E a guerra continua

Quatro anos depois de um conflito que terminou com a saída de Abilio Diniz do Pão de Açúcar, as feridas da batalha contra o Casino não parecem cicatrizadas. Um relatório da Polícia Federal acusa o grupo francês de comprar apoio do BNDES na disputa.

Foram dois anos e meio de conflitos entre o empresário brasileiro Abilio Diniz, que comandava o grupo Pão de Açúcar, e o franco-argelino Jean-Charles Naouri, CEO do grupo francês Casino. O começo da guerra foi um movimento alinhado por Abilio em 2011, no qual propunha a união da rede brasileira com a francesa Carrefour em nível global, aumentando as suas ações na empresa resultante dessa fusão. Com isso, não precisaria atender a uma cláusula assinada com o Casino anos antes, que permitia ao conglomerado francês tomar o controle do Pão de Açúcar em 2012.

Naouri considerou que a estratégia foi feita às suas costas e cortou relações com Abilio. A briga só terminou quando o brasileiro trouxe à cena o americano William Ury, antropólogo que se tornou um dos mais respeitados especialistas em resoluções de conflitos por todo mundo, tendo intermediado conversas tensas entre Hugo Chávez e opositores na Venezuela, árabes e israelenses, russos e chechenos, o governo colombiano e as Farcs, e até entre a Coroa Britânica e o Exército Republicano Irlandês. O armistício do mundo dos negócios foi assinado em setembro, e resultou na saída de Abilio da empresa que o seu pai havia criado.

Desde então, a vida seguiu. O Casino assumiu o negócio do Pão de Açúcar e da Via Varejo e trouxe ao País estratégias que faziam sucesso na França, como a abertura de mercados menores e mais numerosos, sob o conceito de varejo de proximidade. Por sua vez, Abilio começou a dar as cartas em outras empresas nas quais comprou participação, incluindo na BRF e no também francês Carrefour – maior rival do seu antigo sócio e do qual já é o terceiro maior acionista mundial, com 7,86% das ações. Mas parece que a guerra não chegou ao fim.

Um relatório da Polícia Federal, encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça, na Operação Acrônimo, indicou que o atual governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), então ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, teria no governo de Dilma Rosseff, em troca de propina, pressionado o BNDES – presidido na época por Luciano Coutinho – a ajudar o Casino. Isso teria acontecido ao negar pedido de empréstimo de Abilio para concretizar a fusão com o Carrefour.

Segundo o relatório, o Casino teria feito pagamentos de R$ 8 milhões para a MR Consultoria, destinando uma parte a Carolina de Oliveira, atual primeira-dama de Minas Gerais e que seria a ponte com Pimentel. Em contrapartida, o BNDES incluiu uma cláusula de que só liberaria o empréstimo se não houvesse disputa judicial com os franceses, inviabilizando a transação. O BNDES respondeu à DINHEIRO que aguarda “informações do inquérito para analisar a necessidade de se abrir uma comissão de apuração interna sobre o caso”.

Já as fontes ligadas ao Casino e a Pimentel insinuam que a volta do assunto à tona teria relação com uma derrota ainda não digerida por Abilio. “A investigação se baseia em grande parte num depoimento de Abilio Diniz que teve como objetivo atacar o Casino”, diz o grupo francês por meio de sua assessoria de imprensa. “Além disso, a cláusula de não-litígio que a PF alega ser a prova de suposta corrupção, é perfeitamente normal e clássica em transações societárias.” O Casino também menciona que o empresário brasileiro era próximo de Coutinho, e que o BNDES apoiou a fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour até ficar clara que se tratava de uma oferta hostil.

Por fim, aponta o que seriam erros cronológicos no relatório da PF. Um dos dois executivos do Casino que seriam indiciados só foi contratado um ano depois do caso, em 2012. A defesa de Pimentel vai na mesma linha. “Carolina não era casada e nem noiva de Pimentel ao tempo do contrato do Casino com a MR Consultoria”, diz Eugênio Pecelli, advogado do governador mineiro. “E a cláusula condicionante do BNDES que a PF disse que foi criada por intervenção de Pimentel foi escrita um mês antes do contrato com a consultoria. É mais fácil o empréstimo não ter saído por que a imprensa foi quase que unânime contra o financiamento do que pela intervenção de qualquer pessoa.”

Agora, o Casino aguarda intimação da PF, o que não aconteceu até a quinta-feira 26. Segundo pessoas próximas de Abilio Diniz, o empresário ficou surpreso em saber da relação entre Pimentel e o Casino, durante a revelação da Operação Acrônimo, em 2015, e alega que não fez nenhuma menção ao caso durante depoimento dado à PF. À DINHEIRO, Abilio disse “esse é um capítulo encerrado, uma página virada.” E prossegue. “Por isso, não tenho mais interesse em comentar o assunto”, afirmou. O empresário também não teria intenção de entrar com ações contra qualquer uma das partes. A antiga rusga, no entanto, teima em voltar à tona.

Carlos Eduardo Valim
IstoÉ Dinheiro

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