Você se acha especial?

Você se acha especial?

A aprovação e o reconhecimento que recebemos dos outros elevam a nossa percepção de valor pessoal

Aprendemos, desde muito cedo, em culturas individualistas como a nossa, que precisamos ser especiais para termos valor como pessoa. Acreditamos que todos nós temos um valor pessoal e que esse valor varia na medida em que temos sucesso ou não em atividades valorizadas em nossa cultura, como, por exemplo, passar no vestibular, conquistar alguém atraente, casar, escrever um livro, comprar uma bela casa, ter um carrão, passar em um concurso disputado, concluir uma pós-graduação etc.

A aprovação e o reconhecimento que recebemos dos outros, principalmente dos nossos pais e das pessoas que admiramos, elevam a nossa percepção de valor pessoal, a qual é denominada autoestima. Ao mesmo tempo, se não obtemos admiração e reconhecimento ou, pior, se somos rejeitados, traídos, criticados, repreendidos ou humilhados, automaticamente temos a nossa autoestima devastada, ou seja, passamos a avaliar o nosso valor pessoal de forma diminuída.

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Quem nunca se sentiu um super-homem em alguns momentos? Alguém que teria condições de lidar com qualquer desafio. Alguém bonito, forte, inteligente, bom de cama etc. Nesses momentos, nos sentimos especiais, diferentes e melhores que as outras pessoas. Isso costuma acontecer quando atingimos as realizações acima e, principalmente, quando somos reconhecidos por isso. Ao mesmo tempo, quem nunca se sentiu pequeno, frágil, inseguro e perdido? Os fracassos na vida nos fazem sentir assim. Não nos sentimos nada especiais. Nos sentimos iguais, ou mesmo, piores que todo mundo.

Por outro lado, se pararmos para pensar friamente, temos pouca responsabilidade pelos nossos sucessos e fracassos. Cada ato nosso depende de uma rede muito complexa de fatores que começam a operar antes de nascermos, como nossos genes e nossa cultura. As oportunidades que tivemos em nossas vidas contribuem sobremaneira para as nossas realizações.

Esses determinantes externos aos indivíduos de suas atitudes deixam pouco espaço para mérito pessoal e para a responsabilidade pelo fracasso. Meus colegas de escola pública, por exemplo, em sua maioria, não se davam ao direito de almejar disputar uma vaga em uma universidade pública e em cursos disputados. Conhecidos meus que estudavam em escolas particulares sonhavam muito mais alto. Em decorrência disso, as comparações que fazemos com outras pessoas sempre é injusta. É como comparar uma barra de chocolate com uma fatia de melancia. Nesse sentido, cabe muito pouco orgulho pelas nossas realizações e, ao mesmo tempo, não cabe nos sentirmos piores que os outros pelo nosso fracasso.

Uma implicação desastrosa de medirmos nosso valor pessoal pelo reconhecimento que temos dos outros é abrir mão dos nossos gostos e interesses pessoais para fazer aquilo que é valorizado pelo grupo. A propaganda de margarina é um modelo de felicidade que não é representativo para toda e qualquer pessoa. Eu costumo atender pessoas concursadas de grande poder aquisitivo e que são profundamente frustradas com seu trabalho a despeito de todo o reconhecimento, por exemplo.

A dependência de reconhecimento externo implica em vidas sem sentido. A pessoa, para ser reconhecida e amada, muda seus gostos, seus interesses e seus sonhos. Isso tem íntima relação com a depressão em pessoas que, aos olhos dos outros, “têm tudo”. Pior, pessoas quando não obtém ou perdem o reconhecimento do outro, como nos casos de rejeição, abandono e traição, costumam perder elas mesmas.

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Uma vida sem sentido ao longo dos anos pode ser muito perigosa. Pode levar ao suicídio ou a uma vida moribunda. Leva à perda do brilho no olhar. Ao eterno “tanto faz”. Às vezes, fico na dúvida entre o que é pior: morrer de fato ou viver como um morto.

Infelizmente, não somos especiais, mesmo que consigamos ficar com a pessoa que sempre fomos apaixonados ou consigamos o emprego que todos queriam. Vencer as competições com as outras pessoas não nos torna especiais. Na vida, as pessoas sempre vão largar de pontos diferentes ao longo da pista de corrida. Felizmente, todos somos especiais, na medida em que o que somos de fato não depende dos sucessos e fracassos. Sucessos e fracassos mudam como nos percebemos, mas não quem somos.

Se essas minhas digressões filosóficas fizerem algum sentido, não é justificável buscarmos sermos especiais porque já somos ao sermos únicos. Também não é justificável tentar ser especial, uma vez que nunca seremos, em decorrência da impossibilidade de comparações e competições justas.

A difícil missão é encontrar sentido para a própria existência independentemente do que é valorizado pelos outros. É a tortuosa jornada de descobrirmos quem somos, o que queremos e com o que, de fato, sonhamos.

É claro que podemos optar por não vivenciarmos essa jornada. Podemos desistir. É direito de qualquer pessoa optar por uma meia vida ou por vida nenhuma. A única forma de ajudá-las é amá-las incondicionalmente e não apenas quando elas fazem aquilo que queremos ou valorizamos.

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