caro e esperar mais tempo do que correr riscos. Entretanto, do jeito que está não tenho escolha”, argumenta.

Edvânia Regis, 35, também recorre a motoristas conhecidos. “Já fechamos um grupo e ligamos para o motorista. Muitos deles já ficam diariamente aqui pela região. Inclusive, acabei de vir em um pirata. Ele me deixou na passarela”, expõe. Segundo ela, a maioria das pessoas acaba recorrendo ao serviço por causa da demora. “Não dá pra ficar duas, três horas esperando ônibus. Tenho que ir mesmo sendo perigoso”, admite.

“Qualquer um eu não pego. Procuro sempre embarcar com motoristas que conheço. O transporte está horrível. Para ir e voltar de Goiás é tranquilo. Porém, dentro do DF é mais complicado”, opina.

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Aumento nas autuações

De acordo com dados do Comando de Policiamento de Trânsito (CPTran) da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), em 2018 todos os meses registraram um número maior de autuações em comparação com o ano passado.

Em junho, por exemplo, foram contabilizadas 652 autuações, contra 539 no mesmo mês em 2017 – o que representa um aumento de 21%. O mês com o a maior variação foi fevereiro: 36% a mais de autuações.

Questão econômica

Segundo o tenente Eduardo Souza, integrante do CPTran, os dados podem ser explicados por dois motivos: o aumento na fiscalização e questões econômicas, como o preço da gasolina.

“O cenário dos transportes piratas mudou. Hoje, cerca de 50% deles são carros particulares, o que dificulta a fiscalização. Antes eram vans e micro-ônibus Mesmo assim, a gente tem feito estudos e verificamos quais são os locais em que há mais movimentação”, complementa.

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Foco
Segundo o tenente, novas operações serão feitas em breve. “Nossa atenção será voltada principalmente para os horários em que o movimento é grande. Pela manhã, das 6h às 8h, e no finalzinho da tarde, a partir das 17h”, finaliza.

Saiba Mais

O transporte pirata não é crime, é uma contravenção penal. A pena, branda, sequer leva à prisão. A infração é média, com multa de R$ 130,16, e o flagrado apenas assina um termo na delegacia. Na Justiça, a pena pode ser convertida em pagamento de cestas básicas.

Uma lei distrital de 1992, que previa multa de até R$ 5 mil, foi considerada inconstitucional pelo Tribunal de Justiça do DF.

Matheus Venzi
Jornal de Brasília

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