Especialistas dão dicas de investimentos no ambiente pós-impeachment

Simone Kafruni

Depois da tempestade vem a bonança, diz a máxima. O mercado operou na base do pânico enquanto Dilma Rousseff esteve no Palácio do Planalto, até maio, mas teve uma trégua desde que Michel Temer assumiu o governo. O clima de incerteza, no entanto, permanece e há investidores ainda sem saber se é hora de mudar de investimento e quais as melhores aplicações para o dinheiro. Especialistas ouvidos pelo Correio dão algumas dicas sobre em que investir no atual cenário pós-impeachment.
Não há unanimidade entre os analistas, a não ser acerca da poupança, que é vista como um mau negócio porque não consegue nem acompanhar a inflação e representa perda certa do poder de compra. Ainda assim, para quem tem pouco dinheiro e pode precisar dele a curtíssimo prazo, é a melhor opção. Luiz Nazareth, diretor de Produtos da Azimut Brasil Wealth Management, explica que tudo depende do perfil de risco do investidor. “Um dos pilares para sugerir investimentos é avaliar se o cliente é arrojado ou conservador”, esclarece.
Para Nazareth, as expectativas são boas, desde que o governo consiga aprovar as medidas de ajuste fiscal que anunciou. “Entre as opções que têm despertado o apetite dos investidores estão títulos de renda fixa prefixados de instituições financeiras pequenas e médias, que dão prêmio de 13% e 14% ao ano com proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) até R$ 250 mil”, diz. Para quem não quer nenhum risco, Nazareth indica títulos públicos federais atrelados à inflação (NTN). “Têm volatilidade, mas os juros reais (acima da inflação) são de 5,80% ao ano”, explica.
No entender de Roberto Indech, analista da Corretora Rico, a votação definitiva do impeachment já estava no preço do mercado, que costuma antecipar tudo. Por isso, a Bolsa de Valores de São Paulo subiu bastante este ano e o dólar caiu. “Quem vai investir tem que ficar atento a duas coisas: no cenário externo, à possibilidade de alta dos juros nos Estados Unidos, o que deve ocorrer em dezembro; no quadro interno, às medidas de ajuste fiscal. Se aprovadas, é grande a chance de a taxa básica de juros Selic, hoje em 14,25%, cair, e isso é fundamental para escolher investimentos, sobretudo em renda fixa.”

Na renda variável, indicada para quem suporta a pressão de maior risco, Indech recomenda ações da Petrobras. “O petróleo não vai recuar muito abaixo da média de US$ 40 o barril. A gestão da companhia mudou e ela está se desfazendo de ativos para reduzir o endividamento”, justifica. Ele diz ainda que há perspectiva de continuidade de valorização do real. “Isso melhora o fluxo de caixa da empresa, que tem a maior parte do endividamento em dólar”, explica. “Os papéis da Petrobras já subiram quase 100% em 2016, mas ainda há potencial de alta interessante a médio prazo.”
Os chamados ativos de risco estão com performances atrativas, garante William Castro Alves, analista da Valor Gestora de Recursos. “Estamos entrando em outro ciclo na Bolsa. Se o governo conseguir aprovar 60% daquilo a que se propôs, existe espaço para as ações subirem mais. Mas as coisas têm que continuar favoráveis em nível externo”, lembra.

Fundamentos

Alves destaca que, com as reformas, a tendência é de a Selic baixar. “O mercado já antevê não mais 14,25%, e sim 12% ao ano. Portanto, quem ficar exposto ao CDI pós-fixado tem que começar a prefixar um pouco”, recomenda. O especialista lembra que as letras de crédito, tanto imobiliário (LCI), quanto do agronegócio (LCA), são ótimas alternativas, sobretudo porque são isentas de Imposto de Renda, porém desapareceram do mercado durante a crise. “As emissões foram reduzidas drasticamente porque caiu a demanda por empréstimos nos dois setores. Isso está sendo revertido”, avalia.
Na opinião de Marcos Nihari, analista da DXI Planejamento Financeiro, ainda não há motivos para comemorar. “Antes, qualquer notícia política causava movimento forte. Isso acabou. Agora, o mercado começa a olhar os indicadores macroeconômicos. O próximo passo é avaliar os fundamentos das empresas. Mas, ainda não chegamos lá, então, é cedo para entrar na Bolsa. Nada impede que uma notícia derrube o Ibovespa”, explica. Ele afirma que bons resultados na economia só virão em 2018. “Por isso, ainda é melhor se manter conservador e ficar na renda fixa. Nada indica que haverá corte de juros. Quando os fundamentos da economia mudarem, aí será hora de olhar para ativos não indexados”, ressalta.

 

Dúvidas sobre a Selic
Amerson Magalhães, diretor da Easynvest, não acredita em queda de juros. “Alguns economistas dizem que pode cair até o fim do ano. Acho que não. O período é muito curto, por isso o melhor investimento ainda é a renda fixa, que tem a vantagem de não precisar de muito dinheiro para investir”, diz. Para aplicar em Tesouro Direto, por exemplo, o mínimo é R$ 30. Já o analista da BullMark Financial Group Hugo Monteiro aposta no recuo dos juros e, por isso, alerta que já tem dinheiro investido. “Se a aplicação está indexada à Selic, já era para o investidor estar se mexendo”, diz. Ele indica fundos multimercados. “É uma classe de ativos que se favorece muito com a retomada da economia e com a queda da taxa de juros. Eles são bem diversificados”, esclarece.

 

Alternativa imobiliária

Apesar das incertezas que rondaram o mercado no fim de 2015, muitas modalidades de investimento começaram a se tornar mais interessantes para o investidor já no segundo semestre do ano passado, e agora, pós-impeachment, se consolidam como boas opções. Os fundos imobiliários, que chegaram a se desvalorizar até 20% no auge da crise, caminham para a recuperação. O Ifix, índice deste tipo de ativo, teve valorização de 13% em 12 meses e subiu 31% de janeiro a julho de 2016.
O gestor de investimentos da Concórdia Corretora, Mauro Mattes, explica que o Ifix é revisto periodicamente e composto por 60 fundos listados em bolsa. “Eles têm negociação diária”, diz. A diferença entre investir em um imóvel físico e num fundo é que, em uma casa, por exemplo, o investidor imobiliza 100% do seu capital, tem custos com tributos e burocracia e riscos de locação. “Nos fundos, é possível diversificar. Há possibilidade de ter cotas em um número maior de imóveis, conforme a localidade e categoria, como hotéis, shoppings, locação comercial”, enumera Mattes. Além disso, é possível aplicar em títulos de renda fixa lastreados em fundos imobiliários, como a LCI. “O rendimento as cotas é isento de imposto e eles têm mais liquidez do que imóveis”, argumenta o gestor.
O conselho básico é o de sempre: não colocar todos os ovos numa cesta só. “Para um investidor conservador, talvez não seja a melhor escolha. Para um moderado, aportar 10% dos recursos é adequado, enquanto um arrojado pode investir 20% do capital em fundos imobiliários”, orienta. Ele ressalta que o ativo é mais indicado para quem tem horizontes de médio e longo prazos.

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