Tragédia de Suzano: Porque os jovens cometeram esse crime bárbaro?

Em casos como esse, nunca se trata de um único fator e sim, de uma confluência de fatores

Sempre que uma tragédia como a da escola de Suzano ocorre, nós psicólogos e psiquiatras somos convidados a oferecer possíveis explicações para os comportamentos dos autores dos assassinatos. Obviamente, os nossos discursos, por mais embasados em teorias que sejam, tratam-se de meras especulações, uma vez que raramente temos as informações necessárias para uma análise acurada das motivações envolvidas em cada caso específico.

Ao mesmo tempo, em meio ao debate do armamento da população, a tragédia surge como mote dos defensores de ambos os lados: “imagine quantas vezes tragédias assim vão se repetir com a facilitação do acesso às
armas pela população” ou “se os professores estivessem armados, tragédias assim não aconteceriam”. É impressionante como o mesmo evento pode servir de evidência para teorias completamente antagônicas.

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Outra vertente tenta atribuir aos autores a total responsabilidade, como se esses fossem “doentes” e essa doença seria a responsável pelas atrocidades que cometeram. Termos como psicopatas, sociopatas, perversos etc. são oferecidos como explicações fáceis. No entanto, se não explicarmos tais doenças, usá-las como explicações é um exercício de pouca valia se quisermos prevenir eventos como esses.

Ainda que a avaliação psicológica e os instrumentos utilizados por ela fossem plenamente confiáveis, seria inviável submeter todos os indivíduos a ela.

Mesmo os agentes de segurança pública que passam por tais avaliações cometem crimes, como foi o caso do brutal assassinato da Marielle Franco. Tendemos a culpar a sociedade; os filmes, seriados e jogos de videogames violentos; os pais; os professores; os colegas e a escola.

Certamente, fatores genéticos e ambientais estão presentes na determinação de comportamentos antissociais. Porém, fatores assim estão na determinação de quaisquer comportamentos, sejam pró-sociais ou antissociais. Não há como apontar uma relação causal, na medida em que nenhum desses fatores é condição necessária e suficiente para o comportamento antissocial.

Tomando os jogos de videogame violentos por exemplo. Para dizermos que jogar esses jogos causam o comportamento antissocial, teríamos que demonstrar que todos que jogam jogos violentos cometerão atos violentos (condição suficiente) e também que todos que cometeram atos violentes os jogaram (condição necessária). A literatura, na atualidade, não conseguiu nem demonstrar de modo incontestável que assistir filmes violentos ou jogar jogos violentos aumentam a probabilidade de atos violentos de modo significativo.

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Um fator que tem sido muito comentado é a imitação. Ou seja, os atos dos brasileiros poderiam ter sido inspirados nos inúmeros casos estarrecedores observados nos Estados Unidos nos últimos 20 anos. Sem dúvida, a aprendizagem por observação de modelos é amplamente reportada na literatura. Ela é, inclusive, muito explorada pelo marketing. É muito provável que as pessoas comprem carne da marca que um ator famoso aparece comendo ou lave os cabelos com um shampoo que uma modelo diz que usa etc.

Muito se falou dos temores da aprendizagem por observação de modelos
na presença de homossexuais em novelas, garotas de programa em minisséries nacionais ou suicidas em seriados enlatados. Todavia, não temos controle sobre isso. A imprensa tem a função de divulgar os fatos de interesse, e como não divulgar os atentados nas escolas americanas? Novelas, filmes, minisséries e seriados abordam temas de cotidiano e, homossexualidade, prostituição e suicídio, são relevantes temas do cotidiano.

Pensado do ponto de vista social, não me parece eficaz privar as pessoas do acesso à informação e às discussões dos temas do cotidiano como forma de prevenir o que quer que seja. Temos que nos preocupar em formar pessoas capazes de lidar com todo volume de informações que recebem sem que, por isso, venham a infringir danos a si mesmas ou a outrem.

Outro aspecto dessa triste história que eu gostaria de refletir diz respeito à incidência com a qual eventos assim ocorrem em escolas. Realmente é um
bom tema de pesquisas em psicologia escolar. Por que o ambiente escolar tem sido particularmente sujeito a tais eventos? Que papel a escola tem exercido na vida das pessoas? Até que ponto os modelos educacionais disponíveis têm contribuído para a formação dos indivíduos como pessoas e não apenas como acumuladores de conteúdo?

Quanto à pergunta inicial, acerca do que levou os dois jovens a cometerem esses atos, ela somente pode ser respondida por complexas analises individuais. É provável, inclusive, que ambos tenham feito esses atos por razões distintas. Além do mais, nunca se trata de um único fator e sim, de uma confluência de fatores. Infelizmente, com o óbito dos dois, é realmente improvável que consigamos responder essa pergunta de modo particularmente esclarecedor.

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