Empresa quer bulevar de lazer no Mané Garrincha

O Governo de Brasília enrola para definir o destino do Estádio Mané Garrincha. Enquanto isso, prejuízos na ordem de R$ 10 milhões ao ano oneram os cofres públicos desde 2015, com perspectiva de aumento.

O processo para transformar o espaço, com o Ginásio Nilson Nelson e o Complexo Aquático Cláudio Coutinho, mediante concessão ou Parceria Público-Privada (PPP) – o governo ainda não sabe – Arena Plex se arrasta desde maio do ano passado, quando a Agência de Desenvolvimento (Terracap) fez o chamamento para realização de estudos de viabilidade.

A Dubois e Co, empresa que apresentou o projeto com as diretrizes de ocupação do complexo, oficializado em maio de 2017, aguarda a licitação ser, enfim, lançada, para as obras serem feitas em até quatro anos. O presidente Richard Dubois defende a polêmica sugestão de implantar um centro comercial e de lazer no espaço.

“Olhando para estádios de sucesso no exterior, eles atraíram cinema, bares, boates e outros aparelhos de lazer que permitem que as pessoas frequentem”, diz, acrescentando que existe estimativa de reunir um milhão de pessoas ao mês e gerar quatro mil empregos diretos.

Ele contesta a pecha de “shopping” aplicada à expansão e garante que o projeto sugerido por sua empresa respeita a legislação local, sem ferir o tombamento da área, até porque, segundo Dubois, não engloba boa parte dos 800 mil m² a serem licitados.

Richard Dubois alerta que demora custa R$ 10 milhões ao ano para o GDF e avisa que o bulevar não pode se confundir com um shopping, mas adotaria modelo de centros de todo o mundo. Foto: Kléber Lima

“Pegamos estudos desde a época de Lúcio Costa e ali foi criado como um Setor de Entretenimento e Lazer. O autódromo também não é tombado, mas tem parâmetros de uso e ocupação. Não se pode construir nada com mais de 12 metros de altura, não se pode hotelaria, enfim. Mas não existe tombamento”.

Richard Dubois

Para o empresário, Brasília não tem uma referência quando o assunto é entretenimento, a exemplo de grandes cidades como Paris, e o bulevar pretendido para o ArenaPlex pode fazer a capital ganhar sua versão de Champs-Élysées. “O que vai para atividade comercial é menos de 20% da área total. Como tem gente passando e o objetivo é rentabilizar, pode ter uma lojinha, uma conveniência”, explica o presidente da Dubois e Co.

ArenaPlex traz investimento privado

Quando o governo foi questionado sobre a concessão do Mané Garrincha e dos espaços adjacentes, teve dificuldades ao responder sobre as polêmicas envolvidas. Além da dificuldade de refutar o argumento de que vai haver um shopping na região, a Terracap se confundiu ao comentar sobre uma “chancela” do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para o projeto.

À época, a entidade afirmou ter apenas recebido uma “minuta de Plano de Uso e Ocupação do Setor de Recreação Pública Norte”. O órgão, porém, garantiu que havia consenso sobre a necessidade de dinamizar o uso daquele espaço para abrigar, também, fins comerciais.

Para Richard Dubois, não há dilema. “Para o governo, o problema é que eles têm uma área mal utilizada, com péssima manutenção e que consome dinheiro. Se eles resolverem a ocupação da arena e o equacionamento financeiro, está de ótimo tamanho. Minha missão é ver como fazer isso e criar algo que dê retorno econômico”, resume.

Ele lembra que existem vários custos inerentes para quem assumir o ArenaPlex, dentre eles custos com contratos de seguro, cuja apólice pode ultrapassar R$ 2 milhões ao ano, e a necessidade de contratar uma equipe de segurança.

“A área está abandonada. Falam, ‘ah, mas vai fazer um bulevar ali’. Não estamos falando de um jardim do Éden, não é uma coisa imaculada. Você passa ali e está tudo largado, as quadras não servem. Estamos querendo ocupar um espaço sem nada”, defende o empresário.

A expectativa é que a concessão de 35 anos a ser licitada traga retorno, em impostos, de R$ 3 bilhões ao Governo de Brasília ao fim do contrato. Se isso se concretizar, o Mané vai retornar seu investimento por volta de 2050. Animador, não?

SAIBA MAIS
  • Existem projetos sociais conduzidos por pastas do Governo de Brasília no Complexo Aquático Cláudio Coutinho. Na proposta de ocupação da Dubois e Co, as iniciativas teriam de ser preservadas e a manutenção do complexo, que pode ser reconstruído ou reformado, ficaria sob responsabilidade da empresa que assumisse.
  • O Ginásio Nilson Nelson também teria de passar por reformas. A mais imediata, apontada no estudo apresentado, seria no teto do local.
  • Não existe tombamento na área, mas uma faixa de restrição a edificações que vai do fim do Eixo Monumental a até 120 metros adiante.
  • Segundo o estudo, em 2015, o Estádio Mané Garrincha, que custou entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões à Terracap, teve receita de R$ 2,4 milhões e custos de 13 milhões. Assim, o prejuízo total naquele ano foi de R$ 10,6 milhões.
  • O custo de implementação do bulevar na região e da criação de estruturas para suportar a nova destinação ficariam em mais de R$ 400 milhões.

Eric Zambon – Jornal de Brasília

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