Respeito pela literatura nacional?

Uma das coisas que vem me apertando o juízo e que acredito que nunca deixará de apertar, é de tentar saber qual é o real significado da expressão “eu respeito a literatura nacional”.

Em junho, mês passado, participei de uma mesa de debate composta por dois homens e duas mulheres, todos profissionais do jornalismo literário, sendo que dois membros da mesa representam, cada um, empresas de nível nacional. Não irei citar os nomes, não quero indisposição com ninguém, mas acredito que o que foi falado deve ser sim debatido. Demorei esse tempo para poder maturar o que iria retratar na coluna.

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A mesa em si foi boa, tivemos vários temas levantados sobre o papel da imprensa em relação a literatura e a difusão da produção nacional, porém tivemos duas falas particularmente deprimentes, que vieram da mesma pessoa e que infelizmente está por trás de um dos maiores programas de literatura da televisão brasileira.

Em todas as suas falas, a máxima “eu tenho muito respeito a literatura nacional” vinha como que decorada sem consciência de seu real significado, levando em conta que foi seguida de declarações preconceituosas e misóginas.

A primeira declaração foi em relação aos livros que recebia para avaliar se iriam ou não para o programa: Se a capa for feia, eu já deixo de lado e nem leio.

A segunda declaração foi em relação a quando recebia um livro que tinha que ler em um dia: Ter que ler um livro bom em um dia por conta do trabalho é como se eu tivesse na minha frente a mulher mais bonita do mundo e tivesse que come-la rápido, é como se tivesse que estupra-la.

Ambas declarações vieram da mesma pessoa, ambas declarações foram seguidas da frase decorada “eu tenho muito respeito pela literatura nacional”, ambas as frases fizeram autores mais antigos e com certo prestigio rirem, a segunda frase fez as duas mulheres que estavam na mesa virar a cara, eu fiquei perplexo em todas as duas frases.

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Foi um choque de realidade que eu ainda não estava preparado para levar, um jornalista importante, por trás de um dos maiores programas de literatura da televisão, de forma pública falar tais coisas e ser recebido por risadas de escritores de longa estrada me fez ver porquê a literatura nacional é o que é hoje: apenas uma ferramenta para alimentar ego e dar dinheiro para os membros do clube.

Vamos a primeira declaração, que só pode ser resumida como a personificação do desprezo para com a produção literária do nosso país. Tudo bem um jornalista não ter tempo de ler todos os livros que recebe, não existe problema em não conseguir dar conta de uma demanda, mas agora declarar que se uma capa é feia o livro não merece ser lido é demais. Pensava que a parte mais importante de um livro era o seu conteúdo e não sua capa. Como blogueiro de literatura também recebo muitos pedidos de resenha e divulgação, o mínimo que faço é dar uma lida na sinopse, procurar saber do que se trata o livro e ver se ele se encaixa com o público do meu blog, mas nunca desmereci um livro pela capa.

A segunda declaração deveria ter sido tratada como crime, incentivo ao estupro foi o que eu vi. Mulheres que compartilhavam a mesa com essa pessoa tiveram que virar a cara e se calarem ao ver que os “grandes” autores na plateia que riam com a infeliz declaração, eu, minha esposa e um amigo ficamos mudos e sérios sem acreditar que aquilo havia sido falado.

A literatura brasileira tem grandes problemas como a falta de leitores, problemas econômicos que sofremos no país, problemas sociais, uma cadeia de ensino de literatura que não respeita o ano de vida do aluno em relação a obra que é tratada em sala de aula, a falta de profissionalização do escritor, não temos curso de graduação de literatura ou de escrita criativa, exemplo que não seguimos da Inglaterra por exemplo. E somado a essa lista posso dizer que a literatura nacional ainda tem que sobreviver com profissionais mal intencionados e que tratam a própria literatura como algo trivial.

Ali naquela mesa era um jornalista de repercussão a nível nacional, na plateia estavam escritores de longa estrada que apenas riram e concordaram com tais declarações. Irei comentar essa situação a exaustão em todos os lugares que tiver a oportunidade de ir. São pessoas assim que aumentam o descrédito da produção literária por acharem que mandam na literatura brasileira. Fiquei enojado, desacreditado e principalmente triste por ver que infelizmente são eles que ainda ditam certas regras que todos nós seguimos. Ainda ditam, os tempos vem mudando e esses pensamentos mesquinhos, preconceituosos e machistas vão ter que hora ou outra dar espaço para o progresso e um real movimento de valorização da literatura brasileira.

Do lado de cá fico eu, longe desses, trilhando pelo caminho que acredito e, o mais importante, agindo de uma forma que demonstre o meu respeito pela literatura nacional.

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Paulo Souza.

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Sobre o Colunista

Paulo Souza, 28 anos, produtor cultural, editor e escritor. Possui publicado o livro ‘Ponto para ler contos’ (Kindle, 2016) e participou da ‘Antologia Sombria’ (Empíreo, 2017) e vários contos disponíveis no blog Ponto Para Ler. É criador e editor chefe do Ponto Para Ler e seu respectivo canal no YouTube em parceria com a Animars Produções.
Nasceu e vive em Brasília, cidade que ama.

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