Entre janeiro e julho de 2016, 19 mulheres foram vítimas de homicídio no DF

feminicídio

Katyane Campos de Gois, encontrada morta, com sinais de estrangulamento e violência sexual, é a 26ª vítima de homicídio em seis meses. Nessa contagem, entra a estudante Jéssica Leite. Caso segue há dois meses sem solução

Adriana Bernardes

Não tem desespero no desabafo da contadora Mônica dos Santos, 45 anos. O tom de voz também não é de raiva. As palavras saem uma após a outra entorpecidas pela dor e pela indignação, aliadas à demora da polícia em descobrir quem matou a filha dela, a estudante Jéssica Leite César, 20 anos. A jovem morreu com uma facada no peito há dois meses e 20 dias. O assassino continua solto. Há uma semana, a menos de três quilômetros do Palácio do Planalto, outra mulher foi brutalmente morta. Katyane Campos de Gois, 26, teve o corpo incendiado pelo seu algoz. Havia marcas de estrangulamento e indícios de que ela fora estuprada. O criminoso também não está identificado.

Na manhã da última sexta, amigos de Katyane e integrantes de movimentos feministas e ativistas LGBT fizeram um protesto na Rodoviária do Plano Piloto. A diretora da Associação Lésbico Feminista Coturno de Vênus, Cláudia Macedo, 33, pede empenho na apuração do crime. “Temos que acabar com atos de ódio contra mulheres informando e conscientizando a população”, defende.

Entre janeiro e julho deste ano, 19 mulheres foram vítimas de homicídio no Distrito Federal. Neste total, não entram aquelas alvos de feminicídio. Se esses casos forem considerados, o número sobe para 26 assassinatos, conforme levantamento feito pelo Correio desde o começo do ano. A média é de quatro mortes por mês. Ainda não dá para saber em qual das estatísticas Jéssica e Katyane serão enquadradas, uma vez que ainda falta esclarecer as causas do crime e prender os assassinos.

A coordenadora da Casa da Mulher Brasileira, Iara Lobo, alerta para a necessidade de as pessoas se colocarem no lugar da vítima e, principalmente, no dos familiares. “As pessoas precisam começar a respeitar o espaço alheio. Esse caso (Katyane) está tendo pouca visibilidade devido ao preconceito. Se fosse o filho de um político ou de alguém com dinheiro, a repercussão seria outra”, condena. A Casa da Mulher Brasileira atende a população feminina em situação de vulnerabilidade. O local reúne juizado, delegacia especializada, defensoria pública, acompanhamento psicológico, assistência social, central de transportes e abrigo de passagem.

Para as famílias e os amigos, restam a dor e as lembranças. “A Katyane era uma menina que precisava de muito amor. Infelizmente ela não o encontrou”, lamenta, aos prantos, a professora aposentada Ecy Oliveira da Silva, 59 anos, a quem a jovem chamava de tia e com quem chegou a morar por algum tempo.

Em entrevista por telefone ao Correio, Ecy chora compulsivamente a maior parte do tempo. E relembra por que Katyane passou a fazer parte da vida dela há 18 anos. “Ela só tinha oito anos quando a mãe foi levá-la à escola e pediu para eu reforçar o lanche e o almoço porque ela não tinha o que comer em casa. E eu fiz isso. Quando a mãe dela foi dar à luz um dos filhos, a Katyane e uma irmã passaram as férias na minha casa”, relembra Ecy.

A menina reservada confiava em poucas pessoas. A família
eram os amigos com quem ela dividia o teto, as gargalhadas e o sonho de ser cantora. Acompanhada pelo violão ou à capela, ela cantava de tudo um pouco: Cássia Eller, canções gospel e pagode. Era uma camaleoa. O visual estava em constante transformação. Em sua página em uma rede social, há fotos com os fios negros, vermelhos, com tranças, longos, lisos e cacheados. Nas fotos, quase sempre aparece sorrindo. Noutras, o olhar não esconde certa tristeza.

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