Homem sofre surto psicótico e foge duas vezes da UPA de Ceilândia

Em surto, um paciente psiquiátrico de 39 anos conseguiu fugir duas vezes da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Ceilândia.

Agressivo, o homem de quase dois metros de altura e mais de cem quilos é diagnosticado com esquizofrenia e, segundo a família, sofre de descontrole há pelo menos oito dias. Na unidade médica, ninguém se responsabiliza pela evasão do homem, que, adepto de artes marciais, chegou a agredir funcionários e parentes.

“Os pacientes psiquiátricos são vulneráveis, mas saem quando querem. Isso é omissão. Se o paciente está no hospital, a responsabilidade tem que ser da unidade. Em surto, ele não responde por ele mesmo. Pode ser morto ou matar, coloca a vida dele e dos outros em risco. O hospital diz que não tem suporte para receber esse tipo de paciente. E não tem mesmo. Eles têm medo, não têm preparo”, reclama a mãe, Maria do Socorro Protázio Souza, 56 anos.

Segundo a Secretaria de Saúde, ninguém é obrigado a ficar internado. O homem foi diagnosticado com o distúrbio crônico no ano passado, quando morava no Maranhão, doença diagnosticada em mais de 150 mil brasileiros todo ano. Após a identificação da patologia psiquiátrica, ele perdeu o emprego e voltou à terra natal. Aqui, de acordo com a mãe, ele conseguiu emprego como vigilante, mas largou o tratamento.

Saiba mais

  • Ontem, cinco pacientes psiquiátricos aguardavam, amarrados, a transferência para o hospital psiquiátrico. Conforme apurou a reportagem, o déficit de funcionários e as condições precárias do Samu, já mostradas pelo Jornal de Brasília, comprometem a remoção.
  • Os problemas na UPA de Ceilândia não se limitam aos pacientes psiquiátricos. Ontem, a unidade não tinha água. Pela manhã, apenas um clínico geral foi encontrado pela reportagem e a fila de espera tinha mais de dez pacientes.
  • Um funcionário chegou a avisar das dificuldades de atendimento, já que prioridades devem ser observadas. Enquanto os pacientes aguardavam, casos de picada de cobra e de Acidente Vascular Cerebral eram recebidos.

De um lado para outro

A família levou o homem a um Centro de Atenção Psicossocial (CAP), que emitiu encaminhamento à UPA no domingo de manhã com hipótese diagnóstica de surto psicótico. No início da tarde, o Samu foi acionado para atendê-lo em casa, na QNN 19. Horas depois, o paciente foi levado pelo Corpo de Bombeiros à unidade de saúde.

“Estava agitado, agressivo, não aceitou medicação e foi embora. Retornou na segunda-feira, às 11h, foi avaliado pela equipe médica e de enfermagem. Foi internado, mais uma vez recusou medicação e tornou a evadir-se após agredir servidores”, informou a Secretaria de Saúde, em nota. A pasta diz que inicialmente a contenção foi rejeitada pela família, que nega. “Pelo contrário, nós pedimos que ele fosse amarrado”, diz a irmã, Jemima Souza da Costa, 33 anos.

Enquanto a secretaria diz que o homem foi embora, a família garante que houve fugas. Eles tiveram de buscar o paciente pelas ruas após a segunda evasão. Era madrugada quando conseguiram levá-lo de volta à UPA, onde ele foi medicado e contido pela primeira vez. O homem tem três filhos, sendo uma bebê, e esposa. Nas ruas sem atendimento, ele teria atacado a mulher e o padrasto. A Polícia Militar não foi acionada.

Internação em caso de risco aprovada pelo CFM

A Secretaria de Saúde diz que existe um protocolo para atendimento a pacientes em surto em pronto-socorro de unidades não psiquiátricas: “Requer o acolhimento, avaliação médica e, somente depois, verifica-se a possibilidade de remoção para uma unidade com atendimento psiquiátrico”. No caso, o atendimento em clínica médica foi prestado, mas as fugas teriam impedido a transferência.

Ele foi levado ontem ao Hospital São Vicente de Paulo. Referência em atendimento psiquiátrico na rede pública, a unidade não recebe pacientes descontrolados.

A Resolução 2.057/2013 do Conselho Federal de Medicina prevê que o paciente com doença mental pode ser internado involuntariamente se, devido à doença, apresentar condições como incapacidade de autocuidados, risco de morte ou prejuízos à saúde, autoagressão, prejuízo moral ou patrimonial, além de agressão à ordem pública.

A reportagem ouviu uma psiquiatra da Secretaria de Saúde, que afirmou haver divergência no assunto. Segundo ela, é muito difícil controlar a situação especialmente se não há equipe psiquiátrica.

O novo contrato de segurança patrimonial redimensionou o efetivo de vigilantes nas UPAs. Desde domingo, a de Ceilândia passou a operar metade dos profissionais. O Sindicato dos Vigilantes não tinha conhecimento do acontecido, mas confirmou que a saída do paciente deveria ter sido impedida.

“Infelizmente o Estado não tem preocupação em proteger o funcionário nem o paciente”, opina Marli Rodrigues, presidente Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde (Sindsaúde).

SAÚDE MENTAL

Atendimento na rede pública deve ser ampliado até dezembro, estabelece Justiça

  • O DF tem até dezembro deste ano para ampliar a rede de atendimento a pessoas com transtornos mentais. O prazo é
    extra e foi estabelecido pelo Tribunal de Justiça. O limite inicial, definido em 2013, expirou em setembro de 2014 sem cumprimento das metas.
  • A reforma na saúde mental foi determinada pela lei federal 10.216, sancionada em 2001. Um dos pontos do texto prevê a extinção progressiva dos leitos para internação de longa permanência em hospitais psiquiátricos.
  • Em 2017, o Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) completou 41 anos. Por mês, a unidade atende cerca de 1,2 mil pacientes com mais de 18 anos que precisam de atendimento psiquiátrico.

Jéssica Antunes
Jornal de Brasília

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