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Pouco discutida, paternidade na adolescência sequer tem números que dimensionem os casos

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Os pais-meninos são invisíveis. Não há estatísticas oficiais que indiquem quantos jovens de 13 a 19 anos carregam a responsabilidade da paternidade. São ausentes os dados sobre a população masculina nos sistemas oficiais de informação, e a gravidez na adolescência é tratada apenas do ponto de vista feminino. Enquanto isso, o Brasil tem a maior taxa de adolescentes grávidas da América Latina.

Ontem o JBr. mostrou que garotas de 13 a 19 anos foram responsáveis por 15% dos partos do DF, e que 12 mil se tornaram mães nos últimos dois anos. Não há informações, porém, de quantos meninos adolescentes viram filhos nascer. Se os companheiros daquelas meninas tiverem a mesma faixa etária, pelo menos 5.686 jovens se tornaram pais em 2017. Os números reais, porém, são desconhecidos.

As estatísticas envolvendo garotos se limitam à prática sexual. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), divulgada no fim do ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indica que o número de meninos que frequentam o 9ª ano do Ensino Fundamental e já tiveram relação sexual é o dobro do de meninas no DF.

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Dos alunos do sexo masculino, 31,7% declararam já ter se relacionado sexualmente alguma vez, enquanto entre os do sexo feminino deste mesmo grupo o percentual é de 15,6%. Quando o assunto é educação, a gestação precoce eleva em quatro vezes o risco de evasão de meninas, mas praticamente não afeta o ensino masculino.

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Uma pesquisa feita em parceria com Ministério da Educação, a Organização dos Estados Ibero Americanos (OEI) e a Faculdade Latino- Americana de Ciências (Flacso) indicou que 18,1% das garotas apontaram a gravidez como principal motivo para abandono.

Por outro lado, somente 1,3% deles declararam que interromperam os estudos por motivo de gravidez de companheiras. Estudos associam a paternidade precoce ao abandono escolar, a empregos mal remunerados ou desemprego, a problemas familiares e de conflitos no relacionamento do casal.

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Atitudes distintas

João (nome fictício) descobriu a paternidade recentemente. Aos 15 anos, ele tem um relacionamento de pouco mais de um ano com uma vizinha da mesma idade em Sobradinho. Faz pouco mais de três meses que o casal soube da gravidez, que ele prefere manter em segredo na escola. “Ainda não sei o que fazer, mas vou criar e cuidar desse filho”, assegura. A menina, por outro lado, já planeja largar os estudos “ao menos por enquanto”, para se dedicar ao filho.

No Sol Nascente, em Ceilândia, Maria (nome fictício) garante: “Meu filho não tem pai”. Aos 16 anos, já carrega Tomás no ventre há seis meses e, nas costas, a responsabilidade da maternidade. Sem se estender sobre o garoto com quem se relacionou, diz que eles se conheceram na escola e ele tem 17 anos. Aluna do 1º ano do Ensino Médio, a menina conta que tem mágoa pela reação do rapaz quando soube da gestação. “Ele fugiu completamente da responsabilidade. Fingiu que não era com ele, me acusou de tudo quanto é coisa e desapareceu. É um moleque, vou criar meu bebê sozinha”, revela.

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Mudança de vida

A surpresa com o resultado positivo do teste de gravidez fez Guilherme Alves, hoje aos 18 anos, iniciar a vida profissional. “Estávamos namorando há um tempo. Ela já tinha terminado o Ensino Médio e passado na Universidade de Brasília (UnB), enquanto eu estava no terceiro ano”, conta.

Com apoio da família, o rapaz arregaçou as mangas e conseguiu um emprego como menor aprendiz, de auxiliar administrativo, por meio período. Na nova rotina, não teve de trocar de horário ou de abandonar os estudos.

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Miguel nasceu em abril de 2017, e Guilherme concluiu o Ensino Médio no fim daquele ano. A mãe da criança, Marilise Faria Soares, de 19 anos, trancou a faculdade de Terapia Ocupacional após o primeiro semestre e ficou um ano fora das salas de aula.

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“O bebê era muito dependente. Agora conseguimos creche e ela vai voltar a estudar”, conta o rapaz, que admite: “Para o homem é uma situação mais tranquila”.

“Me senti pai só quando ele nasceu, quando o vi e peguei no colo”, completa o jovem. O casal continua junto, e a vida profissional prosperou: Guilherme foi contratado para o cargo de auxiliar administrativo. “Acho que sou uma exceção mesmo. É difícil encontrar alguém que tenha ou crie responsabilidade ainda jovem”, aponta o pai do Miguel.

Ponto de vista

Professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), Tânia Mara Campos destaca que, culturalmente, a responsabilização recai sobre a menina. “Se homens adultos pouco assumem a responsabilidade quando não têm relação estável ou não tenham desejado a gravidez, com garotos isso é ainda mais intenso”, afirma. “Existe a postura de que a menina deveria ter tido mais cuidado e a família, ter sido mais repressora”, diz a socióloga. Assim, o ato, tido como irresponsável e reprovável, é jogado sob a incumbência feminina. “Garotos incorporam que não cabe a eles a função de uso de camisinha ou contraceptivo ou, ainda, de estarem presentes. E isso não é cobrado dele. O rapaz é afastado da responsabilidade”, analisa.

Jéssica Antunes
Jornal de Brasília

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