PT do DF pede abertura de processo para cassar mandato de Celina Leão

Presidente afastada da Câmara é citada em suposto desvio de emenda.
TJ decidiu por saída de toda Mesa Diretora; Celina nega irregularidade.

Do G1 DF

O diretório do PT no Distrito Federal protocolou nesta terça-feira (6) um pedido de abertura de processo para cassação da presidente afastada da Câmara Legislativa, Celina Leão (PPS), por quebra de decoro parlamentar. A polícia apura denúncias da deputada Liliane Roriz (PTB) de que Celina articulou um esquema de pagamento de propina e desvio de recursos de emendas parlamentares que seriam usados para pagar contratos de gestão de UTIs.

“É preciso que a própria Casa corte na pele, e o primeiro passo é afastando a Celina do seu mandato pela quebra de decoro parlamentar”, afirmou o presidente da legenda no DF, Roberto Policarpo.

A assessoria Celina disse que ela já esperava o pedido de cassação do PT, já que sempre foi opositora ao partido, e que a deputada tem certeza de que a situação será completamente esclarecida.

A Câmara já recebeu outros dois pedidos de investigação contra a presidente afastada da Casa e também contra os outros deputados suspeitos de liberar dinheiro para pagar empresas de UTIs em troca de propina.

São citados na denúncia os membros afastados da Mesa Diretora Raimundo Ribeiro (PPS), Julio Cesar (PRB) e Bispo Renato Andrade (PR) e o distrital Cristiano Araújo (PSD).

Essas representações serão avaliadas pela nova Mesa Diretora, antes de seguir para o departamento jurídico da Câmara Legislativa. Os parlamentares negam participação em irregularidades.

Denúncia
Nesta terça-feira, a TV Globo divulgou que o chefe de gabinete de Liliane Roriz, José Adenauer Lima, disse ao Ministério Público e à Polícia Civil do Distrito Federal que Cristiano Araújo foi o deputado que mais se mostrou interessado na emenda parlamentar que destinou R$ 30 milhões para pagamento de dívidas em atraso do governo do DF com seis empresas que prestam serviço de UTI.

O governador Rodrigo Rollemberg, a presidente da Câmara Legislativa, deputada distrital Celina Leão, a vice-presidente da Câmara Legislativa, deputada distrital Liliane Roriz, durante evento de homenagem ao ex-governador Joaquim Roriz em 2015 (Foto: Tony Winston/Agência Brasília)
O governador Rodrigo Rollemberg, a presidente da Câmara Legislativa, deputada distrital Celina Leão, a vice-presidente da Câmara Legislativa, deputada distrital Liliane Roriz, durante evento de homenagem ao ex-governador Joaquim Roriz em 2015 (Foto: Tony Winston/Agência Brasília)

A reportagem da TV Globo teve acesso ao inquérito da “Operação Drácon”, que apura se parlamentares do DF receberam propina em troca da liberação de verbas dessas emendas. De acordo com o depoimento de Lima, Araújo “veio imediatamente lhe cobrar” o recurso. “Cadê a emenda?” questionou o distrital, segundo o chefe de gabinete de Liliane.

Em outro trecho do inquérito, o ex-secretário-geral da Câmara Legislativa do DF Valério Neves disse em conversa com Liliane que eles tentaram conversar com Afonso, “que não garantiu nada”. As investigações apontam que ele seria o presidente da Associação Brasiliense de Construtores (Abrasco), Afonso Assad.

O dirigente da entidade disse ter sido sondado por dois deputados para agilizar liberação de verbas para obras, em troca de propina. O tema foi debatido em três reuniões com Bispo Renato Andrade (PR) e Julio Cesar (PRB), que teriam colocado as emendas parlamentares “à disposição” para investimentos. O empresário diz ter sugerido a aplicação das verbas em obras de manutenção predial – reforma de escolas e unidades de saúde, por exemplo.

Os áudios com conversas de Valério Neves mostram que ele citou Araújo como parte do suposto esquema. “Enquanto o Cristiano tem um negócio que pode render no mínimo 5[%] e no máximo 10[%], fica em torno de 7[%]”. O negócio envolveria as UTIs. A conversa prossegue. Neves diz “’peraí’, não teve jeito, vamos botar tudo num lugar que tem jeito”.

A assessoria de Araújo diz que a pressa para aprovar a emenda era natural, pois se tratava de um projeto importante para a sociedade. A reportagem da TV Globo não conseguiu contato com Valério Neves. Os deputados investigados negam participação em qualquer irregularidade.

Encaminhamento
A parte das investigações que se refere ao suposto esquema de propina paga para firmar contratos com as secretarias de Saúde e da Fazenda saiu do Ministério Público do DF e foi enviada para a Procuradoria Geral da República (PGR). Isso porque o nome do governador Rodrigo Rollemberg é citado e é a PGR que tem competência pra decidir se há indícios pra investigá-lo.

Por nota, o GDF disse que o envio do inquérito à PGR é procedimento normal pois as gravações mencionam autoridades com foro privilegiado. O governo do DF disse que apoia as investigações.

Mesa afastada
No último dia 22, o Tribunal de Justiça do DF determinou o afastamento de toda a Mesa Diretora da Casa. A medida cautelar (ou seja, antes do julgamento do mérito) foi pedida pelo MP, para apurar suspeitas de pagamento de propina que teriam beneficiado os deputados.
A decisão do desembargador Humberto Adjuto Ulhoa vale até o fim das investigações. Foram afastados a presidente Celina Leão e os secretários Raimundo Ribeiro (PPS), Júlio César (PRB) e Bispo Renato Andrade (PR). A vice-presidente, Liliane Roriz (PTB), havia renunciado ao cargo.

Com o afastamento, o recém-eleito vice-presidente Juarezão (PSB) deve coordenar os trabalhos até o fim do ano. Suplentes dos secretários, os distritais Lira (PHS), Agaciel Maia (PR) e Rodrigo Delmasso (PTN) assumem as vagas pelo mesmo período.

A saída dos membros da Mesa Diretora aconteceu no mesmo dia em que a Polícia Civil deflagrou a “Operação Drácon”. No primeiro dia de ação, foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão, 8 mandados de condução coercitiva e 4 de afastamento cautelar. As buscas foram feitas nos gabinetes parlamentares, na Presidência da Câmara e na residência das pessoas citadas. Segundo o MP, todos se apresentaram espontaneamente, dispensando o cumprimento da condução coercitiva.

“As investigações são sigilosas. Elas vieram a conhecimento público antes do momento que julgávamos oportuno. Essa palavra é muito cara, porque o princípio mais importante da investigação é a oportunidade. Isso exigiu do MP e do Judiciário a tomada de medidas na manhã de hoje”, afirmou o promotor de Justiça do Grupo de Apoio ao Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Clayton Germano, no dia 22 de agosto.

A ação policial ocorre quase uma semana depois de a corporação apreender documentos e computadores no Palácio do Buriti, em uma investigação para apurar suspeitas de extorsão contra a presidente do sindicato dos servidores na Saúde (SindSaúde), Marli Rodrigues.

Na última sexta-feira (2), a Polícia Civil apreendeu novos documentos na Câmara, em gabinetes de membros afastados da Mesa Diretora. A corporação também tentou acesso a filmagens e gravações de sessões plenárias da Casa de 2015, mas, segundo a assessoria da Câmara Legislativa, não havia material disponível.

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