A literatura nunca deverá ser depurada de nada

No último dia 17, Mário Vargas Llosa escreveu em sua coluna para o jornal El País que o feminismo pretende depurar a literatura dos machismos, dos preconceitos múltiplos e das imoralidades. Venha entender porque eu acho que ele se expressou muito mal.

Para você que não sabe o que estou falando, basta ler o texto Novas Inquisições do Llosa no El País, para entender melhor tudo o que eu vou dizer.

Antes de tudo, gostaria de já deixar uma opinião minha bem definida: o feminismo não quer eliminar nada e ninguém.

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Durante todo o texto o escritor peruano, afirma que a parte extremista do movimento feminista quer censurar e limpar obras já escritas para que se adéquem ao que hoje é visto como o mais correto. Porém sabemos que obras de outras épocas foram escritas dentro de outros contextos e que nunca deverão ser alteradas, pois a literatura é além de tudo uma ferramenta de representação da realidade. O Llosa defende que estas obras já escritas não devem ser alteradas e que os escritores contemporâneos devem praticar o ofício da escrita como expressão irrestrita, sem moldes ou limites.

Dentro desta ótica, concordo com ele, o escritor tem que estar livre para escrever sobre o que ele quer, como ele quer e se expressar da forma que bem entender. Porém este escritor, dependendo do que ele retratar nas páginas deve estar preparado para as críticas que naturalmente virão, principalmente dos grupos que buscam visibilidade e tratamentos iguais na sociedade como é o caso do movimento feminista, por exemplo.

Toda crítica literária, sendo profissional ou pessoal, deve ser feita de forma educativa e não taxativa ou voltada para o aspecto da censura. Por exemplo um caso que ocorreu aqui no Brasil em 2012, quando o secretário da gestão educacional do Instituto de Advogacia Racial solicitou a censura do livro “Caçadas de Pedrinho” do Monteiro Lobato por conter um teor racista. A obra é racista? Sim, apresenta passagens racistas. Na época que foi escrita isso era aceito? Sim, na época que o Monteiro Lobato a escreveu o racismo era aceito na sociedade. Isso justifica a retirada da obra do meio educacional por meio de censura? Não, a obra deve ser tratada com os alunos dentro da crítica educativa, mostrando o que era aceito e como a sociedade evoluiu ao ponto de reformar conceitos. A obra deve ser alterada para os termos legais atuais? Não, a obra foi feita dentro de um contexto e de uma realidade, a obra retrata estes aspectos, altera-la é apagar nossa história.

Como no caso acima, um movimento feminista extremista da Espanha vem querendo alterar alguns textos e taxar outros como “não deve ser lido”. Resumi a confusão de forma bem simples para poder-mos entender o texto do Llosa. Porem, o Mário Vargas começou se expressando de uma forma muito ruim, no final ele já estava mais ponderado, mas mesmo assim o mal já havia sido feito. Sempre vão existir pessoas dentro de qualquer movimento que irão tomar decisões que fogem dos princípios do movimento como um todo. Culpar todo um movimento por conta de uma parcela, que é pequena e extremista não é valido.

A defesa de uma produção literária livre de amarras é essencial, por mais que alguém escreva um livro torpe, voltado para qualquer aspecto preconceituoso, este escritor tem a liberdade e o direito de escreve-lo. Nosso papel como leitores e críticos é debater esta obra e nos posicionarmos, apresentarmos argumentos que invalidem o que foi apresentado na narrativa. Porém nunca devemos censurar ou taxar. Extremistas de qualquer ideologia ou luta usam censura, censura é o primeiro passo para um estado de exceção, estado de exceção é a chave para abrir a porta para um sistema fascista. Preconceito se combate com educação e debate.

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Paulo Souza

BDF na Rede

         

Sobre o Colunista

Paulo Souza, 28 anos, produtor cultural, editor e escritor. Possui publicado o livro ‘Ponto para ler contos’ (Kindle, 2016) e participou da ‘Antologia Sombria’ (Empíreo, 2017) e vários contos disponíveis no blog Ponto Para Ler. É criador e editor chefe do Ponto Para Ler e seu respectivo canal no YouTube em parceria com a Animars Produções.
Nasceu e vive em Brasília, cidade que ama.

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