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Economia

Serra nega, mas Brasil perde força no comércio mundial

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Apesar das declarações de José Serra de que o país não é fechado, números comprovam pouca interação com as demais economias

Rosana Hessel

No início do mês, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, chamou de “folclore” o fato de o Brasil ser uma economia fechada e virou alvo de críticas. Especialistas rebatem a declaração com números. Um deles é a baixa penetração das exportações brasileiras no mundo, de apenas 1,1% do total comercializado, apesar de estar entre as 10 maiores economia do planeta.

“No início dos anos 1980, Brasil e China tinham a mesma participação no comércio internacional. Hoje, o país continua próximo a 1% enquanto os chineses têm 13,8%. Até quem estava pior, como México e Índia, possuem fatias maiores que a dos brasileiros porque são menos fechados”, compara o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Ele lembra que, para competir, o exportador brasileiro ainda tem barreiras estruturais, como a tarifária e a logística precária, que reduzem a competitividade do país.

“Sem uma reforma tributária será difícil competir com o resto do mundo”, alerta. Para Castro, a queda da participação de produtos manufaturados nas exportações brasileiras reflete a baixa competitividade e o isolamento do país. Se descontarmos os itens agrícolas processados, como suco de laranja, açúcar refinado e carnes processadas, o percentual pode ser menor que os 35% atuais. Nos anos 1980, superava 50%. “O Brasil está se tornando um país essencialmente agrícola, com a balança comercial dependendo das commodities, o que é ruim porque não agrega valor às exportações e deixa o país isolado dos grandes mercados”, afirma.

Analistas ainda destacam que o excesso de medidas antidumping comprova o quanto o país é fechado. Conforme dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), há 159 em vigor, com barreiras para diversos países de produtos, como alho, alto-falantes, cadeados, escovas de cabelo, papel couchê, pneus, sal grosso, seringas, vidros automotivos e muito mais. Outros 34 pedidos estão em análise.

Indústria
O economista Roberto Ellery, professor da Universidade de Brasília (UnB), perdeu a conta de quantos dados podem derrubar as declarações de Serra. “Qualquer indicador pode confirmar que o Brasil é uma economia fechada. Geralmente, um país muito fechado tem pouca competição, a indústria fica menos produtiva, investe menos e exporta pouco”, resume. “Hoje em dia, a indústria precisa estar inserida nas cadeias globais e, para isso, tem que participar dos projetos desde o início. Por ser uma economia muito isolada, o Brasil está ficando fora desse processo. Isso mata a indústria”, emenda.

Levantamento recente feito pela Organização Mundial do Comércio (OMC) revela que o Brasil, apesar de ter reduzido o número de medidas antidumping nos dois últimos anos, está entre os que possuem mais barreiras comerciais. De 2013 a 2015, iniciou 112 investigações antidumping, mais que as 100 dos Estados Unidos no mesmo período. China e México registraram 28 e 29 medidas, respectivamente.

“A indústria brasileira é muito protegida, rompendo o princípio da mão dupla das relações comerciais. Há um excesso de pedidos antidumping porque as empresas sabem que existe uma forte tendência de serem atendidas. Essa leniência das autoridades precisa ser revista porque o isolamento do país com o resto do mundo persiste”, avalia o consultor Rui Coutinho, ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Procurado, o Itamaraty rebateu as críticas e, por meio de nota, afimrou que “a ideia de que o Brasil é um dos países mais fechados do mundo em geral leva em conta o baixo grau de participação do comércio exterior no PIB. Essa, porém, é uma característica dos países grandes, com um mercado interno significativo”.

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