Vivenciar o Luto

Luto

Eu tinha pensado em falar sobre outro assunto hoje, mas a tragédia com o avião que transportava os jogadores da Chapecoense me fez mudar de ideia e falar sobre luto. Mais especificamente sobre uma das máximas psicológicas que caiu no gosto popular: “Você precisa vivenciar o luto para superar uma perda”. O problema da popularização de conhecimentos científicos é a omissão do contexto em que estes foram produzidos, o que resulta em belas frases vazias e de pouca utilidade prática. Como seguir o conselho: “vivencie o luto”? A resposta a essa pergunta é outra frase bonita e de pouca ajuda: “sofra o que tiver que sofrer”. Na minha prática como psicoterapeuta e supervisor, já observei pessoas que sofrem de modo descomunal após uma perda por mais de 10 anos sem superá-la de fato. Desse modo, ao que me parece, sofrer por sofrer, não é muito eficaz.

Uma perda geralmente é acompanhada por uma série de mudanças na vida de uma pessoa, como a saída de um emprego, interrupção dos estudos, adiamento de uma separação conjugal, a volta dos filhos adultos para casa, entre incontáveis exemplos. Além dessas mudanças, as pessoas se compadecem daqueles que estão sofrendo, passando a tratá-los com mais carinho, atenção e compaixão. Esse tipo de tratamento poderia ser inacessível antes da perda e, consequentemente, do sofrimento. Paralelamente, as mudanças descritas acima podem ser convenientes para algumas pessoas. Conseguir carinho, atenção, sucesso profissional e acadêmico, manter um casamento e os filhos por perto representam grandes desafios para algumas pessoas por não dependerem inteiramente de seus esforços e, no que dependem, requerem muito trabalho para o desenvolvimento dos repertórios que teriam chances de mantê-los. Uma perda e o sofrimento decorrente dela dificilmente produziriam o sucesso acadêmico e profissional, por outro lado, evitariam as cobranças por não consegui-lo.

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Caso as pessoas acima deixem de sofrer a perda, a vida delas tende a voltar a ser o que era antes dela. Nesse sentido, sofrem para valer e por muito tempo, a não ser que esse quadro se modifique de alguma maneira. Essas pessoas provavelmente precisam de psicoterapia e não será a perda ou luto que serão tratados, e sim, o terapeuta precisará ajudá-las a conseguir o que desejam sem precisarem sofrer para tal.

Considero que viver o luto é importante desde que ele signifique a aceitação da perda. A aceitação da perda, por mais doloroso que seja, consiste na morte da esperança de que aquela pessoa ou aquilo que foi perdido retorne de alguma maneira. O sofrimento pela perda de um ente querido por motivo de falecimento costuma durar menos tempo que por um rompimento de uma relação conjugal justamente por isso. Quando alguém que amamos morre, rapidamente perdemos as esperanças que essa pessoa volte, uma vez que morte é irreversível. Além disso, aquela pessoa que não está mais ali, a não ser em alguns casos de suicídio, não é porque ela não quis ficar. Num caso de rompimento conjugal, a esperança de tudo voltar a ser como antes ainda perdura, principalmente, quando se mantém contato com quem foi embora, com a sua família e amigos. Para piorar, essa pessoa não está mais contigo porque ela não quer, e não porque ela faleceu. Daí segue uma conclusão óbvia, porém, equivocada, de que não fomos capazes de manter o desejo do outro em continuar conosco. Temos que lembrar, todavia, que o desejo é do outro e, se já temos pouco controle sobre os nossos desejos, quem dirá, dos outros.

Portanto, vivenciar o luto é admitir a perda e reconhecer que nada mais pode ser feito. Doerá muito no começo, mas em muito menos tempo que se imagina, conseguiremos conviver com muito mais tranquilidade com a nossa perda.

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