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Psicanálise da Vida Cotidiana

Sobre a morte da vida psíquica

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Compreendo que morrer não seria novidade;

pois já morrera muitas vezes desde a infância;

há perigos externos de eu morrer,

mas também perigos interiores”.

Marcel Proust in “Em busca do tempo perdido”.

 

A morte é anunciada quando do nascimento de uma pessoa; a morte física, corporal, o corpo que vem ao mundo trazendo em sua bagagem biológica, concomitantemente, vida e morte de suas células, e este processo caminha inexoravelmente durante toda a trajetória da vida.

Vive-se sempre e morre-se sempre durante a vida. Costumo dizer que todas as pessoas, ainda que não tenham consciência, enganam-se quando dizem que têm medo da morte; não se pode ter medo de uma experiência que ainda não se teve; o que realmente está escondido sob o medo da morte é a “angústia da mortalidade”. O que se teme é, às vezes, a consciência de ser mortal. Proust acima escreveu: “pois já morrera muitas vezes desde a infância”. Pura verdade, constatação corajosa de falar e sentir.

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É fato, morre-se muito desde o nascimento, mas morre-se por não elaborar os “conflitos internos”, pois externamente é uma questão de sorte e cuidado. O que significa a metáfora dos “perigos internos”? Morre-se em não viver o presente, quando uma pessoa fica encalacrada com lamentações e ressentimentos passados (morte psíquica), ou ocupa sua vida em constantes fabulações sobre o futuro. O tempo que se tem na vida é o tempo do presente.

O passado passou, no entanto, ele pode ser presentificado, só existe esse meio de ter o vivido – no tempo presente; o futuro são projeções de desejos, fantasias do que vai vir, mesmo assim só se vive no presente.

Conclusão, só se tem a possibilidade de viver o aqui e o agora:

o passado presentificado e o futuro “alucinado” são experiências de tempo presente.

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Essa questão remete a um fato mais importante para se aproveitar a vida – viver, sentir e experimentar o presente – questão nem sempre possível. Poucas pessoas usufruem e tiram proveito do que vivem no tempo presente. Quais as dificuldades? Uma delas é a angústia que se tem de perder o que se tem de fato! Vivenciar o aqui e o agora é experimentar a finitude, a passagem, o trânsito que a vida implica.

Carlos Drummond em seu belo poema —-“Nascer de novo” mostra uma alternativa para se conviver a mortalidade nos seguintes versos:

“Não sou eu, sou o Outro/ que em mim procurava destino./ Em outro alguém estou nascendo./ A minha festa,/ o meu nascer poreja a cada instante/ em cada gesto meu que se reduz/ a ser retrato,/ espelho/ semelhança/ de gesto alheio aberto em rosa”

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Psicanálise da Vida Cotidiana

O Resgate de mim mesmo

Brasília de Fato

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Há uma queixa, sob forma de angústia que paira sobre várias cabeças, ou melhor, que habita diversas mentes no mundo atual

Um mundo onde as pessoas reclamam de sentimentos de vacuidade, vazio, falta de relações afetivas consistentes e sensação de solidão e abandono. O que é isso? O que significa esse desespero que faz trazer aos consultórios pessoas com a demanda de serem acolhidas?

Talvez a maior dor humana vem do sentimento imaginado ou não, de não ser amado, o que remete à questão da autoestima. Entretanto, a autoestima tem sempre a ver com a própria capacidade de se amar. Amar-se não é sinônimo de egoísmo arrogante, amar é um direito e quem sabe um dever, que uma pessoa tem para consigo.

A palavra egoísmo tem outro vértice que não o moral, ela é o amor a si próprio, o que em psicanálise se convencionou a chamar de “narcisismo de vida”, de sobrevivência. Alguém que se ama, se mais amor vem dos outros, é lucro. É necessário cultivar o amor próprio, pois ele é a fonte, a substância que alimenta quando estamos sentindo solidão. Solidão não é sinônimo de abandono, a não que nós próprios nos abandonemos.

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Revendo um texto de Marcel Proust, contido no 4º volume do romance “Em busca do tempo perdido”, Sodoma e Gamorra, com uma bela tradução do nosso Mário Quintana, Editora Globo, um texto que o autor chamou de “As intermitências do coração”, fiquei em estado de epifania ao lê-lo, pois é uma bela descrição do “resgate de si mesmo” e do luto que o autor-narrador faz de sua avó. Vamos a ele, caro leitor: “Comoção violenta de todo o meu ser. Logo à primeira noite, como sofresse de uma crise de fadiga cardíaca, procurando dominar meu sofrimento, curvei-me com lentidão e prudência para descalçar-me.

Mas, mal havia tocado o primeiro botão de minha botina, meu peito inflou-me, cheio de uma presença desconhecida e divina, soluços me sacudiram, lágrimas brotaram de meus olhos. O ser que vinha em meu socorro e que salvava da aridez da alma, era aquele que, vários anos antes, num momento de angústia e solidão idênticas, num momento em que eu não tinha mais nada de mim, havia entrado e me devolvera a mim mesmo, pois era eu e mais do que eu (o continente que é mais que o conteúdo e mo trazia)”.

Bela prosa poética de Proust dando uma contribuição para todos nós, como elaborar a solidão e não transformá-la em estado de abandono.

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Psicanálise da Vida Cotidiana

A angústia da existência

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“Julgo-me bêbado, sinto-me confuso/

Cambaleio nas minhas sensações,/

Sinto uma súbita falta de corrimãos/

No pleno dia da cidade”.

Fernando Pessoa no poema “Quem tem alma não tem calma”.

Fernando Pessoa, a pessoa do desassossego é atualíssimo. Nos versos citados, três palavras são contundentes nos dias de hoje:

“confuso”, “cambaleio” e “falta de corrimãos”. A metáfora do estado de mente da modernidade é clara, límpida e certeira.

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Vivemos uma época de “labirintite existencial”, onde as pessoas perderam seus suportes, suas bases familiares, a proteção das políticas públicas, o terror das mortes, a falta de esperança na humanidade dos homens de poder, a fome, a expulsão de seus países, a homofobia desvairada, a violência tanto às mulheres quanto aos homens. Somos anjos caídos perseguidos pelos diabos humanos, somos pessoas desprotegidas, cambaleantes, sem “corrimãos” onde se apegar e sem ser acolhidas. Daí as famosas e hoje corriqueiras, as Síndromes de Pânico! Em “pleno dia” mata-se mais do que se vive, a cidade é um mar imenso sem proteção.

A vida ficou a expressão de um constante Réquiem onde os viventes perdem sua existência de maneira brutal, primitiva, bárbara e sem direito de sobrevivência.

Que bom se estivesse escrevendo sobre o amor, a confraternização universal dos direitos humanos, sobre o respeito que os governantes poderiam ter pelos seus eleitores, sobre a assistência médica que impedisse a parturiente não perder o filho e às vezes morrer na entrada do hospital. Que alegria estaria em nossas almas se o respeito pelas pessoas menos favorecidas pudesse transformar as políticas governamentais. Se os jovens não tivessem pânico em amar, pois escolheram uma redoma onde aprisionaram seus afetos com medo de sofrer o desamparado, a solidão ou mesmo o desamor.

A “náusea sartriana” volta a entrar no cenário da existência pós-moderna! A angústia de Fernando Pessoa é clássica, o que faz do poeta uma pessoa sempre falando das nossas aflições e turbulências. O cambalear do seu verso atenta para a frequente insegurança sobre a vida em si mesma, mas aponta também para os sentimentos de vacuidade, de ausência de consistência psíquica para lidar com nossos conflitos interiores.

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É preciso lembrar que essa ausência de consistência psíquica não vem somente da falta dos nossos pais, mas também da recusa de nós próprios para sobreviver ao nosso nascimento nadando com as próprias pernas. É hora de ter coragem, como lembra a filosofia de Nietzsche – ter “vontade de poder”, poder ser si mesmo, procurar um estilo próprio ainda que dentro das adversidades, quem sabe, ser o corrimão de si.

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Psicanálise da Vida Cotidiana

Aprender a suportar a Realidade

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“As realidades são impositivas e formam uma
espécie de lei, da qual é insensato querer escapar”
Alain Badiou, filósofo francês


Desde os ensinamentos de S. Freud, com seus conceitos de “princípio de prazer” e “princípio de realidade”, somos levados a meditar que, civilizar e educar são sinônimos para encontrar uma postura relativa e tolerante entre prazer e realidade.

A mente humana sempre vai em direção das satisfações de seus desejos; acontece que alguma demanda do Eu encontra barreira na Realidade e fica impedido de ter prazer. Não porque a Realidade seja contra ninguém, a realidade se impõe tal como ela é. Compete ao indivíduo adiar o desejo e esperar, criando alternativas para obter o prazer, caso contrário, esse mesmo indivíduo há que se dá conta que não é o centro do Universo, e seus desejos e poderes são relativos.

Quando há muita intolerância à frustração, é através de funcionamentos neuróticos, perversos e psicóticos que ainda se tenta realizar os sonhos. O homem odeia a dor, a impotência, a incapacidade de viver uma vida que não seja puramente “hedonista”. O filósofo Alain Badiou, em seu belo livro

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Em busca do real perdido, atenta para o fato de que o pensamento, a capacidade para pensar dentro da experiência de frustração, é uma saída mais importante para desenvolver uma aparelho mental sobremaneira sano. “Esse problema atormenta a filosofia (eu diria que também atormenta o tratamento psicanalítico) desde suas origens. Onde começa o pensamento? E como começar de maneira que esse começo ajuste o pensamento a um real de verdade, um real autêntico, um real real? Em suas considerações vê-se uma ideia atual, na fantasia do capitalismo moderno, selvagem e explorador, que a Economia tem a resposta”. “O lugar ocupado pela Economia que diga respeito ao Real. Parece até que o saber do real foi confiado à economia” (doce ilusão, palavras minhas)…Isso é muito importante, porque a questão do real é evidentemente também a questão de saber que relação a atividade humana, mental e prática, mantém o referido real. Não é só, às vezes, a arrogância dos economistas e a mentalidade capitalista que diz felicidade ser lucro.

“Nós os humanos, temos que descer do pedestal do Racionalismo, do tecnoficismo e da ‘negação psicótica’ em relação ao respeito e consideração pela Alma humana”.

Alain Badiou encerra seu livro com essa sabedoria de um filósofo que tem na filosofia um sentido prático e não só acadêmico, quando escreve: “…porém hoje, devemos estar convencidos de que, apesar dos lutos que o pensamento nos impõe, buscar o que há de real no real pode ser, é, uma paixão alegre”.

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A morte do pai de um amigo

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Precisamos nascer dia a dia, para enfrentar com conforto a tristeza da transitoriedade!

Meu querido amigo, ainda que no tempo cronológico nossa amizade seja recente, no tempo da alma, do afeto, transformou-se numa amizade antiga. Os afetos são regidos por um tempo que não é o do relógio.

Sei que você está sofrendo e sofrido, mas sei também, e é bom que todos nós saibamos: a nossa morte como a dos nossos entes querido e de todos os homens, ela foi anunciada quando nascemos.

A transitoriedade da vida, segundo Thomas Mann, célebre escritor alemão entre os séculos XIX e XX, é dita em um dos seus ensaior: “é muito triste, dirão os senhores. Não a replico, eu, ela é a alma do ser, é o que confere valor, dignidade e interesse pela vida, pois a transitoriedade produz o tempo —- e o tempo é, ao menos potencialmente, a maior e mais útil das dádivas, aparentada em sua essência, ou, melhor, idêntica a tudo que é criador e ativo e vizaz, a toda vontade e esforço, a todo o aperfeiçoamento, a todo o progresso rumo ao melhor e ao mais elevado. Onde não há passado, começo e fim, nascimento e morte, ali não há tempo —e a temporalidade é o nada estático, tão boa e tão ruim quanto este, quanto o absolutamente desinteressante.

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É inevitável sofrer quando se perde aquele que se ama, mas é preciso saber que, se existe amor sincero pelos nossos, eles morrerão fisicamente, mas não dentro dos nossos corações. Sei que você, meu querido amigo, alberga dentro de si, no seu mundo interno e ativo, o amor pelo seu pai que não se extingue pela morte física.

São João da Cruz, Doutor da Igreja dizia que: “quem tem amor no coração não sofre de solidão”.

Você, amigo, nesse momento e para sempre, não está só, pode até ter momentos de solidão e não de abandono, pois têm seus amigos e as pessoas amadas, inclusive seu paizinho dentro de si. Nisso reside a força para a elaboração do luto de sua perda, evitando que ela seja transformada em depressão.

Nossos pais, quando puderam, deixam marcas eternas em nossas personalidades. Eles nos jogam no espaço da ética, dos limites e da capacidade de fortalecer nossa personalidade como elemento importante da nossa Identidade. Sei que você teve isto dele e há de carregar pelo resto de sua vida. Sabemos hoje, nesse mundo egocêntrico atual, que muitos filhos sofrem da falta, pelos pais, da possibilidade de desenvolver sua identidade. Para isso é necessário que se tenham uma família estruturada, que ensina os conceitos de moralidade, comportamento social e principalmente a capacidade de reconhecer a Alteridade, os outros além de nós mesmos.

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Amigo, sei de você a generosidade que carrega dentro de si, e agora, precisa dessa generosidade com você, respeitando seu sofrimento e aplicando para a vida os valores que seu pai lhe deixou. “Ao homem é dado, com auxílio do tempo, extrair o imperecível do transitório”, afirma novamente nosso Thomas Mann, um homem que soube retirar dos sofrimentos, das angústias e das doenças, a sua humanidade e sua singeleza em dar valor à vida, suplantando a dor e o luto, numa elaboração literária que o transformou em um dos maiores escritores da modernidade.

Fico aqui por hoje, deixando minha solidariedade com sua perda, e almejando que você mesmo sofrido ainda possa olhar para as flores do campo, as árvores do cerrado, a vida como ela é, sem desespero, mas curtindo através do amor, introjetado por você, que seu pai lhe deixou.

Um grande abraço afetivo meu e dos nossos amigos diários. 

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Um bom uso da Filosofia, hoje!

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Precisamos pensar em soluções modernas de Política, política que, sem crenças fundamentalistas, olhem para a população com compromisso de mudanças sociais, deixando de lado a prática da Corrupção do Clientelismo e da exploração das verbas públicas para fins de interesses individuais e grupais

Michel Onafray, filósofo francês contemporâneo, nascido em 1959, na cidade de Argentan, uma da mais importante da Normandia, escreveu em 2006, um livro chamado: “A Sabedoria Trágica – sobre o bom uso de Nietzsche”, traduzido no Brasil por Carla Rodrigues, e editado pela Autêntica. Em seu prefácio sobre a “descrença socialista, crença cristã…”, Onafray escreve: “Compreendo o recurso a Deus pelos homens tratados como sub-homens – mesmo que eu me bata por lhes propor uma verdadeira solução política, a única que vá livrá-lo do pensamento mágico. Estou mais espantado por assistir a esse movimento no pequeno mundo filosófico europeu: descrença do político, crença no religioso”.

Não é só na Europa que acontecem os fenômenos descritos por Onafray, mas também nas Américas, onde assistimos uma retomada do pensamento religioso dentro do movimento político, como se estivesse havendo uma descrença nos homens e a retomada da crença em Deus, em Deuses, como acontecia na Grécia Antiga, no Platonismo, no Luteranismo, no “deus” da Luzes do Iluminismo e hoje nos deuses dos credos fundamentalistas.

Descrença do político, crença no religioso, afirma o filósofo. O que quer dizer isso? A capacidade política, de cunho humanista, falhou? Será que vamos voltar ao passado e atribuir que nosso destino é divino, ou emitido pelas crenças religiosas, deixando de lado a autonomia humana, o respeito pela capacidade dos homens assumirem suas responsabilidades com a coisa pública, com a República?

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Um filósofo, banalizado, agredido e posto de lado inclusive pelos próprios filósofos do século XIX e XX, quando concentra suas ideias sobre a necessidade de resgatar os homens como partícipes e responsáveis pelo bem-estar social, foi Nietzsche, e esse vai ser o tema de resgate de Onafray com seu subtítulo: “Sobre o bom uso de Nietzsche”. Escreve ele, na pag. 22 do seu prefácio: “Para esses combates pós-muro de Berlin, sobre os escombros da Torres Gêmeas, Nietzsche de ser retomado. Essas páginas convidam a isso: ver diretamente a obra e negligenciar a má reputação do filósofo para lê-lo inteiramente, ou relê-lo. Útil para desconstruir a religião cristã e a moral a ela associada, Nietzsche permanece igualmente disponível para as Novas Luzes pós-cristãs. Velhos piedosos, Inquisidores Obscurantistas e Novos Crentes contra Novas Luzes, a velha história continua… Melhor assim!” (Outubro de 2005).

Precisamos pensar em soluções modernas de Política, política que, sem crenças fundamentalistas, olhem para a população com compromisso de mudanças sociais, deixando de lado a prática da Corrupção do Clientelismo e da exploração das verbas públicas para fins de interesses individuais e grupais.

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A  aparência dos homens!

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O que de mim soubestes/ foi somente a cobertura,/ a túnica que reveste/   a nossa humana ventura./ E talvez além do véu/ houvesse um azul tranquilo;/ a vedar o límpido céu/ só um sigilo…/ Se  sombra avistardes, não será/ uma sombra —eu hei de ser./ Pudesse arrancá-la de mim,/ eu vos haveria de a oferecer”.

                      Versos do poeta italiano Eugenio Montale

O homem, desde seu nascimento luta com a questão de vir-a-ser. Influências internas e externas condicionam e são responsáveis pelo processo de Identidade.

No entanto, é muito difícil ser si mesmo, um Self verdadeiro, como escreveu o psicanalista inglês Donald Winnicott. Ele conceitua que todos nós temos um Self verdadeiro e um falso. Falso aqui, não no sentido de falsidade, mas como defesa do verdadeiro Self. Ser verdadeiro é uma conquista, um processo, uma ousadia acompanhada de muita liberdade e coragem.

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Nossos pais e a sociedade imprimem uma força tremenda para que nós sejamos o ideal deles ou dela, e aí nos reprimem, nos obstrui a possibilidade de sermos autêntico, caso contrário somos sentidos como rebeldes, contra, persona non grata.

Imagine, caro leitor, que já não é fácil sermos nós mesmos, quanto mais sermos o Ideal dos outros. Aliás, nunca conseguiremos ser totalmente verdadeiros, somos seres em crescimento, em mudança, em se fazendo a partir de novas experiências na vida.

Nos versos acima do poeta italiano, Nobel de Literatura, vemos a apreensão intuitiva da nossa “cobertura”, assim como também a angústia por um dia “hei de ser eu”. Shakespeare deixou uma frase de impacto: “Ser ou não Ser, eis a questão”! Eu diria que, melhor teria dito se poemasse que Ser e Não Ser é a questão!

Penso que devemos tanto por nós próprios como pelos outros, ser respeitados quando somos e quando não conseguimos ser. A mentira não é uma questão moral; a mentira às vezes é um modo de se defender do medo de Ser. Mentimos para agradar; mentimos para angariar afeto dos outros; mentimos por vergonha de assumir defeitos naturais; mentimos por angústia, pois a verdade sempre dói em nós mesmos e naqueles que nos amam.

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O homem sensato, o verdadeiro homem é aquele que pode conviver com suas qualidades e defeitos sem se sentir ameaçado de perder o amor dos outros homens. Nesse sentido, a experiência psicanalítica nos oferece a possibilidade de ser mais verdadeiros sem a culpa de não agradar nossos pais e o meio ambiente que nos cerca.

Não nos confunda com uma sombra, pois detrás dela exige um Self que durante toda a vida quer ser aquilo que acha que deve ser. Com que desespero e angústia o nosso poeta italiano brada em seus versos:…eu hei de ser/ pudesse arrancá-la de mim,/ eu vou haveria de a oferecer”Essa metáfora do poeta fica para nós: a angústia por se esconder e o desejo de abrir o coração para sermos o mais verdadeiro que puder.

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O desprezo pela coisa pública

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Barragens mineiras com tragédias anunciadas; viadutos paulistanos ruindo a cada dia; o belo complexo do Teatro Nacional de Brasilia interditado há anos, jogados às baratas como se a Cultura representasse uma ameaça à civilização dos “coronéis da política”

“A história conhece muitos períodos de tempos sombrios, em que o âmbito público se obscureceu e o mundo se tornou tão dúbio que as pessoas deixaram de pedir qualquer coisa pública além de que mostre a devida consideração pelos seus interesses vitais e liberdade pessoal. Os que viveram em tempos tais, e neles se formaram, provavelmente sempre se inclinaram a desprezar o mundo e o âmbito público, a ignorá-los o máximo possível ou mesmo a ultrapassá-los e, por assim dizer, procurar por trás deles — como se o mundo fosse apenas uma fachada por trás da qual as pessoas pudessem se esconder —-,chegar a entendimentos mútuos com seus companheiros humanos, sem consideração pelo mundo que se encontra entre eles”.
Hannah Arendt in —“Homens em tempos sombrios”(1955)

Barragens mineiras com tragédias anunciadas; viadutos paulistanos ruindo a cada dia; o belo complexo do Teatro Nacional de Brasilia interditado há anos, jogados às baratas como se a Cultura representasse uma ameaça à civilização dos “coronéis da política”; crianças morrem de fome, o Estado do Ceará em chamas que mostram os castigos humanos do poder das Facções e do desprezo pelos governos ao tratar de maneira bárbara os presídios e os presidiários, pessoas à margem da civilização sem ter nenhum direito senão a indiferença afetiva e social das gestões públicas; os hospitais, inclusive da charmosa(?) capital da República matando mais do que curando; as escolas agora, com um futuro sombrio de uma educação sem liberdade de expressão; os corruptos e corruptores continuam sua saga de uma voracidade desvairada, determinando a morte de parte da população quando desviam as verbas públicas para a Saúde, Educação e Moradia; o sadismo mortífero de uma ideologia capitalista famigerada por riquezas e lucros, deixando as pessoas se submeterem ao que Hannah Arendt chamam “as banalidades do mal”.
Nietzsche em seu livro “A Gaia Ciência”, chega a afirmar o que serve para os nossos dias atuais: “Vejo a má consciência como uma profunda doença que o homem teve de contrair sob a pressão mais radical das mudanças que viveu —a mudança que sobreveio quando ele se viu definitivamente encerrado no âmbito da sociedade e da paz[…]:havia um terrível peso sobre eles. Creio que jamais houve na terra um tal sentimento de desgraça, um mal-estar tão plúmbeo”.

É tempo de mudanças radicais, a população já não suporta esse estado de “servidão humana”, onde os mais fortes e poderosos enrredam as pessoas em suas tramas de uma politicagem falsa, eleitoreira e, além disso, revestida de uma pseudo-democracia. É bem verdade que a mentalidade política da população tem mostrado ínfimos avanços, mas é necessário mais, é pouco ainda.

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Cito como exemplo o descaso pelas obras públicas no Distrito Federal: viadutos que começam a ruir sem nenhum conserto; polícia de trânsito é fantasmagórica, só enxergamos em nossas avenidas, guardas trancafiados em suas viaturas, conversando. Será possível que ainda não se deram conta que guardas de trânsito ficam nas ruas, nos cruzamentos, usam apitos, ajudam o fluxo de trânsito nas ocasiões de engarrafamentos e acidentes?

Os queridos e muito bem preparados Bombeiros são a nossa salvação, ainda bem! Quem dirije o trânsito na Brasilia de Lúcio Costa, são os próprios motoristas, sempre inquietos, agressivos e tendo verdadeiras crises “epiléticas” de carater agressivo.

Senhor Governador, que saudade dos tempos dos Administradores, dos tempos em que não havia a avidez de Deputados e Senadores! Brasília era bucólica, romântica, humana, feita alías para poucos habitantes. Hoje, nossa cidade se transformou num espaço gigante de um grande “curral eleitoral”. Estamos vivendo realmente, profundos tempos sombrios e de “homens partidos”, como poetou Carlos Drummond de Andrade.

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A importância da Filosofia hoje!

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A Filosofia parece um bicho de sete cabeças para a população em geral. É claro que hoje em dia, os nossos jovens são pouco preparados, pois os nossos currículos deixam a desejar nas escolas básicas

O máximo que fazem é apresentar noções superficiais para fazer face aos vestibulares. Lamenta-se, pois o exercício de pensar, de refletir e de aplicar os conceitos filosóficos na própria vida ainda é tido como desprezível.

Filosofia sempre foi sinônimo de teoria reflexiva sem importância prática. Isso mudou, e mudou principalmente com as questões na filosofia francesa do século XX. Numa bela introdução ao seu livro: “A aventura da filosofia francesa no século XX”, o filósofo Alain Badiou mostra de uma maneira didática, o que aconteceu com os pensadores franceses naquela época.

Vindo de influências do momento clássico grego (Parmêmides e Aristóteles, do século V a.C ao III a.C.) quanto ao movimento do idealismo alemão (Kant a Hegel), incluindo Fichte e Schelling, os filósofos da França foram construindo um movimento novo, uma grande contribuição à filosofia universal, com as ideias de Jean-Paul-Sartre, Deleuze, Bachelard, Merleau-Ponty, Lacan, Derrida, e toda a influência das pesquisas de S. Freud, inclusive admitindo e criticando o “mago de Viena”. Alain Badiou questiona: “O que a filosofia francesa foi buscar na Alemanha?” Podemos resumi-lo em uma frase: uma nova relação entre o conceito e a existência, que recebeu diversos nomes: desconstrução, existencialismo, hermenêutica. Lendo o texto ficamos com a questão central: a intenção foi modernizar a filosofia, além da importância da sexualidade (Freud), do formalismo da álgebra ou da lógica, pensar numa filosofia que saísse do âmbito somente acadêmico e pudesse ser usada na política (todos esses filósofos eram engajados em movimentos políticos) e na vida como ela é.

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Com a estreita ligação com a Literatura, escreve o autor que é hora de se ter um filósofo-escritor, coisa que já vemos nos dias atuais, inclusive em nosso país. A filosofia ia tomando uma nova cara no sentido de ser ligada, na prática, com a existência, o pensamento, a ação e política.

“Fazer do filósofo outra coisa além de um sábio é fazer dele outra coisa além de um rival de um padre: fazer um escritor combatente, um artista do sujeito, um amante da criação. Escritor combatente, artista do sujeito, amante da criação, militante filosófico são palavras para esse desejo que atravessou esse período e que era que a filosofia agisse em seu próprio nome”, realça Alain Badiou em seu texto. Coisa que vemos estar surgindo em nosso país a cada dia, pela esteira de filósofos como Karnal, Viviane Mosé, Pondé, Cortella e outros. Fica aqui a dica para ler o importante texto de Alain Badiou.

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O charme da burguesia atual

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                                                  “Não creio que exista uma análise mais precisa, na literatura mundial, mais minuciosa e abrangente em percepções sobre o tema, comparada a essas páginas inesquecíveis de Proust”.

                             Joseph Czapski in “Proust conta a degradação”

O tempo sempre faz o “eterno retorno”, e os escritores chamados de clássicos, assim o são porque escrevem para a eternidade. É assim que me reporto hoje a um pintor e escritor —Joseph Czapski, russo,  que entre  1940 e 1944, quando de sua prisão no Gulag de Crjazovec, perto de Moscou, afim de suportar os horrores da barbárie russa, encontrou refúgio com seus companheiros de prisão, lendo, sempre à noite, cada um a cada dia, livros de várias especialidades. Czapski lia Proust, que o sabia de cor, pelo menos os dois volumes primeiros de “Em busca do tempo perdido”.

A Literatura e a leitura de autores são realmente um bálsamo para momentos de muita angústia. Em seu livro: “Proust contra a degradação”, o autor rememora trechos da obra proussiana, onde destaco passagens que remetem ao vazio existencial, a vida de vidro, de falta de consistência na alma das pessoas da aristocracia francesa e dos novos burgueses vindo do interior, que Flaubert soube retratar tão bem em Mme. Bovary.

Referindo-se à Mme. Cambremer, senhora simples, mas culta, Czapski pontuava o fato dessa senhora ter uma filha esnobe, estúpida e pretensiosa que se fazia passar por instruída juntos aos aristocratas.

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Acontece que sua filha era o que chamo de “cultura de orelha de livro”, mostrava uma personalidade vazia e desprovida de amor e generosidade, como tantas jovens e senhoras e senhores da nossa sociedade atual. Sem cultura, sem formação humanista, essa jovem me lembrou vários homens que fazem parte do poder, onde o interesse é a exploração ávida pelo dinheiro e posições.

Homens e mulheres vindas do meio rural, ascendendo à burguesia e aos palácios, mas pobre de espírito, egocêntricos, narcísicos e imbuídos no desejo de poder, aparência e falsa compaixão humana. Diz nosso polonês que Proust denunciava nas belas descrições do seu romance célebre, a maneira como se comportavam os granfinos da sociedade francesa, o “discreto charme da burguesia” que hoje isso é mostrado por detrás de personalidades depressivas, “como se”, pessoas de mau caráter, corruptos, ricos na vil moeda e paupérrimos de humanidade, cultura, compaixão e generosidade por si mesmos e pelos outros.

Vale a pena, caro leitor, debruçar sobre os autores do fim do Séc. XVIII, XIX e começo do Sec. XX, para com isso entender melhor a barbárie dos nossos tempos, a indiferença pelo social, o nojo aos menos favorecidos e os desejos permanentes de usar a Política, o Poder, e a vida Empresarial no sentido de manter a escravidão oriunda de um capitalismo selvagem e retrógrado.

Marcel Proust, até porque era oriundo da aristocracia de França, mostra no romance da sua vida, “EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO”, aspectos irônicos e críticos de uma sociedade alienada, envolvida em trapaças, jogos perversos na esfera sexual e relações de uso e abuso pelo poder.

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É sempre bom lembrar Nietzsche, o filósofo provocador das “verdades” filosóficas. Em “Além do  Bem e do Mal”, ele afirmou numa linguagem de prosa poética: “Como no firmamento estelar existem em que há dois sóis que determinam a órbita de um planeta, em  certos  casos sóis de cores diferentes brilham ao redor  de um único planeta, ora com luz vermelha, ora com luz verde para depois iluminar e inundar por inteiro com um jato de luz multicor: assim também nós, homens modernos, graças ao complicado mecanismo de “céu de estrelas”, somos determinados por morais DIFERENTES; nossas ações brilham alternadamente em cores diferentes, raramente inequívocas — e em muitas ocasiões realizamos muitas ações MULTICOLORIDAS”.(aforismo 215).

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A Juventude de Brasília

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A Juventude de Brasília

Pois bem, o que marca o jovem brasiliense?

“A juventude está fazendo tudo para desligar a tomada da alma”.
Paulo Mendes Campos, in “Primeiras Leituras-Crônicas”.

Brasília hoje já tem uma população sua, além dos que migraram e dos “estrangeiros” que aqui vieram em busca do poder. Já podemos falar de uma tipologia brasiliense, e aqui me reporto aos jovens, filhos da capital, candangos, um mix de família de todo o Brasil, hoje, adultos jovens, solteiros, casados, pais de filhos, educados nessa cidade onde impera a busca pela condição burguesa capaitalista, salvo uma minoria, todos empenhados na “fantasia” do emprego público, de excelentes salários e de uma aposentadoria que lhe garanta a “felicidade futura”.

Pois bem, o que marca o jovem brasiliense? Refiro-me ao jovem do Plano Piloto e cidades satélites, hoje, de classe média, que cresceram, estudaram, formaram e hoje vivem num mercado de trabalho estranho. Nem sempre se dedicam às profissões que escolheram, são empenhados no requinte de concursos públicos, pagando salários altos, desviados das suas opções e escolhas profissionais.

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São estimulados pelas famílias a se manterem em cargos estaduais e federais onde vivem verdadeiras crises existenciais, pois a ideologia perversa do economês desviou suas almas desconsiderando escolhas afetivas. Outro dia, um jovem advogado de um tribunal da vida queixava-me do vazio que vivia, pois não nasceu para viver “carimbando documentos”, mas iludido pela futura aposentadoria não tinha coragem de se dedicar no que se formou: professor de História.

Crises de pânico, estados depressivos, sentimentos de vacuidade existencial, sintomas psicossomáticos, falta de vida afetiva ( um casamento por interesse de família de político), dedicação intensa ao corpo, às academias, festinhas recheadas de mauricinhos e patricinhas, carro do ano, viagens ao exterior com um salário de fim de ano chegando a cinquenta mil reais. Paulo Mendes Campos em sua crônica —-“Juventude de hoje, ontem e amanhã”, escrita na beleza do seu estilo poético, afirma:

As chamadas virtudes morais desceram ao porão. Inteligência, saber e personalidade só valem, um pouco, quando podem servir de título-legenda a uma figura atraente.

O charme do penteado pode abrir caminho a uma carreira política; o busto perfeito pode criar uma cantora; um par de pernas faz uma atriz dramática; dois olhos verdes podem favorecer uma reputação literária ou artística. Vivemos o fastígio das cores e formas humanas. As gerações novas sofrem ostensivamente dessa conversão de valores”.

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Que futuro tem um jovem que trocou uma formação humanista pelo o estudo perverso nas escolas que só ensinam tramas, astúcias, fórmulas, para aquele ser crescente passe no vestibular? E a indústria de cursinhos preparatórios para concursos públicos oferecendo a alucinação de uma sociedade que visa o vil metal em detrimento de sua formação humana, cultural e ética!

“Mas não é apenas em relação ao outro que o jovem se desliga da verdade humana: ele acaba por si desligar de si mesmo, estancando a todo o custo suas mais profundas manifestações de humanidade.”, acrescenta no querido e saudoso escritor das minas gerais.

O número de suicídios parece aumentar a cada dia; professores universitários começam a criar curso sobre —“Felicidade” — (alguém ensina felicidade nos bancos de aula?); os políticos pensam em criar mais cidades satélites para fins de curral eleitoral; os teatros e casas de cultura, demolidos; a estatística de separações conjugais aumenta; as famílias encorajam seus filhos a serem funcionários públicos para obter altos salários e não para se dedicarem às profissões dos seus sonhos.

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Não se pode pensar que nossos jovens estão satisfeitos consigo mesmos e com a vida! As belas formas dos nossos arquitetos não foram suficientes para criar um clima de pessoas afetivas, e sim de jovens perdidos, atônitos, ricos, vazios e como dizia o nosso poeta maior, Carlos Drummond: “é tempo de homens partidos”.

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