Torcedores contestam volta do futebol sem torcida na Alemanha

A Alemanha será o primeiro campeonato nacional europeu a reiniciar desde a paralisação causada pela eclosão da pandemia de Covid-19, em março

Não são apenas os torcedores que farão falta ao Colônia neste domingo (17), quando a equipe entrar em campo para enfrentar o Mainz 05, em casa, no retorno do Campeonato Alemão. Eles também sentirão a ausência de Hennes IX, o bode que é a mascote do time.

Será a primeira vez em 12 anos que o animal não estará presente no estádio para uma partida. Em 2008 seu antecessor, Hennes VIII, teve de ficar afastado por estar doente.

A regulamentação sanitária para a volta da Bundesliga é omissa no que se refere à presença de animais, mas restringe a entrada no estádio a poucos jogadores, jornalistas credenciados, médicos e integrantes das comissões técnicas. Não há espaço para o bode e seu cuidador.

O não comparecimento de Hennes IX, integrante de uma dinastia de bodes que são parte do Colônia desde a década de 1950, não é polêmica em si. A controvérsia está no retorno do futebol do país, a partir deste sábado (16), com portões fechados.

“Se não há torcida, o futebol não é nada. Passa a ser apenas um negócio. Esse retorno é apenas por causa do dinheiro da televisão, nada mais. A emoção do jogo está na presença do público e na conexão que ele tem com sua equipe. Se você tira isso, perde o sentido”, afirma Markus Sotirianos, um dos dirigentes da “Unsere Kurve”, organização que reúne torcedores de diferentes times alemães das quatro divisões principais.

A Alemanha será o primeiro campeonato nacional europeu a reiniciar desde a paralisação causada pela eclosão da pandemia de Covid-19, em março. A iniciativa será observada pelas outras ligas do continente, ansiosas por também recomeçar. Inglaterra, Espanha e Itália querem seguir pelo mesmo caminho. Portugal marcou a primeira rodada desde a paralisação para 4 de junho.

Uma das explicações da Bundesliga (apoiada pelo governo do país) é que o futebol terá a capacidade de oferecer entretenimento em um momento difícil, além de elevar o moral da população.

Não é uma explicação aceita por todos. Para organizações de torcedores, pode não passar de uma desculpa.

“Associações e clubes que geram milhões em receitas vão desaparecer por causa de uma parada de algumas semanas? Isso nos parece absurdo. É um ponto que estamos ressaltando há algum tempo. A preocupação no futebol é apenas em maximizar o lucro para poucos. A cada dia, se afasta dos torcedores mais e mais. O torcedor só é bom se serve ao seu clube, mas os interesses dele são sempre ignorados”, afirma Stephen Schell, do ProFan, outra entidade que reúne sócios de diferentes agremiações.

A estimativa é que, se a temporada fosse cancelada, a liga teria de pagar multa de 400 milhões de euros (R$ 2,5 bilhões) para as emissoras de TV.

Acostumada com os estádios cheios, a primeira divisão alemã tem a melhor média de público do futebol europeu, com 42.738 pessoas por jogo. Dos 18 times da elite, só o Hertha Berlim tem ocupação do estádio inferior a 75%.

Apenas no chamado Yellow Wall (muro amarelo), setor atrás de um dos gols do Signal Iduna Park em que os torcedores do Borussia Dortmund ficam em pé, a capacidade é de 25 mil pessoas. Neste sábado, quando a equipe fizer o clássico da rodada contra o Schalke 04, ele estará vazio.

“É uma decisão comercial, não esportiva. Por pensar apenas no dinheiro, os clubes podem causar desinteresse em milhares de torcedores que não têm vontade de ver um jogo em que a atmosfera e o entusiasmo não vão existir”, completa Sotirianos.

Da parte do governo, existe a preocupação com a possibilidade de os torcedores se reunirem para ver as partidas pela televisão. Os dirigentes da liga pediram para os fãs não fazerem isso e respeitarem as regras de distanciamento social iniciadas desde o surgimento do coronavírus.

Clubes como o RB Leipzig e o Hoffenheim ameaçaram paralisar as partidas se receberem informações de que o público está se reunindo nas cercanias dos seus estádios.

As autoridades tiveram também de responder a críticas sobre a possibilidade de jogadores serem contaminados pelo vírus e quanto ao uso de ambulâncias e médicos durante os jogos em um momento do país em que os serviços de saúde estão sobrecarregados.

“Não podemos continuar assim, e isso é mais óbvio hoje do que nunca. Essa ditadura do dinheiro, a dependência de investidores privados e, associado a isso, a distorção na competição passam longe de todas as coisas positivas que os torcedores querem do futebol”, diz comunicado divulgado pelo ProFans.

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