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Marmanjos na Barra da Saia: Por que ele(a)s não querem crescer?

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Marmanjos

Não é novidade que os filhos estão saindo de casa cada vez mais tarde. Além disso, apresentam pouca autonomia para a resolução de problemas práticos, como agendamento de consultas médicas, matrícula na faculdade, transferências de veículos, pagamento de seguro de carro etc. Frequentemente ouvimos de pessoas mais velhas que, quando elas tinham essa idade, já eram muito mais independentes.

Obviamente, estamos falando de um problema das classes A e B. A despeito da crise econômica atual, de meados dos anos 90 até o início dos anos 2010, pudemos experimentar um período de bonança muito diferente da realidade dos anos 70 e 80. Nessas décadas, as famílias de classe média possuíam apenas um carro (quando possuíam), apenas uma televisão, apenas um aparelho de telefone fixo etc. Caso as famílias tivessem mais de dois filhos, provavelmente, estes estudariam em escolas públicas. Era necessário que o jovem trabalhasse e ajudasse os pais com as despesas da casa. Os pais não tinham condições de custear o estudo em faculdades particulares. Sendo assim, ou os filhos estudavam nas universidades públicas ou precisavam trabalhar para ajudar no custeio de seus estudos. Não resta dúvida, a vida era mais dura.

Na medida em que houve uma melhora nas rendas das classes A e B que, com isso, passaram a ter mais acesso aos bens de consumo, os pais passaram a proteger os próprios filhos das privações que eles mesmos passaram quando jovens. Não são raras frases do tipo: “Ora, se temos dois carros, por que nossos filhos precisam ir de ônibus ou a pé para escola?”; “Se eu tenho condições de dar um smartphone para meu filho de oito anos, por que não fazê-lo?”; “Se eu chego em casa cedo do trabalho, por que eu não posso ajudar meu filho com o dever de casa?”; “Brasília está muito mais perigosa nos dias de hoje, então, tenho que buscar meu filho nas festas para que ele não volte de madrugada para casa”; “Brasília é um inferno sem carro, vou dar um carro para cada um dos meus filhos” etc.

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Além disso, houve uma grande confusão do leigo quando os psicólogos passaram a discutir o impacto dos estímulos parentais de educação. Nós psicólogos condenávamos o estilo agressivo/autoritário, no qual as regras eram impostas pelos pais e o uso do castigo corporal era a principal estratégia para fazer com que os filhos as seguissem. Entretanto, muitos pais adotaram um estilo indulgente, no qual não impunham limites para os filhos. Limites são essenciais, ainda que devamos utilizar métodos não agressivos para aplicá-los.

Por fim, parece que a dor ou o desconforto do filho em entrar em contato com as consequências das próprias escolhas é inaceitável para os pais. De modo que estes criam seus filhos em redomas, nas quais os pais absorvem os impactos das más escolhas tomadas pelos filhos a fim de poupá-los do sofrimento. Em primeiro lugar, o sofrimento é inevitável, ou seja, é impossível viver a vida toda sem sofrimento. Não há outro modo de aprender a tolerar o sofrimento que vivenciá-lo em certa medida. Em segundo lugar, como podemos aprender a fazer melhores escolhas se nossos pais vão nos poupar das consequências das nossas más escolhas?

Diante desse quadro, temos jovens cada vez menos preparados para lidar com os desafios da vida contemporânea. Jovens que permanecem morando com os pais até depois dos 30 anos sem, aparentemente, se importarem com isso. Por mais que os pais se queixem dos seus filhos pela sua dependência e imaturidade, não dão oportunidade para seus filhos aprenderem a serem independentes.

Ser bom pai/mãe não é proporcionar tudo o que o filho precisa. Ao contrário, é dar condições para que ele aprenda a se virar sozinho, mesmo que, para isso, precise passar pelos apertos que nós passamos quando jovens. Será que realmente pegar ônibus, resolver um problema na operadora de celular, agendar uma consulta médica, enfrentar filas de bancos, pagar multas, trabalhar para pagar os estudos, arrumar o próprio quarto é tão ruim assim? Fica aí a reflexão.

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Comportamento

Tragédia de Suzano: Porque os jovens cometeram esse crime bárbaro?

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Em casos como esse, nunca se trata de um único fator e sim, de uma confluência de fatores

Sempre que uma tragédia como a da escola de Suzano ocorre, nós psicólogos e psiquiatras somos convidados a oferecer possíveis explicações para os comportamentos dos autores dos assassinatos. Obviamente, os nossos discursos, por mais embasados em teorias que sejam, tratam-se de meras especulações, uma vez que raramente temos as informações necessárias para uma análise acurada das motivações envolvidas em cada caso específico.

Ao mesmo tempo, em meio ao debate do armamento da população, a tragédia surge como mote dos defensores de ambos os lados: “imagine quantas vezes tragédias assim vão se repetir com a facilitação do acesso às
armas pela população” ou “se os professores estivessem armados, tragédias assim não aconteceriam”. É impressionante como o mesmo evento pode servir de evidência para teorias completamente antagônicas.

Outra vertente tenta atribuir aos autores a total responsabilidade, como se esses fossem “doentes” e essa doença seria a responsável pelas atrocidades que cometeram. Termos como psicopatas, sociopatas, perversos etc. são oferecidos como explicações fáceis. No entanto, se não explicarmos tais doenças, usá-las como explicações é um exercício de pouca valia se quisermos prevenir eventos como esses.

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Ainda que a avaliação psicológica e os instrumentos utilizados por ela fossem plenamente confiáveis, seria inviável submeter todos os indivíduos a ela.

Mesmo os agentes de segurança pública que passam por tais avaliações cometem crimes, como foi o caso do brutal assassinato da Marielle Franco. Tendemos a culpar a sociedade; os filmes, seriados e jogos de videogames violentos; os pais; os professores; os colegas e a escola.

Certamente, fatores genéticos e ambientais estão presentes na determinação de comportamentos antissociais. Porém, fatores assim estão na determinação de quaisquer comportamentos, sejam pró-sociais ou antissociais. Não há como apontar uma relação causal, na medida em que nenhum desses fatores é condição necessária e suficiente para o comportamento antissocial.

Tomando os jogos de videogame violentos por exemplo. Para dizermos que jogar esses jogos causam o comportamento antissocial, teríamos que demonstrar que todos que jogam jogos violentos cometerão atos violentos (condição suficiente) e também que todos que cometeram atos violentes os jogaram (condição necessária). A literatura, na atualidade, não conseguiu nem demonstrar de modo incontestável que assistir filmes violentos ou jogar jogos violentos aumentam a probabilidade de atos violentos de modo significativo.

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Um fator que tem sido muito comentado é a imitação. Ou seja, os atos dos brasileiros poderiam ter sido inspirados nos inúmeros casos estarrecedores observados nos Estados Unidos nos últimos 20 anos. Sem dúvida, a aprendizagem por observação de modelos é amplamente reportada na literatura. Ela é, inclusive, muito explorada pelo marketing. É muito provável que as pessoas comprem carne da marca que um ator famoso aparece comendo ou lave os cabelos com um shampoo que uma modelo diz que usa etc.

Muito se falou dos temores da aprendizagem por observação de modelos
na presença de homossexuais em novelas, garotas de programa em minisséries nacionais ou suicidas em seriados enlatados. Todavia, não temos controle sobre isso. A imprensa tem a função de divulgar os fatos de interesse, e como não divulgar os atentados nas escolas americanas? Novelas, filmes, minisséries e seriados abordam temas de cotidiano e, homossexualidade, prostituição e suicídio, são relevantes temas do cotidiano.

Pensado do ponto de vista social, não me parece eficaz privar as pessoas do acesso à informação e às discussões dos temas do cotidiano como forma de prevenir o que quer que seja. Temos que nos preocupar em formar pessoas capazes de lidar com todo volume de informações que recebem sem que, por isso, venham a infringir danos a si mesmas ou a outrem.

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Outro aspecto dessa triste história que eu gostaria de refletir diz respeito à incidência com a qual eventos assim ocorrem em escolas. Realmente é um
bom tema de pesquisas em psicologia escolar. Por que o ambiente escolar tem sido particularmente sujeito a tais eventos? Que papel a escola tem exercido na vida das pessoas? Até que ponto os modelos educacionais disponíveis têm contribuído para a formação dos indivíduos como pessoas e não apenas como acumuladores de conteúdo?

Quanto à pergunta inicial, acerca do que levou os dois jovens a cometerem esses atos, ela somente pode ser respondida por complexas analises individuais. É provável, inclusive, que ambos tenham feito esses atos por razões distintas. Além do mais, nunca se trata de um único fator e sim, de uma confluência de fatores. Infelizmente, com o óbito dos dois, é realmente improvável que consigamos responder essa pergunta de modo particularmente esclarecedor.

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Paixões de Carnaval

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Paixões de Carnaval

Quem nunca viveu uma?

Vou começar o texto de hoje citando a belíssima canção Noite dos Mascarados de Chico Buarque:

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.
Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!

Escolhi começar dessa maneira porque esses versos ilustram com maestria a tônica do meu texto. O carnaval é tido com uma festa popular onde praticamente tudo vale. Tudo é permitido. É um momento de liberação das amarras e pudores do restante do ano para muitas pessoas.
Em decorrência dessas características, toma-se, como na música de Chico Buarque, o carnaval como o contexto ideal para relações efêmeras.

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As famosas relações casuais caracterizam o carnaval, que vão desde alguns segundos de beijos roubados, relações sexuais em banheiros químicos ou dentro de carros, ou mesmo, vários encontros quentes nos dias de festa.

Por outro lado, não são raros relatos de relações estáveis como namoros, ou mesmo casamentos, que se iniciaram no carnaval. Conhecer pessoas novas não é uma tarefa fácil para quem já concluiu os estudos. Muitas profissões e muitos cargos em organizações se constituem em exercício solitário. Mesmo com o advento dos aplicativos de encontros, muitas pessoas se queixam de solidão e de muita dificuldade em ampliar o círculo de amizades.

No carnaval, por sua vez, o que não faltam são interações sociais. Além disso, pessoas que raramente dizem “bom dia” para estranhos na porta do elevador mudam completamente de postura, se tornando extremamente sociáveis. Obviamente, todo o álcool consumido durante o carnaval enfraquece as inibições e aumenta a sociabilidade.

O fato de sabermos que a festa tem hora para acabar e que a regra são relações efêmeras favorece comportamentos mais espontâneos. Não nos preocupamos muito com os característicos joguinhos de sedução comuns no restante do ano. No carnaval, não nos preocupamos muito a opinião dos outros a nosso respeito. Dançamos, cantamos, bebemos muito, usamos outras drogas, falamos alto, pulamos, sem ligar muito sobre o efeito disso nas outras pessoas. Fazemos tudo isso como se não houvesse amanhã. Por mais estranho que nos pareça, essa espontaneidade e alegria é extremamente sedutora.

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As situações do dia a dia de início de relacionamentos costumam gerar grande ansiedade nas pessoas. Principalmente para aquelas que têm como meta iniciar uma relação estável. Essas pessoas geralmente acreditam que podem controlar eventos que, de fato, possuem pouco controle. Ou seja, fora evitar erros grassos, raramente afetamos com posturas nossas voluntárias o interesse de outra pessoa em iniciar uma relação estável conosco. Todo esse processo é muito desgastante e frustrante, uma vez que as festas, jantares, relações sexuais, cinemas, teatros etc. ao invés de serem contextos de relaxamento e lazer, são situações em que estas pessoas se sentem constantemente avaliadas. Sendo assim, é muito difícil agir naturalmente. O comportamento ansioso e artificial não costuma ser muito atraente.

No carnaval, por outro lado, onde tudo é festa. Tudo vale. Podemos extravasar todas as tensões do resto do ano de modo autêntico. Sem se preocupar com o amanhã e sim, apenas com o aqui agora. Sem dúvida, isso é muito divertido.

Talvez devêssemos encarar nossas relações afetivas no restante do ano como nos portamos no carnaval. Sem ligar para o julgamento do outro. Sem se preocupar no que vai dar. Sendo, de fato, pessoas autênticas, divertidas e espontâneas. Desejo a todo(a)s um carnaval muito divertido e com responsabilidade!

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Afinal, seja o que Deus quiser!

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Você se acha especial?

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Você se acha especial?

A aprovação e o reconhecimento que recebemos dos outros elevam a nossa percepção de valor pessoal

Aprendemos, desde muito cedo, em culturas individualistas como a nossa, que precisamos ser especiais para termos valor como pessoa. Acreditamos que todos nós temos um valor pessoal e que esse valor varia na medida em que temos sucesso ou não em atividades valorizadas em nossa cultura, como, por exemplo, passar no vestibular, conquistar alguém atraente, casar, escrever um livro, comprar uma bela casa, ter um carrão, passar em um concurso disputado, concluir uma pós-graduação etc.

A aprovação e o reconhecimento que recebemos dos outros, principalmente dos nossos pais e das pessoas que admiramos, elevam a nossa percepção de valor pessoal, a qual é denominada autoestima. Ao mesmo tempo, se não obtemos admiração e reconhecimento ou, pior, se somos rejeitados, traídos, criticados, repreendidos ou humilhados, automaticamente temos a nossa autoestima devastada, ou seja, passamos a avaliar o nosso valor pessoal de forma diminuída.

Quem nunca se sentiu um super-homem em alguns momentos? Alguém que teria condições de lidar com qualquer desafio. Alguém bonito, forte, inteligente, bom de cama etc. Nesses momentos, nos sentimos especiais, diferentes e melhores que as outras pessoas. Isso costuma acontecer quando atingimos as realizações acima e, principalmente, quando somos reconhecidos por isso. Ao mesmo tempo, quem nunca se sentiu pequeno, frágil, inseguro e perdido? Os fracassos na vida nos fazem sentir assim. Não nos sentimos nada especiais. Nos sentimos iguais, ou mesmo, piores que todo mundo.

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Por outro lado, se pararmos para pensar friamente, temos pouca responsabilidade pelos nossos sucessos e fracassos. Cada ato nosso depende de uma rede muito complexa de fatores que começam a operar antes de nascermos, como nossos genes e nossa cultura. As oportunidades que tivemos em nossas vidas contribuem sobremaneira para as nossas realizações.

Esses determinantes externos aos indivíduos de suas atitudes deixam pouco espaço para mérito pessoal e para a responsabilidade pelo fracasso. Meus colegas de escola pública, por exemplo, em sua maioria, não se davam ao direito de almejar disputar uma vaga em uma universidade pública e em cursos disputados. Conhecidos meus que estudavam em escolas particulares sonhavam muito mais alto. Em decorrência disso, as comparações que fazemos com outras pessoas sempre é injusta. É como comparar uma barra de chocolate com uma fatia de melancia. Nesse sentido, cabe muito pouco orgulho pelas nossas realizações e, ao mesmo tempo, não cabe nos sentirmos piores que os outros pelo nosso fracasso.

Uma implicação desastrosa de medirmos nosso valor pessoal pelo reconhecimento que temos dos outros é abrir mão dos nossos gostos e interesses pessoais para fazer aquilo que é valorizado pelo grupo. A propaganda de margarina é um modelo de felicidade que não é representativo para toda e qualquer pessoa. Eu costumo atender pessoas concursadas de grande poder aquisitivo e que são profundamente frustradas com seu trabalho a despeito de todo o reconhecimento, por exemplo.

A dependência de reconhecimento externo implica em vidas sem sentido. A pessoa, para ser reconhecida e amada, muda seus gostos, seus interesses e seus sonhos. Isso tem íntima relação com a depressão em pessoas que, aos olhos dos outros, “têm tudo”. Pior, pessoas quando não obtém ou perdem o reconhecimento do outro, como nos casos de rejeição, abandono e traição, costumam perder elas mesmas.

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Uma vida sem sentido ao longo dos anos pode ser muito perigosa. Pode levar ao suicídio ou a uma vida moribunda. Leva à perda do brilho no olhar. Ao eterno “tanto faz”. Às vezes, fico na dúvida entre o que é pior: morrer de fato ou viver como um morto.

Infelizmente, não somos especiais, mesmo que consigamos ficar com a pessoa que sempre fomos apaixonados ou consigamos o emprego que todos queriam. Vencer as competições com as outras pessoas não nos torna especiais. Na vida, as pessoas sempre vão largar de pontos diferentes ao longo da pista de corrida. Felizmente, todos somos especiais, na medida em que o que somos de fato não depende dos sucessos e fracassos. Sucessos e fracassos mudam como nos percebemos, mas não quem somos.

Se essas minhas digressões filosóficas fizerem algum sentido, não é justificável buscarmos sermos especiais porque já somos ao sermos únicos. Também não é justificável tentar ser especial, uma vez que nunca seremos, em decorrência da impossibilidade de comparações e competições justas.

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A difícil missão é encontrar sentido para a própria existência independentemente do que é valorizado pelos outros. É a tortuosa jornada de descobrirmos quem somos, o que queremos e com o que, de fato, sonhamos.

É claro que podemos optar por não vivenciarmos essa jornada. Podemos desistir. É direito de qualquer pessoa optar por uma meia vida ou por vida nenhuma. A única forma de ajudá-las é amá-las incondicionalmente e não apenas quando elas fazem aquilo que queremos ou valorizamos.

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Maturidade, amor e paixão

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Maturidade, amor e paixão

Amor e paixão são confundidos. Para os viciados em paixão, são a mesma coisa

A Paixão. Talvez o sentimento mais sublime que exista. Talvez a droga mais poderosa naturalmente crida. Os suspiros. O frio na barriga. A libido nas alturas. O choro de alegria, tristeza e ódio. Ciúmes doentios em que uma curtida de uma foto numa rede social é motivo para a mais acalorada DR. Sorrimos para passarinhos. Poupamos uma barata furtiva no ralo da cozinha. Não nos importamos com o troco errado ou com alguém furando fila. O pensamento incontrolável. A dificuldade de concentração. A perda de sono e de apetite. Sim meu amigo, diante desses sintomas, você não está doente. Está apaixonado.

Cada segundo na presença da pessoa por quem se está apaixonado é o momento mais feliz que pode existir. Nessa hora, não há dúvidas. Não há incertezas. Tudo faz sentido. Não há vazio. É uma constante sensação de preenchimento.

O curioso da paixão, todavia, é que muitas pessoas não passam por isso. Pelas mais diversas razões, algumas pessoas são privadas ao longo de suas vidas de se apaixonarem. Não posso dizer que essas pessoas são infelizes necessariamente. Só perderam uma das experiências humanas mais maravilhosas.

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Ao mesmo tempo, com exceção de perder um filho, talvez, a rejeição, quando se está apaixonado, seja a dor mais excruciante de todas. Porres homéricos; oceanos e lágrimas; socos na parede; urros de desespero; textões e textões em redes sociais; conversas de horas com amigos e até, desconhecidos; carros a toda velocidade entre outras loucuras. Com alguma sorte, muitas sessões de terapia. Dá para dizer, portanto, que apaixonar-se é viver as emoções de uma vida inteira num prazo de poucos meses.

Para alguns, as paixões podem ser viciantes. Seduzir, conquistar, enfadar-se e partir para outra podem ser a tônica de uma vida. Em geral, quem se envolve com pessoas assim, padece. Ao mesmo tempo, os viciados em paixões dificilmente conseguirão transitar para o amor.

A má notícia sobre a paixão é que ela acaba. Podemos nos enganar que estamos apaixonados por anos de relacionamento. Podemos ter relações mais intensas que outras, mas as paixões, no uso próprio do termo, têm prazo de validade. Muitas vezes, porém, se transformam no amor.

Amor e paixão são confundidos. Para os viciados em paixão, são a mesma coisa. Quando a paixão acaba, entende-se que o amor acabou e a manutenção da relação não faz mais sentido.

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Mas o amor é outra história porque na paixão, na maioria das vezes, nos apaixonamos por um protótipo. Um que nós criamos com ajuda do outro. Encaixamos a pessoa direitinho naquele serzinho maravilhoso que temos dentro da nossa cabeça/coração. Não resta dúvida que a pessoa também tende a mostrar o que tem de melhor e camuflar os seus defeitinhos. Faz parte do delicioso jogo de sedução.

No amor, já tivemos tempo de conhecer o outro e ver que ele não se encaixa no protótipo. As máscaras já caíram e os defeitinhos se tornam aparentes. O gosto musical duvidoso; o ronco; o mau humor matinal; a falta de educação com garçons entre tantos outros. Ao mesmo tempo, as qualidades e as compatibilidades, quando existem, passam a aflorar. Elas é que vão dar a liga para a nova relação que se constrói. Daí pode nascer o amor. Não por alguém imaginário. Mas por alguém de carne e osso.

Essa é uma etapa delicada porque é frequente continuamos com pessoas que conhecemos e de que não gostamos de verdade. Fazemos isso, geralmente, porque na nossa cultura nos ensinaram que precisamos de alguém para sermos felizes. Fazemos isso porque temos que casar e procriar, senão, culturalmente não seremos plenos. Podemos nos enganar que passamos a amar uma pessoa quando, na realidade, fomos condicionados culturalmente a ter alguém. O castigo para esse crime contra si mesmo costuma ser severo: anos de uma vida sem graça, sem cor, sem som, sem textura e sem perfume. Décadas de um tolerar no lugar de um regozijar.

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Amar, portanto, requer o primeiro termo do meu texto: maturidade. Não podemos esquecer que idade e maturidade não possuem uma relação causal. Para se atingir a maturidade, é preciso, antes de mais nada, viver a vida. É preciso passar por paixões, amores, decepções, alegrias e tristezas. São essas experiências que vão nos ensinar o que realmente é importante. Abrir mão dos papeis que nos são socialmente impostos e aprender do que realmente gostados; do que não gostamos e daquilo que toleramos em prol de todo o resto que adoramos.

Mas o amor vai além disso. Amor pressupõe sacrifício. Amor pressupõe, em muitos momentos, priorizar a felicidade da outra pessoa em detrimento da própria. Pressupõe deixar de ir a um show da banda predileta porque o outro está com enxaqueca. Pressupõe passar horas numa fila de banco só para fazer companhia enquanto preferiria estar tirando um cochilo. Pressupõe se dispor a ouvir músicas de um gênero que não te agrada caso isso deixe a outra pessoa feliz.

Por sua vez, não dá para amar sozinho. Não dá certo alguém sempre se sacrificar pela felicidade do outro. Nesse sentido, amor também é troca. E sim, precisamos ensinar ao outro como queremos ser amados. Ninguém tem bola de cristal. Cabe ao outro decidir se pode e quer fazer as concessões pessoais ou não. Mas quando não dizemos o que queremos e o que não queremos, não damos a oportunidade do outro nos amar de verdade.

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A vida envolve essas coisas: paixão, amor e maturidade. Não resta dúvida que esses ainda são os assuntos mais comuns nos consultórios dos psicólogos, o que sugere que muitas pessoas, provavelmente, não aprenderam a lidar direito que esses aspectos da vida. Amor e paixão são maravilhosos. Mas para vivê-los com maturidade não tem outro jeito senão dar a cara a tapa. Cair, levantar e continuar. No fim nas contas, isso é, de fato, viver.

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Fake News: por que mentimos tanto?

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Fake News

Uma parte relevante das nossas verbalizações são relatos, descrições ou narrativas; como quando contamos a um amigo como foi a nossa viagem para São Paulo ou o que achamos do último filme do Robert de Niro

Em condições usuais, essas verbalizações costumam corresponder aos eventos às quais se referem. Todavia, nem sempre isso acontece.

O leigo tem nomes para verbalizações distorcidas como mentiras, lorotas, lendas, fraudes, engodos, mitos e, o termo da moda, Fake News. Geralmente o senso comum explica a emissão de mentiras por desvio de caráter, má fé, doença mental (mitomania) e psicopatia. Para nós analistas do comportamento, por outro lado, mentir é comportar-se.  A nossa missão é, portanto, pesquisar os determinantes ambientais do comportamento de mentir como fazermos com qualquer comportamento.

As pesquisas acerca desse assunto costumam conter três situações: na primeira, os sujeitos da pesquisa devem relatar um evento em um contexto natural, sem que os seus relatos produzam reações do pesquisador. Na segunda situação, o pesquisador pune ou recompensa relatos específicos sendo esses relatos precisos ou não. Na terceira situação, os relatos que correspondem aos eventos relatados são recompensados, enquanto que os imprecisos são punidos. Na primeira e na terceira situação, os relatos tendem a ser precisos. Na segunda situação, a maior parte dos sujeitos de pesquisa distorce seus relatos. Esses resultados são amplamente replicados na literatura com adultos, crianças, homens e mulheres, a despeito da profissão, religião, estado civil etc. Resumindo, falamos a verdade quando não há razões para mentir e quando somos recompensados a fazê-lo. Porém, se mentiras podem gerar recompensas ou evitar castigos, as pessoas poderão mentir independentemente de cor, sexo, orientação sexual, postura ideológica, credo e idade.

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Os efeitos de outros fatores foram investigados sobre o comportamento de mentir, como a possibilidade de se conferir ou não a veracidade do relato; a frequência com a qual se dá essa conferência; o tamanho da recompensa ao mentir; o tamanho da punição para mentiras quando descobertas; entre outros.

Não me restam dúvidas que as Fake News são um tipo de mentira e o conhecimento que temos acerca dos fatores que interferem na fidedignidade das verbalizações pode nos ajudar a entender esse fenômeno. Criar Fake News é vantajoso por muitas razões:

  1. Nas redes sociais, as curtidas e os compartilhamentos são reações das pessoas extremamente poderosas em estimular a publicação de postagens. As selfs em lugares perigosos, as fotos em lugares chiques ou a exposição de conteúdos íntimos nos mostram o poder das curtidas e compartilhamentos em nos motivar a postar. Fake News chocantes de uma celebridade ou de um político têm grandes chances de produzirem muitas visualizações, curtidas e compartilhamentos.
  2. Informações, precisas ou não, principalmente em uma acalorada disputa eleitoral, podem influenciar as escolhas das pessoas. Ou seja, se a meta é prejudicar um opositor ou favorecer alguém, as Fake News possuem um grande potencial para tal. Com os compartilhamentos, o alcance das Fake News é exponencial.
  3. As Fake News dificilmente serão checadas por quem as compartilha e por quem tem seu comportamento afetado por elas. Não tenho dados sobre isso, mas presumo que a maioria das pessoas compartilhe e tome como verdade notícias sem se dar ao trabalho de verificar a sua fidedignidade. Verificar a precisão das notícias é um processo trabalhoso, que exige leitura, tempo e paciência. Infelizmente tempo e paciência estão escassos hoje em dia.
  4. Com os compartilhamentos, fica muito difícil identificar o criador de uma notícia falsa, ou seja, mesmo após a identificação de que a notícia é falsa, dificilmente haverá alguma espécie de punição para quem a criou. Mesmo o bloqueio de contas nas redes sociais pode ser facilmente contornado com a criação de novos perfis.
  5. A refutação de uma notícia falsa alcança apenas parte das pessoas afetadas por elas. Fora isso, o efeito emocional das Fake News é muito maior que o efeito emocional de quando ela é desmentida.

Fica fácil, com base na literatura acerca de correspondência verbal, compreender o fenômeno assustador das Fake News nos dias atuais. Acho bem difícil combater esse instrumento eficaz de controle do comportamento das pessoas. Vale refletir, todavia, o que nos torna tão crédulos a algumas ideias. Fazem 10 anos que eu venho investigando o que leva as pessoas a mentir. Talvez uma linha mais profícua seja a de investigar o faz as pessoas acreditarem. Skinner sugere que tendemos a acreditar mais prontamente naquilo que tenderíamos a dizer. Se isso fizer sentido, ao acreditar nas Fake News, talvez estejamos mentindo para nós mesmos.

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Eleições: A ode ao ódio

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Eleições

Depois de uma longa pausa, sob o pretexto de um momento oportuno, trago algumas reflexões sobre o comportamento humano, mais especificamente, dos brasileiros na atualidade. Me deparo com um momento de ausência de autoconhecimento. As pessoas estão mais dispostas em discursar acerca do que “não são” ao invés do que “são”. O que vemos hoje é um show de “não isso”, “não aquilo”. Não ao machismo, não ao feminismo, não ao fascismo, não ao comunismo, não à homofobia, não aos LGBTQs, não ao racismo, não aos negros etc.

Me parece que está instalada a era da “ode ao ódio” que mina qualquer possibilidade de diálogo e argumentação racionais. Isso me lembra as minhas aulas de redação do segundo grau. O ponto de partida de todo parágrafo era uma tese. A partir dela, teciam-se os argumentos até uma frase derradeira conclusiva. Mas dissertar não é dialogar. Ao dissertarmos, estamos tentando expor e justificar o nosso ponto de vista e, de quebra, convencer o outro a pensar como nós. Portando, nos deparamos com infinitas dissertações que partem de princípios do “não isso” ou do “não aquilo”. O restante dos textos se resumem a argumentos (racionalizações) justificando essas escolhas. Todavia, não são os argumentos racionais que determinaram as escolhas a priori do “não isso”, “não aquilo”.

As escolhas do “não isso”, “não aquilo” remontam a determinantes que não são de agora e que raramente conhecemos. Decorrem de eventos recentes e remotos de nossas histórias de vida, como os filmes que vimos (Eles não usam Black tie; O pelego; Platoon; Rambo II e III; Rocky IV; Vingança dos Sith; Tropa de Elite etc.); músicas de escutamos (Proteção, Another brick in the wall, Selvagem, Veraneio vascaína etc.); nossa educação formal (discussões de sala de aula, clubes de debates, livros e aulas); participação em movimentos populares (grêmio estudantil, associação de estudantes, sindicatos, manifestações etc.); nossa religiosidade ou ausência de religiosidade; programas de TV (mini-séries, documentários, telejornais etc.) os posicionamentos de nossos ídolos (Chico Buarque, Caetano Veloso, Roger Walters, Mark Hamill, Danilo Gentile, Lobão, Roger, Regina Duarte etc.) e, principalmente, dos posicionamentos de nossos pais e familiares, seja seguindo ou se opondo a eles.

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Defendo que os eventos a que me refiro acima, ao contrário do que pode parecer, exerceram mais efeito sobre nossos comportamentos emocionais, que sobre nossos comportamentos intelectuais/racionais. Daí a eficácia das Fake News. O que importa é o primeiro impacto emocional. Mesmo com a refutação das notícias falsas, o estrago já está feito. A refutação da notícia falsa raramente tem o poder de anular os condicionamentos emocionais estabelecidos.

Resumindo, para mim, os nossos posicionamentos são muito mais afetivos que intelectuais. Em decorrência disso, portanto, já estão cristalizados e não há meio de modificá-los de modo relevante a partir de uma argumentação racional e ponderada. Simplesmente não iremos ouvir. Tenho certeza que defensores de ambos os lados já se sentiram “jogando pérolas aos porcos”, ou seja, seus textos, por mais eloquentes e bem fundamentados que fossem, mostraram-se absolutamente inócuos no convencimento dos opositores. Mesmo sendo esses opositores pessoas cultas, inteligentes e razoáveis. Não há diálogo quando o objetivo é o convencimento. Nesses casos, só resta a retórica. Daí, não nos surpreendemos em ver pessoas normalmente ponderadas e calmas, literalmente “perderem as estribeiras” dizendo coisas que encerrarão ou causarão danos graves às suas relações pessoais.

Todavia, essa não é a consequência mais nefasta da ode ao ódio. Esse debate pode ter um grande potencial de produzir comportamentos violentos em pessoas que, por razões pessoais são passíveis de tais reações. As polarizações tendem as deslocar as pessoas mais para os extremos do que elas realmente já são. Por exemplo, pessoas que veladamente não gostam de homossexuais, mas que conseguem conviver de forma civilizada, podem passar a defender abertamente o seu extermínio. Pessoas que fazem piadas com evangélicos neopentecostais apenas em círculos restritos, podem passar a xingá-los na rua. A consequência, portanto, é um crescimento exponencial de pessoas, homofóbicas, racistas, misóginas, xenófobas, arrogantes, prepotentes, desqualificadoras, desonestas etc. Pessoas essas capazes de atos de violência inimagináveis em uma sociedade civilizada e democrática.

Se queremos desenvolver o autoconhecimento, precisamos, antes de mais nada, nos perguntar o que somos, antes de definirmos o que não somos. Se quisermos dialogar, necessariamente precisaremos estar prontos a ouvir. Se não estamos prontos para questionar os nossos pontos de vista, não temos a menor condição emocional para iniciar um debate. Saber dialogar é mais do que saber convencer. É saber ouvir. Apenas quem ouve tem condições de conhecer o que quer que seja, ainda que seja a si próprio. A ode ao ódio nos deixa cegos e surdos e assim, no mínimo, ignorantes.

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Comportamento

Terapia, terapeuta e psicólogo

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Terapia, terapeuta e psicólogo

Frequentemente vemos nas redes sociais publicações de algumas atividades consideradas formas de terapia pelos autores das publicações como “cervejoterapia”, “a academia é minha terapia”, “terapeuta de quatro patas”, “minha terapia é correr por uma hora no parque”, entre muitas outras. Ao mesmo tempo, as pessoas dizem que vão fazer análise quando, na verdade, estão indo a um psicólogo clínico que não é um psicanalista. Além da confusão entre psiquiatras, psicanalistas e psicoterapeutas. Há ainda o exercício ilegal da profissão por não psicólogos que oferecem psicoterapia, como algumas cartomantes, pastores, garotas de programa, terapeutas holísticos etc. Com base nisso, resolvi escrever esse texto para informar ao leitor que não tem obrigação de saber, quais os limites da profissão de psicólogo, mais especificamente da de psicólogo clínico.

Vamos começar pelo mais simples. Psicólogo é aquele que concluiu o curso de graduação em Psicologia em alguma das faculdades credenciadas pelo Ministério da Educação, tendo a psicologia como habilitação. Como o diploma na mão, o psicólogo, para exercer a profissão precisa se cadastrou nos Conselhos Regional e Federal de Psicologia. Além de uma carga horária extensa, geralmente acima de 4.000 horas de disciplinas teóricas e práticas, o psicólogo precisa cursar mais de 500 horas de estágios profissionais. Atendendo a esses critérios, o psicólogo pode atuar profissionalmente em qualquer área regulamentada de atuação do psicólogo como a clínica, a escola, a organização e o hospital, por exemplo.

O psiquiatra, por sua vez, é um médico que se especializou em psiquiatria. Por ser médico, ele é habilitado a receitar psicofármacos, como antidepressivos, antipsicóticos, ansiolíticos, moderadores de humor etc. O psicólogo não é habilitado a fazê-lo. Para ser considerado um psicanalista, graduados devem cursar uma formação em psicanálise em dos institutos credenciados por uma das associações de Psicanálise do Brasil ou do exterior. Como a maior parte dos institutos de psicanálise no país exige apenas qualquer nível superior de seus alunos ingressantes, não é necessário ser psicólogo para ser psicanalista. Psiquiatras, psicanalistas e psicólogos atendem em consultório, porém, apenas o psicólogo pode se dizer psicoterapeuta. Ao mesmo tempo, apenas quem passou por formação em psicanálise pode fazer análise, sendo psicólogo ou não.

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De modo análogo aos psicanalistas, existem outras modalidades de formações em terapias para graduados em geral que habilitam os profissionais a atenderem em consultório, como os psicodramatistas ou os terapeutas corporais, por exemplo. Todavia, assim como os psicanalistas, esses profissionais não podem se denominar psicoterapeutas caso não sejam psicólogos.

Diversas outras formações que não seguem regulamentação específica fazem trabalhos similares aos dos psicólogos clínicos, como terapeutas holísticos, terapeutas de florais, videntes, gurus, conselheiros espirituais (pastores e padres, por exemplo) entre outros. A despeito da ajuda que esses profissionais podem fornecer aos usuários de seus serviços, não é correto dizer que são psicoterapeutas ou que o acompanhamento que fazem é psicoterapia. Ademais, os conhecimentos que aplicam não decorrem de pesquisas científicas como é o caso da Psicologia. Obviamente o usuário pode achar que o conhecimento ser científico é absolutamente irrelevante, desde que ele goste do profissional que o atende. Todavia, o usuário não pode comprar gato por lebre ao pensar estar fazendo psicoterapia quando na realidade está sendo submetido a outro tipo de tratamento.

As terapias com esses outros profissionais podem ser consideradas atividades terapêuticas. As atividades terapêuticas, que muitas vezes são recomendadas por psicólogos clínicos, constituem em quaisquer atividades que auxiliam o bem estar psicológico do indivíduo. Elas podem ser das mais diversas, como bater um papo com o personal trainer enquanto se exercita; interagir com animais de estimação; fazer as unhas; assistir Netflix; andar de patins; meditar; fazer Ioga; ler para deficientes visuais; ir para festas; gastar em um shopping; ir a museus etc. É importante notar que não é a natureza da tarefa que define a atividade como terapêutica e sim, a função que ela exerce na vida da pessoa. Realmente as atividades terapêuticas são intimamente relacionadas ao que denomina saúde mental e colaboram para o sucesso do tratamento psicoterápico. Entretanto, não se constituem em psicoterapia.

As atividades terapêuticas podem propiciar o acesso a momentos prazerosos, a momentos de relaxamento, ou mesmo, conferir sentido à vida de algumas pessoas. Porém, ao contrário de uma psicoterapia, essas atividades não propiciam o autoconhecimento, nem o desenvolvimento de novos modos mais bem sucedidos de se relacionar com o mundo. Portanto, se o seu objetivo é fazer psicoterapia, procure um psicólogo porque, nesse sentido, apenas ele poderá te ajudar.

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Comportamento

Homossexualidade: A velha disputa entre ciência/profissão e religião

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Homossexualidade: A velha disputa entre ciência/profissão e religião

Há alguns meses escrevi um texto sobre os retrocessos que estávamos vivendo nos dias de hoje. Infelizmente, meus poderes premonitórios mais uma vez não falharam. Infelizmente, a minha habilidade se revela em prever más notícias e foi justamente o que ocorreu nesta semana. Se já não fossem suficientes os efeitos desastrosos da combinação entre religião e política, agora nos vemos novamente diante de um entrevero entre ciência/profissão e a religião.

Um grupo de psicólogos(as) que se denominam cristãos moveu uma ação contra o Conselho Federal de Psicologia pelo direito de “tratar” pessoas de orientação sexual homoafetiva no intuito de modificar a sua orientação sexual. Trata-se de um debate tão antigo em Psicologia e Psiquiatria que eu, durante a minha graduação, ingenuamente, acreditei que estivesse superado, o que, infelizmente, me dou conta que não.

Não há uma relação necessária entre a passagem do tempo e a evolução de uma cultura. Com o maior acesso à informação em decorrência do advento da internet, se podia esperar que fossem propagados novos modos de pensar a condição humana, resultando em mais amor, respeito e igualdade. O que se observa, todavia, é o acesso a qualquer tipo de informação, seja ela de esquerda, de direita, progressista, reacionária, verdadeira ou falsa.

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Além disso, o ser humano, para conferir uma certa inteligibilidade ao conjunto caótico de informações que recebe, organiza o mundo em categorias. Ao fazê-lo, atribui aos novos membros dessas categorias, todas as suas propriedades. Por exemplo, a esquerda, que até recentemente esteve no poder, instaurou programas sociais de diversas naturezas, sendo que alguns deles visavam uma maior tolerância e respeito às diferenças. Por outro lado, essa mesma esquerda foi associada à corrupção endêmica que assola o país. O ódio a essa esquerda foi, de certa forma, generalizado a algumas das causas que defendem, como aquelas relativas aos movimentos LGBT. Esse processo comportamental é responsável por diversos tipos de preconceito, como o machismo e o racismo, por exemplo, e não seria diferente em relação a homofobia.

Esse momento histórico, foi terreno fértil para que o movimento de psicólogos(as) cristãos(ãs) conseguissem atenuar pela via jurídica a resolução do CFP que proíbe a atuação do profissional em psicologia com o objetivo de modificar a orientação sexual de seus pacientes. Apesar de não haver consenso, em psicologia, entre o que é normal ou anormal, existe um critério que é consensual para se considerar a necessidade de tratamento psicológico: o sofrimento. Sim, é óbvio, que grande parte dos homossexuais sofre, e sofre muito. Mas o seu sofrimento não decorre de desejar, flertar e relacionar-se afetivamente com pessoas do mesmo sexo. Ao fazê-lo, sentem coisas parecidas com aquelas que os heterossexuais sentem ao fazerem as mesmas coisas. Os homossexuais sofrem em decorrência da coerção social contingente à sua orientação sexual. A coerção social na homossexualidade não se refere apenas à homofobia, mas a exposição a uma criação que critica os comportamentos que não se enquadram aos padrões heteronormativos, como brincar, vestir-se, falar, portar-se como as demais pessoas do mesmo sexo biológico.

Tratar um homossexual, como qualquer pessoa é, além de respeito e civilidade, criar condições para que esse encontre meios de deixar de sofrer. A conclusão óbvia, portanto, é: devemos atuar na causa de seu sofrimento, no caso, os efeitos da coerção social, e não a sua orientação sexual. A meta, pelo menos do jeito que eu vejo a psicoterapia, é criar condições para que as pessoas se sintam livres das opressões sociais que cerceiam os seus modos de viver, desde que esses modos não impliquem em violência, opressão e discriminação. Para mim, isso é amor, isso é compaixão, isso é ser psicólogo e isso é ser cristão no sentido literal da palavra.

A resolução do CFP sobre essa matéria, ao contrário do que entendeu o juiz federal que concedeu a liminar, não proibia a investigação científica da homossexualidade. Os comportamentos homossexuais, heterossexuais, bisessexuais, religiosos, autoritários, preconceituosos, como quaisquer comportamentos, passaram, passam e sempre passarão pelo escrutínio da ciência psicológica. A Psicologia se ocupa de qualquer comportamento e não apenas aqueles que, a depender do critério e da conveniência de grupos específicos, são considerados anormais. Considero que o argumento do magistrado se trata de uma justificativa distorcida utilizada para abrir a possibilidade dos tratamentos que visam a mudança de orientação sexual.

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De modo bem simples, me parece que os(as) psicólogos(as) cristãos(ãs) consideram, em consonância às suas crenças religiosas, que a homossexualidade é pecado. Como cristãos, se comprometeram a combater o pecado, seja boicotando (censurando) uma exposição num museu, seja tentando reverter a orientação sexual. Não se trata de ajudar aqueles que querem voluntariamente mudar a orientação sexual. Diante da coerção social, devemos nos perguntar se realmente cabe o rótulo de “voluntário” a um cliente homossexual que traz como queixa a mudança de sua orientação sexual. Não se trata de ver a homossexualidade como doença apenas. Se trata de combater o pecado de acordo com a interpretação que fizeram do viria a ser pecado. São “cristãos” antes de serem psicólogos e eu respeito isso. Porém, por respeito à profissão, não usem a religião para distorcer a ciência/profissão. Homossexualidade não é doença e, portanto, não deve ser tratada.

Pronto. Lacrei!

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Golpe duro na esperança! Apatia e a desesperança aprendida

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Golpe duro na esperança! Apatia e a desesperança aprendidaGolpe duro na esperança! Apatia e a desesperança aprendida

A maioria dos brasileiros ficou decepcionada com a decisão do congresso nacional em impedir a investigação do atual presidente da república. Talvez um número maior tenha se desapontado com o aumento da gasolina de R$ 0,40 em média. Aqueles que estão prestes a perder a proteção da lei em negociações trabalhistas com a reforma a ser regulamentada também ficarão desapontados, como ficarão todos aqueles que um dia pretendem se aposentar, caso a reforma da previdência seja aprovada. Ficarão mais despontados ao verem que essas reformas não se aplicam integralmente a políticos e ao judiciário. Com o sistema político atual, não há muito o que possamos fazer e, curiosamente, a reforma política que conferiria mais poder ao voto está adormecida. Quando o presidente da república possui uma forte base de apoio no legislativo e no judiciário, ele tem poder de fazer tudo isso sem grande dificuldade.

Eu não ouso dizer “golpe de estado”, afinal, foi tudo de acordo com a lei, mas não tenho dúvida, foi um golpe de mestre. A faca, o queijo e a goiabada na mão. Todavia, o atual presidente carece do apoio popular. Menos de 10% aprovam o seu governo. Por que essas pessoas não vão às ruas como foram quando Dilma Rousseff, com uma rejeição muito menor, estava no poder? Por que não fazemos nada além de esbravejar nas redes sociais (“eu não te disse?”, “cadê os bate panelas agora?”) se um presidente com alto índice de rejeição, nos priva de direitos, escapa de ser investigado por corrupção passiva, e ainda distribui verbas com base nos altíssimos impostos que nós pagamos como moeda de troca para não ser investigado?

Ao aplicar o seu golpe de mestre, Temer contou com supostos movimentos populares muito bem organizados e financiados para incitar a classe média insatisfeita. Uma vez que o objetivo foi atingido, esses grupos anticorrupção estão convenientemente silenciados. Fora isso, o texto de hoje, após essa longa introdução, aborda justamente uma das razões pelas quais aquelas pessoas que foram diretamente afetadas pelas iniciativas do atual governo e que, absolutamente não querem o atual presidente no poder, não se revoltam e vão às ruas protestar.  

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Você ficaria surpreso em saber que tem tudo a ver com a depressão. A maior parte dos antidepressivos, em algum momento de seu desenvolvimento e aprovação para seres humanos, passou pelos testes de desamparo aprendido. Vou usar o teste que eu denomino de liquidificador de ratos para ilustrar como eles são feitos. Um cilindro de acrílico transparente de aproximadamente 50 cm de atura e 30 cm diâmetro é enchido d’água até cerca de 80% de sua capacidade. Um rato de laboratório é colocado dentro do cilindro. O animal tenta nadar e subir pelas paredes em vão até que, após alguns minutos, se cansa e para de fazê-lo. Consequentemente, começa a afundar. Nesse momento, o experimentador o retira do cilindro.  Esse mesmo animal passa por essa manipulação diversas vezes até que o tempo que gasta tentando escapar do cilindro diminui drasticamente em relação às primeiras vezes em que foi colocado no cilindro. Os animais nessas condições estão prontos para o teste dos antidepressivos. Alguns animais (Grupo Controle) recebem uma dose de solução salina (placebo) e outros (Grupo Experimental) recebem uma dose de uma droga com suposto efeito antidepressivo. Se os ratos do grupo experimental voltam a tentar escapar do cilindro por mais tempo que os ratos do grupo controle, conclui-se que a droga possui efeito antidepressivo.

Em outros experimentos, verifica-se que se introduzirmos algum modo de escapar do cilindro, aqueles animais que passaram pelo treino de desamparo aprendido demorarão muito mais a aprender como escapar do cilindro do que ratos que não passaram por esse treino. Isso ocorre por uma simples razão, os ratos que passaram pelo treino de desamparo aprendido desistem antes de descobrirem o modo de escapar do cilindro.

A conclusão triste desse texto é que nós brasileiros somos os ratos que passaram pelo treino de desamparo aprendido. Um dos sintomas mais comuns da depressão é a apatia. Os eventos ruins que nos acontecem nos irritam e entristecem, mas não nos movem a tentar mudá-los por uma simples razão que tem tudo a ver com os ratos: por diversas frustrações passadas, aprendemos equivocadamente que não adianta. Como o rato, aprendemos que não há nada que possamos fazer. Para pessoas deprimidas, algumas mudanças em seu ambiente devem acontecer para que isso seja revertido. As drogas antidepressivas atuam ajudando o deprimido a tentar mais e, quem sabe, conseguir mudar parte de seu ambiente. A psicoterapia tentar ajudar a pessoa a desenvolver novos modos de lidar com o ambiente, ou seja, a encontrar novas formas de escapar do cilindro ou mesmo de derrubar o cilindro metaforicamente. 

Agora o que fazer com um povo apático em decorrência de um treino social de desamparo aprendido? Essa eu vou deixar para os cientistas sociais. Todavia, eu sei que não basta esbravejar nas redes sociais obtendo muitas curtidas de quem concorda com você. Isso é apenas mais um sintoma da depressão, o discurso poliqueixoso.

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Comportamento

Você sabe amar?

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Você sabe amar?

Na semana do dia de Santo Antônio e, consequentemente, dia dos namorados, é pertinente abordar a temática do amor. Não raro ouvimos uma pessoa dizendo à outra “você não sabe amar!”. Alguns clientes meus já me relataram terem ouvido isso de terapeutas que me precederam. Essa forma de se referir ao amor sempre me soou meio esquisita porque parece que “amar” entraria na mesma categoria de “dançar”, “tocar violão” ou “andar de bicicleta”, por exemplo. Essas atividades me parecem completamente distintas do que viria ser amar, a despeito de envolverem verbos. Percebemo-nos amando sem termos voluntária e conscientemente tentado fazê-lo. Somos simplesmente “acometidos” pelo amor. O mesmo não acontece com tocar violão, por exemplo. Precisamos, inicialmente, tentar aprender a tocar de forma voluntária e consciente o instrumento.

Além disso, podemos dançar, tocar violão e andar de bicicleta bem ou mal, ao passo que adverbializar o verbo amar do mesmo modo não faz muito sentido. Não amamos bem ou mal. Amar não é uma coisa que se faz bem feito ou mal feito. Ademais, para aprendermos a dançar, tocar violão e andarmos de bicicleta, precisamos de algum de tipo instrução, ainda que informal. Precisamos parar o que estávamos fazendo e iniciar uma dessas atividades, do tipo, agora vou dançar. Amar não funciona do mesmo jeito, podemos amar assistindo um filme, dirigindo, cozinhando, dançando, tocando violão e andando de bicicleta.

A partir desse breve ensaio de análise conceitual, concluí que não faz muito sentido dizer que uma pessoa não sabe amar do mesmo jeito que dizemos que alguém não sabe tocar violão. Mas continuou a dúvida, o que leva as pessoas a fazerem esse tipo de uso ampliado ou não convencional do conceito de “amar”? Na realidade, o que elas querem dizer quando dizem que alguém não sabe amar?

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A divertida música “Você não soube me amar” da banda “Blitz” talvez nos dê uma pista do que poderia ser. Muitas pessoas quando dizem “você não sabe amar” na realidade estão dizendo que você não soube “me” amar do jeito que eu gostaria. Uma pessoa que não recebeu a atenção e o carinho que gostaria; cujo parceiro não assumiu a relação de forma pública; que foi traída; e/ou que foi rejeitada ao final do relacionamento, pode concluir que o parceiro não soube amar. O mesmo vale para uma pessoa que se relacionou com alguém ciumento, controlador, possessivo e violento. Também costuma-se dizer que alguém que inicia relacionamentos, seduz, se apaixona e, quando acaba a paixão, rompe inesperadamente, iniciando o mesmo ciclo com outra pessoa, não sabe amar. Dizer “você não sabe amar”, nesses casos tem a função de “mude”, “sinta-se mal pelo que fez comigo”, “não me rejeite”, “volte para mim” ou, simplesmente, “me ame”.  

Não podemos afirmar que essas pessoas exemplificadas acima não sabem amar. Seria mais apropriado dizer, após uma análise mais cuidadosa, que elas simplesmente não amaram. Não se trata de amarem bem ou mal, de terem sido instruídas ou não, de desejarem voluntária e conscientemente amarem ou não, e sim de que amaram ou não.

Por outro lado, praticamente não temos dúvida em dizer que sabe amar aquela pessoa que se doa, que se molda, que se sacrifica, que sofre e vive em função do outro. Novamente, como discutido acima, não se trata de saber amar ou não, e sim, de amar ou não. Nesse caso, na minha opinião, pessoas que vivem o relacionamento dessa forma não necessariamente amam seus parceiros.

O padrão subserviente de relacionamento geralmente está associado a um histórico de abandono parental ou de relacionamentos amorosos fracassados. Pessoas como essas aprenderam de forma equivocada que ficar sozinho significa necessariamente ser infeliz. Além disso, aprenderam, também de forma equivocada, que os abandonos que sofreram na infância ou nos relacionamentos passados foram responsabilidade delas e que, por isso, não têm valor. A única forma que encontraram para rechaçar a ideia de que não possuem valor é iniciar e, principalmente, manter um relacionamento. Essas pessoas não amam ou amaram os seus parceiros e sim, dependem de relacionar-se e, em decorrência disso, são os alvos mais fáceis para aquelas pessoas acima que diz-se não saberem amar. Na minha opinião, nenhuma dessas pessoas descritas no meu texto de hoje amam ou amaram os seus parceiros.

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O amor é provavelmente o termo relativo às emoções mais complexo e difícil de definir. Mas certamente, o verbo amar, não faz o menor sentido sem o seu objeto direto “alguém”. Devemos amar o beijo, o carinho, o cheiro, o papo, a companhia, o sexo, o jeito do outro e não, amar “estarmos em” ou “iniciarmos um” relacionamento. Não se trata de saber amar e sim, amar tudo que o outro é, e não o que estar numa relação supostamente diz acerca de nosso valor pessoal.

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