Por que eles só pensam na política?

Os empresários perderam o medo de participar do setor público, após a Lava Jato. Agora, trabalham para transformar o País. Saiba como eles influenciam e o que querem das eleições 2018

Nos dias seguintes à notícia de filiação do economista Gustavo Franco ao Partido Novo, no final de setembro, o número de adesões à sigla bateu recorde. Com 14 mil filiados, 49,6% a mais do que em janeiro deste ano, o partido conseguiu registrar 100 novos simpatizantes por dia, o triplo dos meses anteriores. Não é de saltar aos olhos, mas é bom lembrar que o Novo, presidido pelo executido do setor financeiro Moisés Jardim, é o único a cobrar uma mensalidade mínima de R$ 28,23 e não aceitar os recursos do fundo partidário. Em abril deste ano, o R$ 1,7 milhão a que teve direito deveria ter sido devolvido aos cofres públicos. Mas a burocracia brasileira não permitiu a operação e o dinheiro foi depositado em um fundo próprio.

O Novo é o principal expoente do interesse do setor privado pela política. Criado em 2011 por empresários descontentes com o mar de lama de corrupção nos poderes Executivo e Legislativo, o partido quer instituir no setor público conceitos consagrados de gestão, como estrutura enxuta, austeridade nos gastos e transparência. O partido, liberal e pró-mercado, defende o Estado mínimo. “Faltava um nome relevante nos nossos quadros para mostrar que o projeto não é utópico e as propostas são coerentes e consistentes”, diz Patricia Vianna, ex-diretora executiva do UBS e presidente do diretório do Rio de Janeiro. “O Gustavo veio ser o protagonista da Fundação.”

Jorge Paulo Lemann: por meio da Fundação Estudar, criada em parceria com os executivos Marcel Telles e Beto Sicupira, Lemann quer formar novas lideranças (Crédito:Sergio Lima/Folhapress)

A Fundação Novo vai ser o núcleo de estudos e desenvolvimento de políticas públicas do partido. Franco, um dos pais do Plano Real, será o coordenador dessas ideias. No início de agosto, ele foi um dos signatários, ao lado dos economistas Edmar Bacha, Elena Landau e outros, de uma carta endereçada a Tasso Jereissati, presidente interino do PSDB. Eles disseram que “o centro ético que o Brasil tanto precisa foi deixado vazio” e fizeram o apelo para que os tucanos desembarcassem do governo, renovassem sua direção e fizessem uma refundação programática e ética. Todos decidiram romper com os velhos hábitos e Franco se filiou ao Novo. “A tarefa da Fundação é pensar sobre o Brasil e para o Brasil”, disse ele (leia a entrevista ao final da reportagem).

A Operação Lava Jato foi o gatilho para despertar o dever cívico dos empresários. Se antes havia a necessidade do caixa dois e das doações eleitorais em troca de apoio no setor público, agora essas práticas estão sendo revistas e questionadas. Até aqueles que preferiam se manter distantes decidiram que era hora de agir. É o caso de Jorge Paulo Lemann, dono de uma fortuna estimada em US$ 31,2 bilhões. Nos últimos dois anos, no evento anual da Fundação Estudar, a organização sem fins lucrativos criada por ele e pelos também bilionários Marcel Telles e Beto Sicupira para formar novas lideranças, Lemann insistiu sobre a importância dos jovens fazerem parte da reconstrução política do Brasil.

“Nossos bolsistas vão ter uma oportunidade grande de participar dessa transformação, como empreendedores, políticos ou pessoas atuantes no setor público”, disse o dono de AB-InBev, Burger King e Kraft-Heinz. Flávio Rocha, presidente da Riachuelo e uma das vozes mais ativas do setor privado, concorda. “Quando falta a crença na sabedoria suprema do livre mercado, há a hiperregulação. É o preço da omissão do empresariado na nossa política”, diz ele, um dos primeiros empresários a “saírem da moita”, como gosta de repetir. “Nossa competitividade teve uma queda abismal por essa omissão. E não falo só do empresário pidão nem do de conchavo.”

Flávio Rocha, presidente da Riachuelo: para o empresário, o próprio setor produtivo paga o preço da omissão política (Crédito:Keiny Andrade /Folhapress)

Para enterrar esses velhos hábitos, Eduardo Mufarej, CEO da Somos Educação, lançou oficialmente, na sexta-feira 6, o movimento Renova Brasil. O objetivo é desenvolver as novas lideranças políticas que vão para o Congresso Nacional. Em 2018, eles querem eleger entre 100 e 120 deputados federais. Aqueles que buscam o apoio do Renova Brasil terão de passar por uma seleção semelhante a um processo de trainee, com teste online e de vídeo, entrevista e banca avaliadora. As 150 pessoas que vencerem essas três etapas precisam estar dispostas a largar os seus empregos e viverem com a bolsa auxílio que será repassada.

A contrapartida é a frequência em cursos anticorrupção, gestão pública, sustentabilidade, autoconhecimento, comunicação e gestão de redes sociais. A ideia é não interferir no mandato, mas exigir transparência nas ações. Assim como o Combinator, uma aceleradora americana que quer criar uma nova onda de políticos na Califórnia, o Renova Brasil montará um fundo para sustentar essas ações. Metade irá para o instituto e a outra metade ficará vinculada à conta corrente do doador, que poderá escolher o candidato que será apoiado no pleito (a nova Lei eleitoral não permite doações de CNPJ).

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Atualmente, 35 nomes fazem parte do movimento, como o de Flavia Faugéres, ex-general manager da BRF e Wolff Klabin, herdeiro da Klabin, entre outros. Também foram convidados Armínio Fraga, dono da Gávea Investimentos, o publicitário Nizan Guanaes, o empresário Abilio Diniz e o apresentador Luciano Huck. Os valores da contribuição não foram divulgados. “Hoje, existe gente disposta, competente e com vontade de servir. Mas sem apoio elas não vão conseguir”, afirma Mufarej. “Elas precisam desse suporte e nós vamos oferecer isso a elas. Esperamos que as pessoas parem e pensem que não estão sozinhas.”

Armínio Fraga, dono da Gávea Investimentos: o ex-presidente do Banco Central é cotado como um dos apoiadores do movimento Renova Brasil (Crédito:Masao Goto Filho / AG. ISTOE)

A iniciativa encabeçada por Mufarej nem começou e já provoca calafrios nos políticos em Brasília. O deputado federal Jorge Solla (PT-BA) encaminhou à Procuradoria Geral da República uma representação para que o órgão investigue a legalidade da criação de fundos privados. Segundo o petista, essa é uma tentativa de burlar as leis e fraudar a democracia. Mas o Renova Brasil não está sozinho. Guilherme Leal, um dos donos da Natura, e Neca Setubal, herdeira do Itaú, criaram em maio de 2012 a Rede de Ação Política e Sustentabilidade (Raps). O objetivo também é aperfeiçoar a democracia com a criação de lideranças que colaborem com a transformação do Brasil, por meio de cursos gratuitos.

Em 2010, Leal era o candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva, então no PV. Os 19,6 milhões de votos não foram suficientes para levá-los para o segundo turno. A partir daí, o dono da Natura reconheceu que era preciso mais que uma candidatura. Era preciso expandir a transformação da arena política, com ação pluripartidária e diferentes ideologias. “O sistema todo é podre, mas provocou na população uma distorção profunda”, diz Rubens Ricupero, decano da Faculdade de Economia da FAAP, ex-ministro da Fazenda e conselheiro do Raps. “Todos esses esforços são altamente louváveis e espero que dê certo. Mesmo que se consiga eleger apenas algumas dezenas de pessoas diferentes, com outra origem, que não seja um político de carreira, será notável.”

Outro grupo apartidário que vem interferindo no cenário político é o movimento Mulheres do Brasil, criado em 2013 por lideranças como Luiza Trajano, fundadora e presidente do conselho de administração do Magazine Luiza; Chieko Aoki, presidente do grupo hoteleiro Blue Tree; e Sônia Hess, fundadora da marca de varejo Dudalina, que conta com sete mil mulheres participantes. “A sociedade está se interessando em ter mais conhecimento com o que está acontecendo no País”, diz Chieko. “Por isso, ela está de olho na boa gestão com ética, que está sendo colocada em cima da mesa para não sair mais.”

Neca Setubal, herdeira do Itaú: em parceria com o fundador da Natura, Guilherme Leal, criou o movimento apartidário Raps (Crédito:Divulgação)

Atento com o que se passa na Câmara e no Senado, o Mulheres do Brasil se posicionou contra a criação do fundo público eleitoral, conhecido como fundão, que foi aprovado e vai destinar R$ 1,7 bilhão para o financiamento das campanhas. Agora, articula uma proposta para a reforma política, questionando a formulação do voto distrital e a maneira como os partidos são configurados. “Nossa intenção é a de entregar o projeto no próximo ano, para que possa ser discutido em eleições futuras”, afirma Luiza Trajano. “O momento político que passamos e os desdobramentos da Operação Lava Jato fizeram com que a classe empresarial ficasse mais atenta com o Brasil como um todo.”

Nas eleições de 2018, o Novo projeta eleger entre 20 e 35 deputados. Em sua estreia eleitoral, em 2016, obteve cerca de 300 mil votos e emplacou quatro vereadores (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre) das cinco cidades em que apresentou candidatos. A sigla vai concorrer, pela primeira vez, a cargos executivos. A presidência deve ser disputada por João Dionísio Amoêdo, ex-vice-presidente do Itaú. No Rio, a pretensão é convencer o técnico Bernardinho, multicampeão pelas seleções masculina e feminina de vôlei, a concorrer ao governo do Estado. “Somos um partido empreendedor. Sem produção, não há país. Sem economia, não há sociedade. E é isso que está acontecendo”, diz Christian Lohbauer, cientista político e um dos fundadores da sigla. “O Novo tem a ambição de representar o resto da sociedade que ainda produz e que acredita que dá para recuperar a situação dramática causada por uma má administração.”

Em Minas Gerais, o nome que desponta é o do empresário Romeu Zema Neto, presidente do conselho de administração do grupo familiar que detém 450 lojas de eletroeletrônicos e 350 postos de combustíveis e vai faturar R$ 4,5 bilhões este ano. Zema Neto é uma alternativa a Salim Mattar, fundador da Localiza, que foi convidado, mas se disse impedido em razão da fusão de sua locadora com a Hertz. “Nunca me animei nem me envolvi com a política, tanto pelo que faziam os políticos como os partidos”, diz Zema Neto. Porém, ele se identificou com as ideias e valores da sigla para aceitar o desafio de entrar na vida pública. “Sou um dos que não tem histórico político, mas com uma carreira de trabalho e seriedade como empreendedor. Tenho conversado com muita gente que conhece a política e todos que estão envolvidos continuam contaminados com a velha política e os hábitos ultrapassados de comitês e cabos eleitorais.”

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Guilherme Leal, acionista da Natura: foi candidato na eleição de 2010, como vice na chapa de Marina Silva. Agora, ele busca influenciar a formação de novos políticos (Crédito:Daniel Marenco/Folhapress)

Zema Neto terá de fazer uma campanha enxuta, com 10 segundos de tempo de televisão. Ao contrário de Ricardo Nunes, da Ricardo Eletro, seu concorrente nos negócios, que está constantemente na mídia, seu rosto é desconhecido do grande público. Para um outsider, a falta de promoção e visibilidade pode ser um problema. Em 2016, o empresário João Dória Jr. contornou esse problema ao unir 13 partidos em torno de sua candidatura à prefeitura de São Paulo pelo PSDB. Apesar de já ser um rosto conhecido, por estar à frente do Lide e dos programas Aprendiz e Show Business, ele abocanhou 31% do espaço e o resultado veio nas urnas: Doria foi eleito com 53,3% dos votos válidos, consagrando-se como o primeiro prefeito eleito em primeiro turno na capital paulista desde 1992. “Mesmo considerados como representantes da velha política, os partidos grandes ainda têm mais chances”, diz Cristiano Noronha, vice-presidente da consultoria de análise de risco Arko Advice. “Se um outsider conseguir ir para um partido de médio ou grande quadrante e formar uma coligação importante, ele se tornará competitivo.”

Além da tentativa de mudar os nomes dos cargos majoritários, há um anseio pela renovação do Legislativo. Desde 1998 se troca menos da metade dos deputados federais. Mas, apesar dessa ideia de que a troca pode aumentar a qualidade do legislativo, experiências internacionais mostram que uma grande renovação no Senado e na Câmara pode ser entrave para o desenvolvimento político de um país. No México, é proibida a reeleição de qualquer cargo eletivo. Qualquer político ao final do mandato não pode concorrer ao cargo, ou seja, existe uma renovação total.

O legislativo mexicano é considerado um dos piores do mundo, assim como o da Argentina, que renova 80% de seu quadro. “No Brasil, esse anseio pelo novo é mais uma reação e aversão à corrupção que se deu no mundo político brasileiro do que, de certa forma, uma admiração maior pelos empresários”, afirma Carlos Pereira, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da FGV. “Nesse contexto, os empresários e a população perceberam que é preciso mudar tudo, mas não levaram em consideração que os novos também podem se corromper. Essa talvez seja uma visão ingênua da política da renovação e para a renovação.”


“A juventude possui anseios de participar da vida política e total aversão aos meios tradicionais”

Gustavo Franco, economista e presidente da Fundação Novo, núcleo de desenvolvimento de estudos de políticas públicas do Partido Novo

Como o senhor analisa essa mobilização e movimentação do setor privado para transformar e influenciar a política?
É muito positivo. É uma forma de o mundo empresarial participar do processo eleitoral dentro das regras, com transparência.

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O sr. acredita que é possível construir um novo jeito de fazer política e deixar os velhos hábitos para trás?
Claro que existem novas maneiras, e a tecnologia foi um dos elementos a abrir novas possibilidades. Em paralelo, mas não dissociado nas novas possibilidades tecnológicas, a juventude possui muitos anseios de participação da vida política e total aversão aos meios ditos tradicionais. Fórmulas novas terão que aparecer.

A ideia da Fundação Novo é subsidiar os candidatos e os eventuais eleitos com dados para a gestão pública? De que maneira isso acontecerá?
O processo ainda está em construção. Mas deve ser claro que a tarefa da Fundação é pensar sobre o Brasil e para o Brasil, apenas com ênfase nos temas e valores do Novo. Seu papel é reunir e organizar ideias. Seu uso pelo partido é matéria das instâncias partidárias e dos candidatos individualmente.

Márcio Kroehn, Paula Bezerra
IstoÉ Dinheiro

BDF na Rede

         

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Outubro, 2017

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