Fake News: por que mentimos tanto?

Fake News

Uma parte relevante das nossas verbalizações são relatos, descrições ou narrativas; como quando contamos a um amigo como foi a nossa viagem para São Paulo ou o que achamos do último filme do Robert de Niro

Em condições usuais, essas verbalizações costumam corresponder aos eventos às quais se referem. Todavia, nem sempre isso acontece.

O leigo tem nomes para verbalizações distorcidas como mentiras, lorotas, lendas, fraudes, engodos, mitos e, o termo da moda, Fake News. Geralmente o senso comum explica a emissão de mentiras por desvio de caráter, má fé, doença mental (mitomania) e psicopatia. Para nós analistas do comportamento, por outro lado, mentir é comportar-se.  A nossa missão é, portanto, pesquisar os determinantes ambientais do comportamento de mentir como fazermos com qualquer comportamento.

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As pesquisas acerca desse assunto costumam conter três situações: na primeira, os sujeitos da pesquisa devem relatar um evento em um contexto natural, sem que os seus relatos produzam reações do pesquisador. Na segunda situação, o pesquisador pune ou recompensa relatos específicos sendo esses relatos precisos ou não. Na terceira situação, os relatos que correspondem aos eventos relatados são recompensados, enquanto que os imprecisos são punidos. Na primeira e na terceira situação, os relatos tendem a ser precisos. Na segunda situação, a maior parte dos sujeitos de pesquisa distorce seus relatos. Esses resultados são amplamente replicados na literatura com adultos, crianças, homens e mulheres, a despeito da profissão, religião, estado civil etc. Resumindo, falamos a verdade quando não há razões para mentir e quando somos recompensados a fazê-lo. Porém, se mentiras podem gerar recompensas ou evitar castigos, as pessoas poderão mentir independentemente de cor, sexo, orientação sexual, postura ideológica, credo e idade.

Os efeitos de outros fatores foram investigados sobre o comportamento de mentir, como a possibilidade de se conferir ou não a veracidade do relato; a frequência com a qual se dá essa conferência; o tamanho da recompensa ao mentir; o tamanho da punição para mentiras quando descobertas; entre outros.

Não me restam dúvidas que as Fake News são um tipo de mentira e o conhecimento que temos acerca dos fatores que interferem na fidedignidade das verbalizações pode nos ajudar a entender esse fenômeno. Criar Fake News é vantajoso por muitas razões:

  1. Nas redes sociais, as curtidas e os compartilhamentos são reações das pessoas extremamente poderosas em estimular a publicação de postagens. As selfs em lugares perigosos, as fotos em lugares chiques ou a exposição de conteúdos íntimos nos mostram o poder das curtidas e compartilhamentos em nos motivar a postar. Fake News chocantes de uma celebridade ou de um político têm grandes chances de produzirem muitas visualizações, curtidas e compartilhamentos.
  2. Informações, precisas ou não, principalmente em uma acalorada disputa eleitoral, podem influenciar as escolhas das pessoas. Ou seja, se a meta é prejudicar um opositor ou favorecer alguém, as Fake News possuem um grande potencial para tal. Com os compartilhamentos, o alcance das Fake News é exponencial.
  3. As Fake News dificilmente serão checadas por quem as compartilha e por quem tem seu comportamento afetado por elas. Não tenho dados sobre isso, mas presumo que a maioria das pessoas compartilhe e tome como verdade notícias sem se dar ao trabalho de verificar a sua fidedignidade. Verificar a precisão das notícias é um processo trabalhoso, que exige leitura, tempo e paciência. Infelizmente tempo e paciência estão escassos hoje em dia.
  4. Com os compartilhamentos, fica muito difícil identificar o criador de uma notícia falsa, ou seja, mesmo após a identificação de que a notícia é falsa, dificilmente haverá alguma espécie de punição para quem a criou. Mesmo o bloqueio de contas nas redes sociais pode ser facilmente contornado com a criação de novos perfis.
  5. A refutação de uma notícia falsa alcança apenas parte das pessoas afetadas por elas. Fora isso, o efeito emocional das Fake News é muito maior que o efeito emocional de quando ela é desmentida.

Fica fácil, com base na literatura acerca de correspondência verbal, compreender o fenômeno assustador das Fake News nos dias atuais. Acho bem difícil combater esse instrumento eficaz de controle do comportamento das pessoas. Vale refletir, todavia, o que nos torna tão crédulos a algumas ideias. Fazem 10 anos que eu venho investigando o que leva as pessoas a mentir. Talvez uma linha mais profícua seja a de investigar o faz as pessoas acreditarem. Skinner sugere que tendemos a acreditar mais prontamente naquilo que tenderíamos a dizer. Se isso fizer sentido, ao acreditar nas Fake News, talvez estejamos mentindo para nós mesmos.

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