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Economia

Crise embalada

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Com resposta rápida às dúvidas geradas pela operação Carne Fraca, o governo brasileiro consegue suspender embargos nos principais mercados compradores

Ao embarcar para a China numa missão oficial por investimentos, na madrugada do dia 20 de março, o deputado paulista Baleia Rossi, líder do PMDB na Câmara dos Deputados, não sabia ainda o peso que a viagem teria para as relações bilaterais. Poucas horas mais tarde, autoridades asiáticas comunicavam a restrição à carne brasileira, na esteira da operação Carne Fraca, da Polícia Federal, que levantou denúncias de corrupção na fiscalização de frigoríficos. O tema virou prioridade dos encontros e a presença do parlamentar, ao lado de mais seis deputados, serviu de extensão para a força-tarefa liderada pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, a partir do Brasil.

A retirada do embargo foi comunicada enquanto o grupo ainda estava na China, no sábado 25, e foi seguida por Chile e Hong Kong. Em pouco mais de uma semana, foram revertidas as principais suspensões provocadas pela operação, garantindo mercado livre nos países que importam mais de 90% do Brasil. Nos encontros com representantes do governo chinês, Rossi repetiu à exaustão a informação de que apenas 21 dos quase 5 mil frigoríficos estavam sob investigação. “Eles afirmavam que a suspensão era mais para responder às dúvidas”, afirma o deputado. “Eles conhecem o sistema, mas estavam preocupados. Houve muita repercussão nas redes sociais.”

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DIN1012-carnefraca3Passado o temor das primeiras denúncias, que levaram às suspensões de compras em todo o mundo, a percepção em toda a cadeia de produção de proteína é de que as respostas rápidas evitaram um dano maior ao setor. Até o final da semana passada, apenas 14 países ainda mantinham algum tipo de proibição mais ampla para a carne brasileira. Destinos como a Jamaica e a Argélia, porém, representam menos de 10% do volume embarcado. Na maior parte dos casos, a restrição ficou limitada aos frigoríficos investigados.

No Brasil, medidas adicionais foram tomadas em relação aos 21 frigoríficos alvos da operação. Ao menos seis foram interditados após auditorias do Ministério da Agricultura. O governo também determinou o recall de lotes produzidos a partir daquelas unidades, assim como o bloqueio pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) da comercialização dos produtos por bares, restaurantes e lanchonetes. As medidas são preventivas. Até agora, segundo o Ministério da Agricultura, não foi encontrado nenhum problema para o consumo humano nas amostras coletadas de mercadorias das fábricas investigadas, ao contrário do que sugeriram as informações da Polícia Federal.

Isso não significa que o setor já esteja livre dos impactos na imagem. “Temos os mercados abertos agora. Outra coisa é a população aceitar o produto brasileiro”, afirmou Blairo Maggi, ministro da Agricultura em evento de inauguração de um novo laboratório de inspeção, na quarta-feira 29. “Agora começa uma segunda etapa, a de convencimento da qualidade. Não creio que a gente volte à normalidade absoluta em poucas semanas.” Na semana seguinte à operação, as exportações registravam uma queda de 19% em relação à média do mês (leia quadro). Mercadorias enviadas à China tiveram de ser redirecionadas e houve impactos em toda a cadeia, com paralisação no mercado de bois por alguns dias.

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“Poucos frigoríficos ficaram no mercado comprando, gerando uma pressão de baixa nos preços”, afirma Hyberville Neto, da Scot Consultoria, especializada em agropecuária. Para ajustar os estoques, a JBS anunciou, na quarta-feira 29, a suspensão das atividades em 10 das 36 unidades de abate bovino. Os funcionários ficarão em férias coletivas por 20 dias. Apesar dos impactos, o setor vê a situação gradualmente voltando ao normal. As ações da BRF, que chegaram a cair 11% após a operação, mostravam alta de 8% até a sexta-feira 31, em relação à mínima na crise. Já a JBS ainda amargava uma queda de 14% no mesmo período.

“A gente ainda não consegue mensurar, mas já se percebe que o estrago que imaginávamos no começo não se confirmou”, afirma Péricles Salazar, presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo). Um novo sistema de inspeção de produtos de origem animal deve contribuir para a credibilidade do setor. Lançado na quarta-feira 29 pelo Ministério da Agricultura, ele eleva de R$ 15 mil para R$ 500 mil os valores das multas em casos de irregularidades e prevê a perda do selo Serviço de Inspeção Federal (SIF) a quem cometer três irregularidades gravíssimas num ano.

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A revisão das normas vinha sendo estudada há dez anos, para atualizar o regulamento, de 1952. Maggi deve iniciar, em breve, visitas aos principais mercados da carne brasileira. Em maio, estará na China. “Teremos que fazer um trabalho conjunto para recuperar tudo isso”, disse o ministro. Na missão recente dos parlamentares, os chineses agradeceram os brasileiros pela sorte que levaram ao país – a seleção de futebol deles ganhou de 1 a 0 da Coreia do Sul, maior rival no esporte, e Pequim registrou a primeira chuva do ano. Quem sabe o ministro não possa repetir a dose e trazer outra boa notícia à balança comercial brasileira.

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Gabriel Baldocchi

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