Bancada da fatura aparece em gravações divulgadas por Liliane Roriz

O senador cassado Luiz Estevão, em conversas gravadas por Liliane Roriz, cita grupo dentro da Câmara Legislativa ligado a empresas de serviços gerais e segurança que mantêm contratos milionários com o GDF. Distritais repudiam declaração

Entre as inconfidências e as revelações feitas pelo ex-senador Luiz Estevão nas conversas gravadas pela deputada Liliane Roriz (PTB), uma menção à Câmara Legislativa chama a atenção. O empresário fala da “bancada da fatura”, que seria composta pelos distritais Cristiano Araújo (PSD), Rafael Prudente (PMDB) e Robério Negreiros (PSDB). As famílias dos três parlamentares comandam empresas que atuam nos setores de segurança e conservação e mantêm contratos milionários com o governo local.

Desde 2009, a Brasfort, do clã Negreiros, recebeu R$ 682 milhões do GDF. A Ipanema, ligada a Cristiano Araújo, foi beneficiada com R$ 882 milhões no período. Já a Global, da família Prudente, recebeu pagamentos do Executivo que somam R$ 285 milhões. As empresas prestam serviço em vários órgãos do governo.

Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 3/2/15

Cristiano Araújo é citado no escândalo da Operação Drácon como o idealizador da emenda para o pagamento de dívidas de UTIs. Segundo investigações do Ministério Público do Distrito Federal, ele teria negociado com empresários o pagamento de propina em troca da elaboração da emenda, repassando recursos para quitar débitos com o setor. Este mês, Robério Negreiros também fez uma emenda para pagar dívidas de outra empresa na área de saúde: ele reservou R$ 9 milhões para o pagamento de débitos na área e prestação de serviço de alimentação em hospitais. A Sanoli, única empresa que atua nesse segmento no Distrito Federal, já recebeu R$ 88,3 milhões este ano sem licitação.

Robério atribuiu a emenda que beneficiaria a Sanoli ao erro de uma funcionária. De acordo com o deputado, o equívoco ocorreu porque, no ano passado, o repasse solicitado pelo governo seguiu para empresa de fornecimento de alimentação hospitalar. Ainda segundo o parlamentar, a situação foi corrigida. A nova emenda, no valor de R$ 10,5 milhões, destina-se à reserva de contingência do Distrito Federal. Assim, o montante pode ser utilizado pelo Executivo nos aspectos considerados prioritários.

Carlos Moura/CB/D.A Press - 30/6/15

O termo “bancada da fatura” é repudiado pelos deputados distritais citados no áudio. O incremento dos subsídios repassados às firmas ligadas às famílias dos parlamentares nos últimos anos, no entanto, é expressivo. A Brasfort, firma de segurança de parentes de Robério, mantém contratos com o GDF há seis anos. O lucro da prestadora de serviços foi multiplicado por 52 desde que o deputado foi eleito. Em 2010, o montante recebido era de R$ 4,1 milhões. Cinco anos depois, o valor subiu para R$ 210,6 milhões. Robério Negreiros nega qualquer interferência nos contratos. “Meu trabalho é estritamente político”, alega.

O deputado desqualificou as menções feitas por Luiz Estevão. “Não podemos tomar como verdade as falas de um homem que foi condenado a quase 30 anos de cadeia e é conhecido por ser um bandido nato”, afirmou. Cristiano Araújo (PSD) voltou a dizer que, desde a falência da firma que administrava com o pai, não possui “faturas com o governo”. Em referência à Ipanema — empresa do tio, responsável por fornecer serviços de limpeza e segurança —, declarou nunca ter intermediado benefícios ou adiantamentos de valores. Ressaltou que, devido ao papel de integrante da oposição a Rodrigo Rollemberg, não poderia pedir favores ao governador, e, ainda que a possibilidade existisse, não o faria. “Não há intervenções minhas. Jamais agi em favor da empresa da minha família utilizando, como base, o cargo político”, disse.

Já Rafael Prudente (PMDB), cujos familiares são donos da firma Global, afirmou que a citação no áudio refere-se ao pai, Leonardo Prudente. Dessa forma, disse não poder se pronunciar, pois não acompanha a vida empresarial do ex-deputado distrital. Ainda assim, explicou que abandonou a atuação como gestor em 2014 e, por isso, não consegue fornecer explicações relacionadas a contratos, recebimentos e pagamentos. “Não posso responder por outras pessoas. No que diz respeito a mim, não há ilegalidades”.

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