A força de um império

A Disney, dona da franquia Star Wars, compra a rival 21st Century Fox por US$ 52 bilhões e cria uma gigante capaz de conter os avanços de Netflix, Amazon e Apple na distribuição de conteúdo

Em outubro, o CEO da The Walt Disney Company, Robert Iger, fez uma ligação que daria início a uma das maiores mudanças na indústria do entretenimento. Do outro lado da linha estava Rupert Murdoch, o bilionário controlador de um império de mídia, a 21st Century Fox, rival de longa data da companhia comandada por Iger.

O resultado dessa conversa foi divulgado na quinta-feira 14. Murdoch aceitou vender grande parte dos ativos do seu conglomerado, por US$ 52,4 bilhões, incluindo os estúdios de televisão da Fox, responsáveis por sucessos como “Os Simpsons”, “Homeland” e “Modern Family”, e os canais FX e National Geographic.

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A transação envolve somente ações e inclui, ainda, cerca de US$ 14 bilhões em dívidas da companhia, elevando o valor do negócio para US$ 66 bilhões.

Robert Iger (à esq.), da Disney, e Rupert Murdoch, da Fox, celebram o acordo bilionário, que começou a ser costurado em outubro (Crédito:Divulgação)

No cinema, a turma do Mickey passa a controlar os direitos sobre as franquias “X-Men”, “Planeta dos Macacos”, “Avatar” e o sucesso infantil “A Era do Gelo”. Além disso, a Disney, dona do canal de esportes ESPN, incorpora uma rede de emissoras esportivas regionais de grande força nos Estados Unidos. “Essa aquisição reflete a crescente demanda por experiências de entretenimento ricas, diversas, atraentes e acessíveis”, afirmou Iger, em comunicado. “Estamos entusiasmados por essa oportunidade extraordinária de aumentar nossa oferta direta aos consumidores.”

As palavras de Iger resumem um cenário que, nos últimos anos, se tornou extremamente complexo para impérios de mídia como a Disney, cujo faturamento superou os US$ 54 bilhões no seu último ano fiscal, e a Fox, que faturou quase US$ 29 bilhões, no mesmo período. Por décadas, essas empresas competiram entre si pela atenção dos espectadores e pelos bilhões de dólares de cinéfilos e anunciantes. Hoje, elas enfrentam inimigos poderosos e, assim como Darth Vader, o eterno vilão de Star Wars, franquia que pertence à Disney, forjados em alta tecnologia, princípios de robótica e inteligência artificial: as gigantes do Vale do Silício, como Netflix, Amazon e Apple. “Eu sei que muitos estão questionando se a família Murdoch está batendo em retirada”, afirmou o patriarca Rupert, 86 anos, em conferência com analistas. “Absolutamente não. Estamos nos movimentando em um momento fundamental.”

O consenso no mercado é de que a transação dá à Disney força suficiente para competir, em pé de igualdade ou com alguma vantagem, contra essa nova legião de impérios da distribuição de mídia. “As provedoras de conteúdo estão reagindo contra o avanço do streaming e há uma tendência de concentração de mercado”, afirma Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, especializada em telecomunicações. Existe, hoje, uma inclinação para a criação de empresas verticalizadas, segundo Tude, que controlam mais de uma etapa da produção e distribuição do conteúdo. “É caso, também, do negócio envolvendo AT&T e Time Warner”, diz o especialista. No caso, trata-se da aquisição, anunciada no final do ano passado, da produtora Time Warner pela AT&T, maior operadora de telecomunicações dos EUA, numa transação avaliada em US$ 85 bilhões. O problema é que as autoridades americanas vetaram a aquisição, que se encontra, no momento, sub judice.

Esse é um problema que a Disney também terá de enfrentar, ainda que tenha se antecipado e deixado de lado alguns ativos da ex-concorrente. A Fox Broadcasting Network, rede que concentra os canais Fox News, Fox Sports 1 e 2, entre outros, será listada separadamente na bolsa. Os maiores problemas estão nos esportes, uma vez que a ESPN e os canais regionais dos Murdoch possuem os direitos de grande parte dos principais campeonatos americanos.

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Os eventos esportivos televisionados, por sinal, são um sinal de como o streaming transformou a TV. Em 2005, segundo dados divulgados pelo jornal The Wall Street Journal, as transmissões de jogos representaram 10 das 100 maiores audiências da TV. Dez anos depois, eles representavam 96. O restante da programação já havia migrado para os vídeos sob demanda.

Do outro lado, as precursoras do streaming ainda adotam uma postura de cautela. “É cedo para comentar. Ainda há muito que entender sobre este acordo e o que isso significa para os consumidores”, afirmou, em nota oficial, o Netflix. Há, no entanto, motivo para preocupação. Em agosto, a Disney anunciou a retirada dos seus filmes da plataforma. Agora, com a compra da Fox, a empresa incorpora a Hulu, serviço de streaming que já conta com 32 milhões de assinantes – o Netflix tem 110 milhões. Ao mesmo tempo, novos impérios estão se formando, casos da Disney com a Fox; da AT&T com a Time Warner; e, ainda, da Comcast, gigante americana das telecomunicações, com a NBC-Universal.

Os Murdoch, por sua vez, encerram um ciclo. Rupert deverá se dedicar mais aos seus negócios jornalísticos, notadamente a Fox News e o The Wall Street Journal. Seu filho James, que estava no comando da Fox, pode assumir um cargo na Disney e está sendo cotado para substituir Iger, que se aposenta em 2019. O curioso é que, há 19 anos, um episódio de “Os Simpsons” trouxe uma piada visionária. A brincadeira era que, no futuro, os estúdios Fox seriam parte da The Walt Disney Company. Esse é o mesmo desenho que, no passado, previu a chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Fica a dica para Netflix e companhia: quer saber o que vai acontecer no futuro? Pergunte ao Homer Simpson.

Rodrigo Caetano
IstoÉ Dinheiro

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