Homossexualidade: A velha disputa entre ciência/profissão e religião

Homossexualidade: A velha disputa entre ciência/profissão e religião

Há alguns meses escrevi um texto sobre os retrocessos que estávamos vivendo nos dias de hoje. Infelizmente, meus poderes premonitórios mais uma vez não falharam. Infelizmente, a minha habilidade se revela em prever más notícias e foi justamente o que ocorreu nesta semana. Se já não fossem suficientes os efeitos desastrosos da combinação entre religião e política, agora nos vemos novamente diante de um entrevero entre ciência/profissão e a religião.

Um grupo de psicólogos(as) que se denominam cristãos moveu uma ação contra o Conselho Federal de Psicologia pelo direito de “tratar” pessoas de orientação sexual homoafetiva no intuito de modificar a sua orientação sexual. Trata-se de um debate tão antigo em Psicologia e Psiquiatria que eu, durante a minha graduação, ingenuamente, acreditei que estivesse superado, o que, infelizmente, me dou conta que não.

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Não há uma relação necessária entre a passagem do tempo e a evolução de uma cultura. Com o maior acesso à informação em decorrência do advento da internet, se podia esperar que fossem propagados novos modos de pensar a condição humana, resultando em mais amor, respeito e igualdade. O que se observa, todavia, é o acesso a qualquer tipo de informação, seja ela de esquerda, de direita, progressista, reacionária, verdadeira ou falsa.

Além disso, o ser humano, para conferir uma certa inteligibilidade ao conjunto caótico de informações que recebe, organiza o mundo em categorias. Ao fazê-lo, atribui aos novos membros dessas categorias, todas as suas propriedades. Por exemplo, a esquerda, que até recentemente esteve no poder, instaurou programas sociais de diversas naturezas, sendo que alguns deles visavam uma maior tolerância e respeito às diferenças. Por outro lado, essa mesma esquerda foi associada à corrupção endêmica que assola o país. O ódio a essa esquerda foi, de certa forma, generalizado a algumas das causas que defendem, como aquelas relativas aos movimentos LGBT. Esse processo comportamental é responsável por diversos tipos de preconceito, como o machismo e o racismo, por exemplo, e não seria diferente em relação a homofobia.

Esse momento histórico, foi terreno fértil para que o movimento de psicólogos(as) cristãos(ãs) conseguissem atenuar pela via jurídica a resolução do CFP que proíbe a atuação do profissional em psicologia com o objetivo de modificar a orientação sexual de seus pacientes. Apesar de não haver consenso, em psicologia, entre o que é normal ou anormal, existe um critério que é consensual para se considerar a necessidade de tratamento psicológico: o sofrimento. Sim, é óbvio, que grande parte dos homossexuais sofre, e sofre muito. Mas o seu sofrimento não decorre de desejar, flertar e relacionar-se afetivamente com pessoas do mesmo sexo. Ao fazê-lo, sentem coisas parecidas com aquelas que os heterossexuais sentem ao fazerem as mesmas coisas. Os homossexuais sofrem em decorrência da coerção social contingente à sua orientação sexual. A coerção social na homossexualidade não se refere apenas à homofobia, mas a exposição a uma criação que critica os comportamentos que não se enquadram aos padrões heteronormativos, como brincar, vestir-se, falar, portar-se como as demais pessoas do mesmo sexo biológico.

Tratar um homossexual, como qualquer pessoa é, além de respeito e civilidade, criar condições para que esse encontre meios de deixar de sofrer. A conclusão óbvia, portanto, é: devemos atuar na causa de seu sofrimento, no caso, os efeitos da coerção social, e não a sua orientação sexual. A meta, pelo menos do jeito que eu vejo a psicoterapia, é criar condições para que as pessoas se sintam livres das opressões sociais que cerceiam os seus modos de viver, desde que esses modos não impliquem em violência, opressão e discriminação. Para mim, isso é amor, isso é compaixão, isso é ser psicólogo e isso é ser cristão no sentido literal da palavra.

A resolução do CFP sobre essa matéria, ao contrário do que entendeu o juiz federal que concedeu a liminar, não proibia a investigação científica da homossexualidade. Os comportamentos homossexuais, heterossexuais, bisessexuais, religiosos, autoritários, preconceituosos, como quaisquer comportamentos, passaram, passam e sempre passarão pelo escrutínio da ciência psicológica. A Psicologia se ocupa de qualquer comportamento e não apenas aqueles que, a depender do critério e da conveniência de grupos específicos, são considerados anormais. Considero que o argumento do magistrado se trata de uma justificativa distorcida utilizada para abrir a possibilidade dos tratamentos que visam a mudança de orientação sexual.

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De modo bem simples, me parece que os(as) psicólogos(as) cristãos(ãs) consideram, em consonância às suas crenças religiosas, que a homossexualidade é pecado. Como cristãos, se comprometeram a combater o pecado, seja boicotando (censurando) uma exposição num museu, seja tentando reverter a orientação sexual. Não se trata de ajudar aqueles que querem voluntariamente mudar a orientação sexual. Diante da coerção social, devemos nos perguntar se realmente cabe o rótulo de “voluntário” a um cliente homossexual que traz como queixa a mudança de sua orientação sexual. Não se trata de ver a homossexualidade como doença apenas. Se trata de combater o pecado de acordo com a interpretação que fizeram do viria a ser pecado. São “cristãos” antes de serem psicólogos e eu respeito isso. Porém, por respeito à profissão, não usem a religião para distorcer a ciência/profissão. Homossexualidade não é doença e, portanto, não deve ser tratada.

Pronto. Lacrei!

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  • O Dr. Carlos Augusto de Medeiros é brilhante, eu como terapeuta psicodinâmico respeito o behaviorismo graças a ele. Contudo é uma postura humana de exceção nos núcleos de poder da psicologia. Imagino se a peça que instruiu os autos do processo estava bem fundamentada. Muitos são os fatores que me deixam essa dúvida. Uma delas é o nível de senso crítico dos meus colegas. Na faculdade de psicologia o autoritarismo é uma prática incontestável. Nem sequer temos um sindicato de psicólogos em Brasília. Portanto, em termos de discurso de resguardo dos mais fracos, é uma ciência que pouco contribui.

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