Precisamos falar sobre assédio

Série de escândalos leva celebridades dos EUA a exigir o fim dos abusos sexuais que ocorrem há décadas nos bastidores do meio artístico. No Brasil, onde a prática também é conhecida, o receio de se expor ainda faz com que o silêncio impere

Todo mundo conhece Marilyn Monroe, mas pouca gente sabe quem foi Joseph Schenck ou o que os dois faziam nos bastidores de Hollywood. A sedutora atriz cuja imagem permanece brilhando no imaginário coletivo mais de meio século após sua morte tinha apenas 21 anos quando Schenck, então com 70, a abordou no estacionamento da 20th Century Fox, estúdio do qual ele era o chefe de produção. Começava ali uma longa história de assédio sexual.

Nascido na Rússia, Schenck foi um poderoso executivo da era de ouro do cinema nos EUA. Fundou a Twentieth Century Pictures, que depois fundiu com a Fox, e criou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas — a mesma que entrega o Oscar. “Eu sei que o boato em Hollywood diz que eu era garota de Joe Schenck, mas essa é uma mentira”, diria Marilyn anos mais tarde. Embora negasse o romance, a atriz tirou proveito da admiração a ela devotada.

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Foi Schenck quem deu a Marilyn um papel de destaque no filme “Mentira Salvadora” (1948), quando ela era desconhecida, e a manteve como sua protegida apesar dos primeiros fracassos. Ancorada em interesses e favores sexuais, a relação entre o executivo e a estrela é um exemplo de como as coisas funcionavam em Hollywood.

Até que uma série de escândalos rompeu o véu de silêncio que vigorava nos bastidores havia décadas. “Estamos em um momento em que as mulheres precisam enviar uma mensagem clara de que isso acabou”, disse a atriz Gwyneth Paltrow após eclodirem as denúncias de assédio envolvendo o produtor Harvey Weinstein, acusado de assediar as atrizes Angelina Jolie, Ashley Judd e a própria Gwyneth — que afirmou: “essa maneira de tratar as mulheres acaba agora.”

O escancaramento das práticas abusivas reflete avanços da condição e dos direitos das mulheres nas últimas décadas, o que ficou conhecido como “empoderamento feminino”. É fruto também da luta por igualdade entre os gêneros e da participação crescente da mulher no mercado de trabalho.

Por ser um movimento de escala global, a iniciativa das celebridades de Hollywood inspirou atrizes do Brasil a se engajarem no combate ao assédio, ainda que de maneira mais discreta. A atriz Deborah Secco, 37 anos, deu recentemente um depoimento em vídeo para o movimento #metoo, criado no âmbito das denúncias nos EUA. “Eu já sofri assédio sexual várias vezes. São abraços mais apertados do que podiam, beijos mais perto da boca do que deixava”.

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Ela já havia comentado em uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo ter sofrido constrangimento: “Tem aqueles que te chamam pra jantar, tentam ficar sozinhos com você. Qualquer um que tenha um cargo um pouco importante. E a gente não pode chamar a polícia, é nosso chefe”, afirma.

A crença de que denunciar o chefe irá prejudicar a carreira é o que leva muitas mulheres a manter em segredo uma perversão, perpetuando um ciclo de abusos em que os vilões sempre são protegidos. “O silêncio da vítima é um ponto a favor do agressor”, afirma Maria Ester de Freitas, professora da Fundação Getulio Vargas de São Paulo e especialista em cultura organizacional. Procurada pela reportagem de ISTOÉ, Deborah não quis comentar o assunto — assim como outras atrizes que já haviam descrito situações semelhantes.

A professora Maria Ester de Freitas é autora de um artigo acadêmico que esclarece vários pontos acerca do assédio sexual dentro da cultura brasileira. “Achamos que, em princípio, todo mundo pode cantar todo mundo, desde que receba a negativa, se ela vier, com esportividade, que a pessoa saiba perder e se retirar de campo sem alarde, sem ressentimentos”, escreveu.

Como se sabe, nem sempre é assim – e menos ainda no meio artístico. Nos bastidores de uma produção de cinema ou TV, o conceito de intimidade tem contornos menos rígidos. Trabalhar em trajes sumários, trocando carícias e beijos na boca com um colega de profissão, é algo que impensável em uma fábrica de automóveis, um banco ou supermercado qualquer outro ramo.

A exposição maior do corpo, que no caso de atrizes e atores é o instrumento de trabalho, pode dar margem a confusões. Há dois meses, a atriz Bruna Marquezine, 21 anos, revelou que faz terapia para superar situações traumáticas vividas durante gravações na Globo. “Eu passei por casos de assédio, inclusive dentro do Projac. As pessoas misturam muito a personagem e a artista”, disse ela à Cosmopolitan. “Me sentia muito triste. Chegou um momento em que parei e fiquei me perguntando o que era aquilo que eu estava vivendo”.

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Terry Richardson

Um raro caso de denúncia nos bastidores da TV brasileira foi feita contra o ator José Mayer pela figurinista Susllen Tonani, de 28 anos. Ela decidiu romper o silêncio depois de ser sido tocada em suas partes íntimas sem seu consentimento. “Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude correta é pedir desculpas. Mas isso só não basta. É preciso um reconhecimento público que faço agora”, escreveu o ator, que foi afastado de suas funções na Globo. Susllen decidiu não processá-lo na Justiça e também nunca mais foi chamada.

O QUE DIZ A LEI

A Lei 10.224, de 2001, em seu Art. 216-A, define “Assédio sexual” da seguinte forma: “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.” A pena é de detenção, de 1 a 2 anos. Segundo o jurista Vicente de Paula Rodrigues Maggio, “para caracterizar o crime de assédio sexual, o constrangimento pode ser realizado verbalmente, por escrito ou gestos, ficando afastado o emprego de violência ou grave ameaça”. Nesse caso, o delito seria o de estupro (Código Penal, art. 213).

Globo/Estevam Avellar; Raphael Dias
TESTE DO SOFÁ

O próprio funcionamento da indústria do entretenimento, com executivos capazes de decidir quem irá brilhar sob os refletores, cria uma perigosa ilusão para quem ambiciona o sucesso. Prometendo papéis de destaque a atrizes que desejava levar para a cama, o cineasta James Toback, de 72 anos, se tornou a mais recente encarnação do predador sexual de Hollywood. Ele foi acusado de assediar mais de 30 mulheres, entre elas a atriz Julianne Moore. Também acusado de assediar modelos e cantoras, o fotógrafo de moda e diretor de clipes Terry Richardson, de 52 anos, foi banido na semana passada de revistas para a qual trabalhava com frequência, caso de Vogue e Vanity Fair.

Na década de 1980, a modelo Monique Evans, então no auge de seus atributos físicos e cobiçada por muitos homens, sonhava em ser atriz, mas viu as portas se fecharem ao reagir ao assédio de um “diretorzão” de uma grande emissora de TV, conforme relatou à ISTOÉ. “Ele se interessou por mim e me chamou para jantar. Eu disse que não iria. Depois, me falou: ‘Pode esquecer essa emissora. Aqui você não vai entrar.’ E foi o que aconteceu”. Hoje apresentadora de TV, Monique afirma: “as meninas da minha época que toparam o ‘teste do sofá’ entraram e fizeram carreira lá dentro. Isso não é lenda, é verdade. Existia.”

O fato é confirmado por uma atriz que pediu anonimato ao revelar a ISTOÉ que foi graças ao fato de ter cedido a uma cantada de um diretor que conseguiu trabalhar na televisão. “Ele me chamou para sair, eu fui e ele passou a me proteger lá dentro”. Aos 60 anos, ela diz que até diretores financeiros da emissora usavam seu poder para conseguir sexo.

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PROVAS

“O assédio sexual está sempre relacionado ao poder”, afirma a professora Maria Ester de Freitas. No Brasil, o assédio sexual só passou a ser considerado crime pela Lei 10.224, de 2001. Antes da aprovação, uma pesquisa que ouviu 401 mulheres brasileiras com mais de 16 anos revelou que apenas 9% declararam ter sofrido assédio sexual.

Dessas, 7,7% haviam denunciado o agressor aos superiores — e apenas 2,6% moveram processo na Justiça. Para 18,6% das vítimas, manter o emprego pareceu mais importante. A comprovação de um crime de assédio é quase sempre delicada.

“De modo semelhante ao crime de estupro, a palavra da vítima ganha especial relevo, tornando-se, às vezes, a única prova de ocorrência do delito”, afirma o jurista e professor Vicente de Paula Rodrigues Maggio. A lei, no entando, sequer foi capaz de estimular novas denúncias ou coibir a prática. “São poucas as ações penais imputando a alguém o delito e raríssimas são as condenações, mesmo diante da frequência com que os casos de assédio sexual ocorrem nos mais diversos ambientes de trabalho”, diz o professor Maggio.

A atriz Betty Faria, 75 anos, confirma que atrizes de sua geração ficavam quietas diante do assédio. “Se for falar tudo por que passei, daria um livro.” Vera Fischer também diz ter sido vítima de assédio quando era Miss Brasil (1969). O assédio continuou quando ela foi trabalhar na TV: “aconteceu algumas vezes”, disse, em entrevista recente, na qual ela afirmou que se sentia tratada “como prostituta”. Prova de que precisamos falar mais sobre assédio.

Celso Masson e Eliane Lobato
IstoÉ

BDF na Rede

         

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