O charme da burguesia atual

                                                  “Não creio que exista uma análise mais precisa, na literatura mundial, mais minuciosa e abrangente em percepções sobre o tema, comparada a essas páginas inesquecíveis de Proust”.

                             Joseph Czapski in “Proust conta a degradação”

O tempo sempre faz o “eterno retorno”, e os escritores chamados de clássicos, assim o são porque escrevem para a eternidade. É assim que me reporto hoje a um pintor e escritor —Joseph Czapski, russo,  que entre  1940 e 1944, quando de sua prisão no Gulag de Crjazovec, perto de Moscou, afim de suportar os horrores da barbárie russa, encontrou refúgio com seus companheiros de prisão, lendo, sempre à noite, cada um a cada dia, livros de várias especialidades. Czapski lia Proust, que o sabia de cor, pelo menos os dois volumes primeiros de “Em busca do tempo perdido”.

A Literatura e a leitura de autores são realmente um bálsamo para momentos de muita angústia. Em seu livro: “Proust contra a degradação”, o autor rememora trechos da obra proussiana, onde destaco passagens que remetem ao vazio existencial, a vida de vidro, de falta de consistência na alma das pessoas da aristocracia francesa e dos novos burgueses vindo do interior, que Flaubert soube retratar tão bem em Mme. Bovary.

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Referindo-se à Mme. Cambremer, senhora simples, mas culta, Czapski pontuava o fato dessa senhora ter uma filha esnobe, estúpida e pretensiosa que se fazia passar por instruída juntos aos aristocratas.

Acontece que sua filha era o que chamo de “cultura de orelha de livro”, mostrava uma personalidade vazia e desprovida de amor e generosidade, como tantas jovens e senhoras e senhores da nossa sociedade atual. Sem cultura, sem formação humanista, essa jovem me lembrou vários homens que fazem parte do poder, onde o interesse é a exploração ávida pelo dinheiro e posições.

Homens e mulheres vindas do meio rural, ascendendo à burguesia e aos palácios, mas pobre de espírito, egocêntricos, narcísicos e imbuídos no desejo de poder, aparência e falsa compaixão humana. Diz nosso polonês que Proust denunciava nas belas descrições do seu romance célebre, a maneira como se comportavam os granfinos da sociedade francesa, o “discreto charme da burguesia” que hoje isso é mostrado por detrás de personalidades depressivas, “como se”, pessoas de mau caráter, corruptos, ricos na vil moeda e paupérrimos de humanidade, cultura, compaixão e generosidade por si mesmos e pelos outros.

Vale a pena, caro leitor, debruçar sobre os autores do fim do Séc. XVIII, XIX e começo do Sec. XX, para com isso entender melhor a barbárie dos nossos tempos, a indiferença pelo social, o nojo aos menos favorecidos e os desejos permanentes de usar a Política, o Poder, e a vida Empresarial no sentido de manter a escravidão oriunda de um capitalismo selvagem e retrógrado.

Marcel Proust, até porque era oriundo da aristocracia de França, mostra no romance da sua vida, “EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO”, aspectos irônicos e críticos de uma sociedade alienada, envolvida em trapaças, jogos perversos na esfera sexual e relações de uso e abuso pelo poder.

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É sempre bom lembrar Nietzsche, o filósofo provocador das “verdades” filosóficas. Em “Além do  Bem e do Mal”, ele afirmou numa linguagem de prosa poética: “Como no firmamento estelar existem em que há dois sóis que determinam a órbita de um planeta, em  certos  casos sóis de cores diferentes brilham ao redor  de um único planeta, ora com luz vermelha, ora com luz verde para depois iluminar e inundar por inteiro com um jato de luz multicor: assim também nós, homens modernos, graças ao complicado mecanismo de “céu de estrelas”, somos determinados por morais DIFERENTES; nossas ações brilham alternadamente em cores diferentes, raramente inequívocas — e em muitas ocasiões realizamos muitas ações MULTICOLORIDAS”.(aforismo 215).

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