Três mulheres e a mesma estatística: atacadas pelos maridos e nas próprias casas

Imagem Ilustrativa

Edna não queria sexo e foi incendiada. Mary Stella estava se separando do marido que teria casos extraconjugais e levou tiros. Romilda também queria pôr fim à relação e foi morta com disparos de arma de fogo.

As três mulheres não se conheciam, mas se encontram nas estatísticas: tiveram como algozes os próprios companheiros, têm mais de 30 anos e foram feridas em casa, como a maioria das vítimas de feminicídio tentado ou consumado do DF. Somente uma delas está viva, mas em estado grave: a própria Edna. É ao menos o quarto caso no mês.

As chamas que queimaram 75% do corpo de Edna Maria de Jesus, 43 anos, também atingiram o esposo, Nivaldo dos Santos, 46 anos, que saiu ainda mais ferido que ela, com 90% da pele afetada. O casal está internado em estado grave e as fuligens agora compõem o cenário de casa, repleta de materiais inflamáveis, na QNQ 4 de Ceilândia – cidade com maior número de casos de feminicídio tentado e consumado.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Na manhã deste domingo (18), o homem pegou um galão com gasolina, jogou na esposa e ateou fogo por ela ter recusado sexo na noite de sábado e manhã de domingo. As discussões se estenderam após a mulher impedir que ele fosse à Feira do Rolo. A Polícia Militar foi acionada para a ocorrência de violência doméstica e se deparou com a mulher gravemente ferida na calçada.

“Quando chegamos, populares indicaram a direção para onde o suspeito havia fugido. Ele assumiu que pegou gasolina, jogou no corpo dela e eles entraram em uma briga. Não se sabe como o fogo iniciou”, afirmou o tenente Luciano Lino, do 10º Batalhão da PMDF.

O suspeito tentou fugir após o crime, mas foi capturado a cerca de 70 metros da residência, onde eles moram há dois meses. No entanto, bastante ferido, Nivaldo não conseguiu correr.

Fuligem e móveis queimados compõem a cena do crime. Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília

Surpresa

O casal foi socorrido e levado em estado grave ao Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Um irmão da vítima afirmou que o casal nunca havia relatado problemas. Na vizinhança, ninguém diz ter visto discussões anteriores. “É inimaginável. Nunca soubemos de nenhum problema entre os dois. É um casal tranquilo”, diz o corretor de imóveis Antônio Magalhães, 53 anos, irmão de Edna.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


 

Ele soube do ocorrido nas primeiras horas da manhã. Se dizendo surpreso, ele afirma que conversou com a mulher, que indicou que o marido estava nervoso. Eles não têm filhos juntos. Edna trabalha como vendedora de móveis usados, carros e terrenos. “É trabalhadora, os dois são. Não dá para engolir o que aconteceu”, desabafa o irmão.

O caso será apurado pela 19ª Delegacia de Polícia, no P Norte, e foi registrado como tentativa de feminicídio, tentativa de homicídio e incêndio.

Ao menos quatro vítimas dos parceiros neste mês

Somados, os casos de feminicídio tentado e consumado no Distrito Federal cresceram 115% no ano passado. Em 2016, foram 20 assassinatos e 18 sobreviventes. Em 2017, os números saltaram para 19 e 82, respectivamente. Nos dois casos, segundo números da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social (SSP-DF), a maioria das vítimas têm acima de 30 anos e é alvo dentro da própria casa. Nos últimos dois anos, o mês de março teve ao menos quatro mulheres mortas e outras quatro feridas.

O caso de Edna aconteceu exatamente dois dias após o piloto metroviário Júlio César dos Santos Oliveira, 38, atirar contra a esposa Mary Stella Maris Gomes Rodrigues dos Santos, 32, e depois se matar, na QNN 4, também em Ceilândia. O filho do casal de dois anos presenciou o crime e a mulher chegou a pedir socorro antes de ser morta. O histórico do casal não era tranquilo. Eles teriam se separado e estavam em processo de reconciliação, mas as brigas começaram a ficar mais intensas, segundo a vizinhança. Os dois foram enterrados neste fim de semana.

Dez dias antes, em 6 de março, o vigilante Elson Martins da Silva, 39 anos, matou a tiros a esposa e servidora pública, Romilda Souza, 40. A execução ocorreu no apartamento da família, no terceiro andar do Bloco C, na SQS 406. Os filhos do casal, de 3 e 4 anos, estavam com a avó materna no mesmo apartamento, mas não presenciaram a cena.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


No início do mês, Sandra Braga, 37 anos, foi espancada e deixada para morrer pelo homem que era seu companheiro há mais ou menos dois anos, na QI 11 do Guará. Antes de abandonar o local, Márcio do Nascimento Braga, 36, teria ateado fogo no corpo da mulher, que ainda estava viva. Cinco horas após o crime, ele foi preso em flagrante por ser a principal suspeita do feminicídio. Ele nega, mas a polícia não tem dúvidas, embora não saiba a motivação.

Saiba mais

Desde 2015, o homicídio contra mulheres por razões da condição de sexo feminino é tipificado como feminicídio. A Lei 13.104, que completou três anos neste mês, alterou o Código Penal para incluir esta como mais uma modalidade de homicídio qualificado.

O feminicídio acontece em dois casos: quando há violência doméstica e familiar, e quando existe menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Ainda não foram disponibilizados os dados em relação ao crime neste ano.

Jéssica Antunes
Jornal de Brasília

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Adicionar Comentário

Clique aqui para adicionar um comentário

três − 1 =

Send this to a friend