Violência contra a mulher: duas histórias, um destino

Para duas famílias, o Dia Internacional da Mulher tem um gosto amargo neste ano. Sandra Braga, 37 anos, e Romilda Torres, 41, foram mortas pelos companheiros de forma cruel. Elas não pertencem à mesma classe social ou círculo de amizades. Mas ontem, foram enterradas no mesmo cemitério, o Campo da Esperança da Asa Sul. Ambas foram vítimas de feminicídio na mesma semana.

O caso mais recente foi o de Romilda, morta pelo marido, Elson da Silva, 39, com tiros na cabeça na noite da última terça-feira. Em seguida, o homem se matou utilizando a mesma arma. Toda a situação ocorreu dentro do apartamento do casal, no Bloco C da 406 Sul. Tanto os dois filhos pequenos quanto a mãe da vítima, que morava com eles, ouviram tudo.

Segundo a Polícia Militar, Romilda e Elson teriam chegado em casa depois das 20h, foram para o quarto e se trancaram ali. Logo depois houve os disparos – o homem descarregou o revólver calibre 38. O caso chocou familiares, amigos e moradores do prédio.

Adeus

Na tarde de ontem, o enterro de Romilda foi marcado por homenagens à força de vontade da mulher e pela saudade dos que a cercavam. O corpo de Elson foi liberado do IML, mas não há informações se o enterro ocorrerá no DF ou em Tocantins, sua terra natal. Da família de Romilda, apenas a mãe e uma tia estavam na despedida. As crianças não foram levadas para o cemitério para preservá-las da situação.

Myke Sena

O auditor Dilmar Pereira é amigo da vítima desde os tempos de faculdade e tem boas lembranças dela. “Era uma guerreira. Chegou a Brasília sem nada. Se formou, começou a trabalhar no Sebrae e fez a lotérica”, diz. O homem não conhecia bem Elson, mas se surpreendeu com a forma que tudo ocorreu. Romilda era consultora do Sebrae há 14 anos e tinha uma lotérica no Paranoá, onde o autor do crime também trabalhava.

Em nota de pesar, o Sebrae informa que Romilda “traçou uma trajetória de sucesso”, além de ser defensora do empreendedorismo feminino. Como colaboradora da instituição, ela coordenou a Feira do Empreendedor e esteve à frente do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios. “A instituição amanheceu de luto e está oferecendo todo o apoio à família da colaboradora”.

Casal deixa dois filhos

A única irmã de Romilda por parte de mãe, Rachel Torres, 29, diz que a família está em choque. “Minha irmã era uma pessoa maravilhosa. Muito feliz com a vida”, relata a mulher, que soube da morte por meio de primas, que, como ela, moram nos Estados Unidos.

Rachel revela que o relacionamento do casal começou há pouco mais de sete anos e logo veio a primeira filha. Um ano depois, nascia o caçula. Romilda não contava sobre esses assuntos, mas a irmã sabe que as brigas começaram de dezembro para cá, e o casal tentava se separar. Elson, inclusive, estava fazendo terapia por estar com início de depressão. “Ele gostava dela. Mas virou um amor doentio, possessão, e acabou em tragédia”, lamenta. Ela garante que não houve casos anteriores de violência.

A mãe das duas vai cuidar das crianças. Rachel virá ao Brasil nas próximas semanas para ficar um tempo com os sobrinhos e a mãe.

Arma de outra pessoa

A investigação é feita pela 1ª DP (Asa Sul). O delegado João de Ataliba Neto afirmou que a motivação do feminicídio, seguido de suicídio, teria sido pelo processo de separação. Contudo, não havia histórico de violência doméstica. O próximo passo da investigação é identificar de que forma Elson teria conseguido o revólver calibre 38. Sabe-se que a arma pertence a uma terceira pessoa, que terá a identidade preservada.

Caso Sandra

No caso de Sandra Braga (ao lado), morta no último domingo, o companheiro e autor do crime Márcio do Nascimento Braga, 36, está preso desde a noite do dia do feminicídio. Para o delegado que investiga o caso, Johnson Kenedy, da 4ª DP (Guará), não resta dúvidas de que ele tenha espancado e ateado fogo enquanto a mulher ainda estava viva. O enterro dela foi na manhã de ontem. Nenhum familiar de Sandra conversou com a equipe do Jornal de Brasília, mas amigos afirmaram que, antes do envolvimento com drogas, ela auxiliou muitas pessoas com a capoeira.

Ponto de vista

Para a integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre as Mulheres da Universidade de Brasília (Nepem/UnB), Lourdes Bandeira, os dois casos mostram que não houve diminuição dos crimes violentos contra mulheres. Ela ainda analisa que o caso de Romilda mostra a motivação clássica para grande parte desses crimes: o ciúme e a não aceitação do divórcio. A especialista indica que o problema de várias separações é que alguns homens rejeitam a ideia de que a mulher não esteja mais com eles. “A separação representa uma perda de controle. Aquela mulher não pertenceria mais a ele”, afirma, ao lembrar que “a violência, lamentavelmente, é democrática” e faz vítimas em qualquer classe, como é o caso de Romilda e Sandra. Para mudar, é preciso combater as estruturas sociais que levam ao machismo e até mesmo dar força para que as mulheres denunciem a violência e tenham chance de ver os criminosos pagarem.

João Paulo Mariano
Jornal de Brasília

Adicionar Comentário

Clique aqui para adicionar um comentário

doze − 5 =

Send this to a friend