Maturidade, amor e paixão

Maturidade, amor e paixão

Amor e paixão são confundidos. Para os viciados em paixão, são a mesma coisa

A Paixão. Talvez o sentimento mais sublime que exista. Talvez a droga mais poderosa naturalmente crida. Os suspiros. O frio na barriga. A libido nas alturas. O choro de alegria, tristeza e ódio. Ciúmes doentios em que uma curtida de uma foto numa rede social é motivo para a mais acalorada DR. Sorrimos para passarinhos. Poupamos uma barata furtiva no ralo da cozinha. Não nos importamos com o troco errado ou com alguém furando fila. O pensamento incontrolável. A dificuldade de concentração. A perda de sono e de apetite. Sim meu amigo, diante desses sintomas, você não está doente. Está apaixonado.

Cada segundo na presença da pessoa por quem se está apaixonado é o momento mais feliz que pode existir. Nessa hora, não há dúvidas. Não há incertezas. Tudo faz sentido. Não há vazio. É uma constante sensação de preenchimento.

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O curioso da paixão, todavia, é que muitas pessoas não passam por isso. Pelas mais diversas razões, algumas pessoas são privadas ao longo de suas vidas de se apaixonarem. Não posso dizer que essas pessoas são infelizes necessariamente. Só perderam uma das experiências humanas mais maravilhosas.

Ao mesmo tempo, com exceção de perder um filho, talvez, a rejeição, quando se está apaixonado, seja a dor mais excruciante de todas. Porres homéricos; oceanos e lágrimas; socos na parede; urros de desespero; textões e textões em redes sociais; conversas de horas com amigos e até, desconhecidos; carros a toda velocidade entre outras loucuras. Com alguma sorte, muitas sessões de terapia. Dá para dizer, portanto, que apaixonar-se é viver as emoções de uma vida inteira num prazo de poucos meses.

Para alguns, as paixões podem ser viciantes. Seduzir, conquistar, enfadar-se e partir para outra podem ser a tônica de uma vida. Em geral, quem se envolve com pessoas assim, padece. Ao mesmo tempo, os viciados em paixões dificilmente conseguirão transitar para o amor.

A má notícia sobre a paixão é que ela acaba. Podemos nos enganar que estamos apaixonados por anos de relacionamento. Podemos ter relações mais intensas que outras, mas as paixões, no uso próprio do termo, têm prazo de validade. Muitas vezes, porém, se transformam no amor.

Amor e paixão são confundidos. Para os viciados em paixão, são a mesma coisa. Quando a paixão acaba, entende-se que o amor acabou e a manutenção da relação não faz mais sentido.

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Mas o amor é outra história porque na paixão, na maioria das vezes, nos apaixonamos por um protótipo. Um que nós criamos com ajuda do outro. Encaixamos a pessoa direitinho naquele serzinho maravilhoso que temos dentro da nossa cabeça/coração. Não resta dúvida que a pessoa também tende a mostrar o que tem de melhor e camuflar os seus defeitinhos. Faz parte do delicioso jogo de sedução.

No amor, já tivemos tempo de conhecer o outro e ver que ele não se encaixa no protótipo. As máscaras já caíram e os defeitinhos se tornam aparentes. O gosto musical duvidoso; o ronco; o mau humor matinal; a falta de educação com garçons entre tantos outros. Ao mesmo tempo, as qualidades e as compatibilidades, quando existem, passam a aflorar. Elas é que vão dar a liga para a nova relação que se constrói. Daí pode nascer o amor. Não por alguém imaginário. Mas por alguém de carne e osso.

Essa é uma etapa delicada porque é frequente continuamos com pessoas que conhecemos e de que não gostamos de verdade. Fazemos isso, geralmente, porque na nossa cultura nos ensinaram que precisamos de alguém para sermos felizes. Fazemos isso porque temos que casar e procriar, senão, culturalmente não seremos plenos. Podemos nos enganar que passamos a amar uma pessoa quando, na realidade, fomos condicionados culturalmente a ter alguém. O castigo para esse crime contra si mesmo costuma ser severo: anos de uma vida sem graça, sem cor, sem som, sem textura e sem perfume. Décadas de um tolerar no lugar de um regozijar.

Amar, portanto, requer o primeiro termo do meu texto: maturidade. Não podemos esquecer que idade e maturidade não possuem uma relação causal. Para se atingir a maturidade, é preciso, antes de mais nada, viver a vida. É preciso passar por paixões, amores, decepções, alegrias e tristezas. São essas experiências que vão nos ensinar o que realmente é importante. Abrir mão dos papeis que nos são socialmente impostos e aprender do que realmente gostados; do que não gostamos e daquilo que toleramos em prol de todo o resto que adoramos.

Mas o amor vai além disso. Amor pressupõe sacrifício. Amor pressupõe, em muitos momentos, priorizar a felicidade da outra pessoa em detrimento da própria. Pressupõe deixar de ir a um show da banda predileta porque o outro está com enxaqueca. Pressupõe passar horas numa fila de banco só para fazer companhia enquanto preferiria estar tirando um cochilo. Pressupõe se dispor a ouvir músicas de um gênero que não te agrada caso isso deixe a outra pessoa feliz.

Por sua vez, não dá para amar sozinho. Não dá certo alguém sempre se sacrificar pela felicidade do outro. Nesse sentido, amor também é troca. E sim, precisamos ensinar ao outro como queremos ser amados. Ninguém tem bola de cristal. Cabe ao outro decidir se pode e quer fazer as concessões pessoais ou não. Mas quando não dizemos o que queremos e o que não queremos, não damos a oportunidade do outro nos amar de verdade.

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A vida envolve essas coisas: paixão, amor e maturidade. Não resta dúvida que esses ainda são os assuntos mais comuns nos consultórios dos psicólogos, o que sugere que muitas pessoas, provavelmente, não aprenderam a lidar direito que esses aspectos da vida. Amor e paixão são maravilhosos. Mas para vivê-los com maturidade não tem outro jeito senão dar a cara a tapa. Cair, levantar e continuar. No fim nas contas, isso é, de fato, viver.

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