Eleições: A ode ao ódio

Eleições

Depois de uma longa pausa, sob o pretexto de um momento oportuno, trago algumas reflexões sobre o comportamento humano, mais especificamente, dos brasileiros na atualidade. Me deparo com um momento de ausência de autoconhecimento. As pessoas estão mais dispostas em discursar acerca do que “não são” ao invés do que “são”. O que vemos hoje é um show de “não isso”, “não aquilo”. Não ao machismo, não ao feminismo, não ao fascismo, não ao comunismo, não à homofobia, não aos LGBTQs, não ao racismo, não aos negros etc.

Me parece que está instalada a era da “ode ao ódio” que mina qualquer possibilidade de diálogo e argumentação racionais. Isso me lembra as minhas aulas de redação do segundo grau. O ponto de partida de todo parágrafo era uma tese. A partir dela, teciam-se os argumentos até uma frase derradeira conclusiva. Mas dissertar não é dialogar. Ao dissertarmos, estamos tentando expor e justificar o nosso ponto de vista e, de quebra, convencer o outro a pensar como nós. Portando, nos deparamos com infinitas dissertações que partem de princípios do “não isso” ou do “não aquilo”. O restante dos textos se resumem a argumentos (racionalizações) justificando essas escolhas. Todavia, não são os argumentos racionais que determinaram as escolhas a priori do “não isso”, “não aquilo”.

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As escolhas do “não isso”, “não aquilo” remontam a determinantes que não são de agora e que raramente conhecemos. Decorrem de eventos recentes e remotos de nossas histórias de vida, como os filmes que vimos (Eles não usam Black tie; O pelego; Platoon; Rambo II e III; Rocky IV; Vingança dos Sith; Tropa de Elite etc.); músicas de escutamos (Proteção, Another brick in the wall, Selvagem, Veraneio vascaína etc.); nossa educação formal (discussões de sala de aula, clubes de debates, livros e aulas); participação em movimentos populares (grêmio estudantil, associação de estudantes, sindicatos, manifestações etc.); nossa religiosidade ou ausência de religiosidade; programas de TV (mini-séries, documentários, telejornais etc.) os posicionamentos de nossos ídolos (Chico Buarque, Caetano Veloso, Roger Walters, Mark Hamill, Danilo Gentile, Lobão, Roger, Regina Duarte etc.) e, principalmente, dos posicionamentos de nossos pais e familiares, seja seguindo ou se opondo a eles.

Defendo que os eventos a que me refiro acima, ao contrário do que pode parecer, exerceram mais efeito sobre nossos comportamentos emocionais, que sobre nossos comportamentos intelectuais/racionais. Daí a eficácia das Fake News. O que importa é o primeiro impacto emocional. Mesmo com a refutação das notícias falsas, o estrago já está feito. A refutação da notícia falsa raramente tem o poder de anular os condicionamentos emocionais estabelecidos.

Resumindo, para mim, os nossos posicionamentos são muito mais afetivos que intelectuais. Em decorrência disso, portanto, já estão cristalizados e não há meio de modificá-los de modo relevante a partir de uma argumentação racional e ponderada. Simplesmente não iremos ouvir. Tenho certeza que defensores de ambos os lados já se sentiram “jogando pérolas aos porcos”, ou seja, seus textos, por mais eloquentes e bem fundamentados que fossem, mostraram-se absolutamente inócuos no convencimento dos opositores. Mesmo sendo esses opositores pessoas cultas, inteligentes e razoáveis. Não há diálogo quando o objetivo é o convencimento. Nesses casos, só resta a retórica. Daí, não nos surpreendemos em ver pessoas normalmente ponderadas e calmas, literalmente “perderem as estribeiras” dizendo coisas que encerrarão ou causarão danos graves às suas relações pessoais.

Todavia, essa não é a consequência mais nefasta da ode ao ódio. Esse debate pode ter um grande potencial de produzir comportamentos violentos em pessoas que, por razões pessoais são passíveis de tais reações. As polarizações tendem as deslocar as pessoas mais para os extremos do que elas realmente já são. Por exemplo, pessoas que veladamente não gostam de homossexuais, mas que conseguem conviver de forma civilizada, podem passar a defender abertamente o seu extermínio. Pessoas que fazem piadas com evangélicos neopentecostais apenas em círculos restritos, podem passar a xingá-los na rua. A consequência, portanto, é um crescimento exponencial de pessoas, homofóbicas, racistas, misóginas, xenófobas, arrogantes, prepotentes, desqualificadoras, desonestas etc. Pessoas essas capazes de atos de violência inimagináveis em uma sociedade civilizada e democrática.

Se queremos desenvolver o autoconhecimento, precisamos, antes de mais nada, nos perguntar o que somos, antes de definirmos o que não somos. Se quisermos dialogar, necessariamente precisaremos estar prontos a ouvir. Se não estamos prontos para questionar os nossos pontos de vista, não temos a menor condição emocional para iniciar um debate. Saber dialogar é mais do que saber convencer. É saber ouvir. Apenas quem ouve tem condições de conhecer o que quer que seja, ainda que seja a si próprio. A ode ao ódio nos deixa cegos e surdos e assim, no mínimo, ignorantes.

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