Verba para a educação no DF cai 73% em 4 anos

Enquanto isso, filas de pais, que viram a madrugada em busca de vagas para os filhos, são o retrato dos desafios da rede pública local.

Com a queda livre dos investimentos na educação do Distrito Federal, especialistas e professores projetam mais um ano de dificuldades nas escolas públicas. Segundo a secretário de Educação, Júlio Gregório, a gestão Rollemberg (PSB) espera reverter a escassez dos investimentos com a captação de R$ 129 milhões em recursos federais e a racionalização dos gastos atuais, incluindo aluguel de imóveis para a contenção dos gastos com transporte escolar.

Ontem, o JBr. revelou que, no decorrer dos últimos quatro anos, o volume de investimentos do governo encolheu vertiginosos 73,5%, caindo do patamar de R$ 82,2 milhões para apenas R$ 21,8 milhões, entre 2013 e 2016. Os números partiram de uma pesquisa no Sistema Integrado de Gestão Governamental (Siggo).

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A justificativa o governo para queda nos investimentos começa pela crise financeira nacional. Em função da falta de dinheiro, não haveria fôlego para grandes obras e a prioridade é pagar em dia a folha de professores e demais profissionais da pasta. Mesmo com escasso desembolso, o Executivo garante o cumprimento dos percentuais mínimos exigidos pela legislação.

“Nos anos de 2013 e 2014, o governo recebeu mais de R$ 63 milhões da União para a construção de creches. Depois disso, os repasses diminuíram muito”, argumentou o secretário. Também pesou sobre os ombros da pasta de Educação a dívida de R$ 783 milhões deixada pelo governo de Agnelo Queiroz (PT).

Para este ano, conforme o relato de Gregório, a pasta tem a previsão de receber R$ 19 milhões da União para a construção de creches e outros R$ 110 milhões para investimentos da bancada brasiliense no Congresso Nacional. “Também vamos racionalizar nossas despesas ao máximo, sem perder a qualidade do ensino”, prometeu.

Nesta linha, o governo planeja transferir gastos com transporte escolar para o aluguel de imóveis, que receberão escolas em regiões como Paranoá, São Sebastião, Recanto das Emas e Ceilândia. Apenas no passado, o GDF desembolsou R$ 140 milhões em transporte de alunos. Além da economia, a medida buscará oferecer melhores condições aos estudantes.

Para o diretor do Sindicato dos Professores (Sinpro), Cleber Soares, a precariedade não atinge apenas as salas de aula. Sem a atenção devida do poder público, os arredores de várias escolas viraram praças de compra e venda de drogas.

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Pais acampam em escola

Foto: Myke Sena
Foto: Myke Sena

No Centro de Ensino Médio Setor Oeste (Cemso), na 912 Sul, pais de alunos acampam na entrada da escola para garantir uma vaga na unidade. Primeiro da fila, o militar da Aeronáutica Anderson Nogueira, 37 anos, está ali desde o último sábado. “Meu filho vai para o 1º ano, o mais disputado de todos. Estamos nos revezando para conseguir uma vaga aqui porque é o colégio mais perto da nossa casa”, explica ele, que é morador da Asa Sul.

Ao todo, a lista informal já tem 36 nomes. A expectativa era de que o número de vagas seja divulgado hoje, mas ainda há incertezas. A matrícula, no entanto, será feita somente amanhã. “Eu não tenho barraca. Estou acampando no carro mesmo. Não gostei do colégio para o qual meu filho foi direcionado, por isso estou tentando a transferência para esse. É um grande sacrifício. Fico revoltada com o governo de ter que passar por isso”, conclui a autônoma Ijupiara Machado Campos, 35.

Ponto de vista

“O declínio dos investimentos revela a falta de compromisso do governo. O aluno ainda não é o centro da escola. Sofremos com a ausência de plano que unifique estudantes, professores e pais. E Rollemberg ainda não apresentou proposta alguma”, alerta o doutor da UCB Afonso Galvão, que atualmente é professor visitante da Alberta University (Canadá) e da Flórida State University (EUA). O especialista também aponta a perda de recursos nas áreas-meio: “No Canadá, a educação pública é prioridade. Cada escola recebe verba para pagar tudo, inclusive professores. Elas são constante- mente avaliadas. Se um colégio que vai mal, é fechado; demite-se todo mundo e recomeçam do zero. Existe muita preocupação com a qualidade. Isso poderia ser aplicado no DF. Basta querer”.

Francisco Dutra e Manuela Rolim
Jornal de Brasília

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