Traição e Valor Pessoal – Uma falácia perigosa

Na nossa cultura, a traição é um acontecimento grave que costuma produzir efeitos devastadores nas relações conjugais, sejam elas de matrimônio, noivado ou namoro. Infelizmente, a pessoa traída passa a ser menosprezada socialmente, como se a responsabilidade da traição fosse dela. É óbvio que se nós não formos atenciosos, carinhosos, gentis, cooperativos e, principalmente, fieis, a probabilidade de sermos deixados, ou mesmo traídos, aumenta. Entretanto, a pessoa traída costuma se sentir, de forma injustificada, inferior às demais. Como se a traição estivesse relacionada a sua falta de valor pessoal. Ou seja, a pessoa que foi traída costuma se ver como alguém que não foi bonita, inteligente, divertida, “boa de cama”, dentre outros atributos, o suficiente para evitar a traição.

Frases do tipo: “não me preocupo com traição, confio no meu taco”; “ela me traiu porque eu não fui bom o suficiente para ela”; “se não tem (sexo) em casa, vai acabar procurando na rua” ilustram bem essa questão. A tese que eu quero discutir no texto de hoje é a de que as consequências da traição para o valor pessoal, assim como, essas frases, não fazem lá muito sentido.

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Diversas culturas, ainda que não todas, estabeleceram a monogamia como padrão de relações conjugais. Nessas culturas, aprendemos que trair é errado. De forma similar, aprendemos que roubar, por exemplo, também é errado. Todavia, não deixaremos de desejar os bens alheios por isso. Podemos nem cogitar trair ou roubar, o que não quer dizer que uma pessoa fora da nossa relação estável deixe de nos atrair ou que o celular de última geração do colega de trabalho deixe de ser um objeto de desejo. Paralelamente, desejarmos o celular do colega de trabalho não implica, necessariamente, que o nosso aparelho seja ruim ou mesmo, inferior ao do colega. Ele é apenas diferente. Outra pessoa pode nos atrair de diversas formas, seja pelo modo como se veste, seja pelo gosto musical ou até pela aparência, o que não implica, em absoluto, que o(a) nosso(a) cônjuge não tenha valor ou seja inferior a outra pessoa. 

Com base na argumentação acima, portanto, a traição tem mais relação com quem trai do que, necessariamente, com quem foi traído. Aparentemente, a pessoa que trai tem sua conduta menos determinada por imposições coercitivas culturais. Nesse sentido, trair, numa cultura monogâmica como a nossa, pode ser considerada uma conduta socialmente inadequada. O que não quer dizer que a pessoa que foi traída é menos atraente ou tenha menos valor por isso.

Se você foi traído(a), o que provavelmente já aconteceu, tente não se desesperar e achar que não possui valor como pessoa. Talvez a sua relação esteja em risco, mas não quem você é. Não vincule a sua auto-estima ao que fazem com você, e sim, ao que você faz consigo mesmo(a).

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