A morte do pai de um amigo

Precisamos nascer dia a dia, para enfrentar com conforto a tristeza da transitoriedade!

Meu querido amigo, ainda que no tempo cronológico nossa amizade seja recente, no tempo da alma, do afeto, transformou-se numa amizade antiga. Os afetos são regidos por um tempo que não é o do relógio.

Sei que você está sofrendo e sofrido, mas sei também, e é bom que todos nós saibamos: a nossa morte como a dos nossos entes querido e de todos os homens, ela foi anunciada quando nascemos.

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A transitoriedade da vida, segundo Thomas Mann, célebre escritor alemão entre os séculos XIX e XX, é dita em um dos seus ensaior: “é muito triste, dirão os senhores. Não a replico, eu, ela é a alma do ser, é o que confere valor, dignidade e interesse pela vida, pois a transitoriedade produz o tempo —- e o tempo é, ao menos potencialmente, a maior e mais útil das dádivas, aparentada em sua essência, ou, melhor, idêntica a tudo que é criador e ativo e vizaz, a toda vontade e esforço, a todo o aperfeiçoamento, a todo o progresso rumo ao melhor e ao mais elevado. Onde não há passado, começo e fim, nascimento e morte, ali não há tempo —e a temporalidade é o nada estático, tão boa e tão ruim quanto este, quanto o absolutamente desinteressante.

É inevitável sofrer quando se perde aquele que se ama, mas é preciso saber que, se existe amor sincero pelos nossos, eles morrerão fisicamente, mas não dentro dos nossos corações. Sei que você, meu querido amigo, alberga dentro de si, no seu mundo interno e ativo, o amor pelo seu pai que não se extingue pela morte física.

São João da Cruz, Doutor da Igreja dizia que: “quem tem amor no coração não sofre de solidão”.

Você, amigo, nesse momento e para sempre, não está só, pode até ter momentos de solidão e não de abandono, pois têm seus amigos e as pessoas amadas, inclusive seu paizinho dentro de si. Nisso reside a força para a elaboração do luto de sua perda, evitando que ela seja transformada em depressão.

Nossos pais, quando puderam, deixam marcas eternas em nossas personalidades. Eles nos jogam no espaço da ética, dos limites e da capacidade de fortalecer nossa personalidade como elemento importante da nossa Identidade. Sei que você teve isto dele e há de carregar pelo resto de sua vida. Sabemos hoje, nesse mundo egocêntrico atual, que muitos filhos sofrem da falta, pelos pais, da possibilidade de desenvolver sua identidade. Para isso é necessário que se tenham uma família estruturada, que ensina os conceitos de moralidade, comportamento social e principalmente a capacidade de reconhecer a Alteridade, os outros além de nós mesmos.

Amigo, sei de você a generosidade que carrega dentro de si, e agora, precisa dessa generosidade com você, respeitando seu sofrimento e aplicando para a vida os valores que seu pai lhe deixou. “Ao homem é dado, com auxílio do tempo, extrair o imperecível do transitório”, afirma novamente nosso Thomas Mann, um homem que soube retirar dos sofrimentos, das angústias e das doenças, a sua humanidade e sua singeleza em dar valor à vida, suplantando a dor e o luto, numa elaboração literária que o transformou em um dos maiores escritores da modernidade.

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Fico aqui por hoje, deixando minha solidariedade com sua perda, e almejando que você mesmo sofrido ainda possa olhar para as flores do campo, as árvores do cerrado, a vida como ela é, sem desespero, mas curtindo através do amor, introjetado por você, que seu pai lhe deixou.

Um grande abraço afetivo meu e dos nossos amigos diários. 

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