Golpe duro na esperança! Apatia e a desesperança aprendida

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A maioria dos brasileiros ficou decepcionada com a decisão do congresso nacional em impedir a investigação do atual presidente da república. Talvez um número maior tenha se desapontado com o aumento da gasolina de R$ 0,40 em média. Aqueles que estão prestes a perder a proteção da lei em negociações trabalhistas com a reforma a ser regulamentada também ficarão desapontados, como ficarão todos aqueles que um dia pretendem se aposentar, caso a reforma da previdência seja aprovada. Ficarão mais despontados ao verem que essas reformas não se aplicam integralmente a políticos e ao judiciário. Com o sistema político atual, não há muito o que possamos fazer e, curiosamente, a reforma política que conferiria mais poder ao voto está adormecida. Quando o presidente da república possui uma forte base de apoio no legislativo e no judiciário, ele tem poder de fazer tudo isso sem grande dificuldade.

Eu não ouso dizer “golpe de estado”, afinal, foi tudo de acordo com a lei, mas não tenho dúvida, foi um golpe de mestre. A faca, o queijo e a goiabada na mão. Todavia, o atual presidente carece do apoio popular. Menos de 10% aprovam o seu governo. Por que essas pessoas não vão às ruas como foram quando Dilma Rousseff, com uma rejeição muito menor, estava no poder? Por que não fazemos nada além de esbravejar nas redes sociais (“eu não te disse?”, “cadê os bate panelas agora?”) se um presidente com alto índice de rejeição, nos priva de direitos, escapa de ser investigado por corrupção passiva, e ainda distribui verbas com base nos altíssimos impostos que nós pagamos como moeda de troca para não ser investigado?

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Ao aplicar o seu golpe de mestre, Temer contou com supostos movimentos populares muito bem organizados e financiados para incitar a classe média insatisfeita. Uma vez que o objetivo foi atingido, esses grupos anticorrupção estão convenientemente silenciados. Fora isso, o texto de hoje, após essa longa introdução, aborda justamente uma das razões pelas quais aquelas pessoas que foram diretamente afetadas pelas iniciativas do atual governo e que, absolutamente não querem o atual presidente no poder, não se revoltam e vão às ruas protestar.  

Você ficaria surpreso em saber que tem tudo a ver com a depressão. A maior parte dos antidepressivos, em algum momento de seu desenvolvimento e aprovação para seres humanos, passou pelos testes de desamparo aprendido. Vou usar o teste que eu denomino de liquidificador de ratos para ilustrar como eles são feitos. Um cilindro de acrílico transparente de aproximadamente 50 cm de atura e 30 cm diâmetro é enchido d’água até cerca de 80% de sua capacidade. Um rato de laboratório é colocado dentro do cilindro. O animal tenta nadar e subir pelas paredes em vão até que, após alguns minutos, se cansa e para de fazê-lo. Consequentemente, começa a afundar. Nesse momento, o experimentador o retira do cilindro.  Esse mesmo animal passa por essa manipulação diversas vezes até que o tempo que gasta tentando escapar do cilindro diminui drasticamente em relação às primeiras vezes em que foi colocado no cilindro. Os animais nessas condições estão prontos para o teste dos antidepressivos. Alguns animais (Grupo Controle) recebem uma dose de solução salina (placebo) e outros (Grupo Experimental) recebem uma dose de uma droga com suposto efeito antidepressivo. Se os ratos do grupo experimental voltam a tentar escapar do cilindro por mais tempo que os ratos do grupo controle, conclui-se que a droga possui efeito antidepressivo.

Em outros experimentos, verifica-se que se introduzirmos algum modo de escapar do cilindro, aqueles animais que passaram pelo treino de desamparo aprendido demorarão muito mais a aprender como escapar do cilindro do que ratos que não passaram por esse treino. Isso ocorre por uma simples razão, os ratos que passaram pelo treino de desamparo aprendido desistem antes de descobrirem o modo de escapar do cilindro.

A conclusão triste desse texto é que nós brasileiros somos os ratos que passaram pelo treino de desamparo aprendido. Um dos sintomas mais comuns da depressão é a apatia. Os eventos ruins que nos acontecem nos irritam e entristecem, mas não nos movem a tentar mudá-los por uma simples razão que tem tudo a ver com os ratos: por diversas frustrações passadas, aprendemos equivocadamente que não adianta. Como o rato, aprendemos que não há nada que possamos fazer. Para pessoas deprimidas, algumas mudanças em seu ambiente devem acontecer para que isso seja revertido. As drogas antidepressivas atuam ajudando o deprimido a tentar mais e, quem sabe, conseguir mudar parte de seu ambiente. A psicoterapia tentar ajudar a pessoa a desenvolver novos modos de lidar com o ambiente, ou seja, a encontrar novas formas de escapar do cilindro ou mesmo de derrubar o cilindro metaforicamente. 

Agora o que fazer com um povo apático em decorrência de um treino social de desamparo aprendido? Essa eu vou deixar para os cientistas sociais. Todavia, eu sei que não basta esbravejar nas redes sociais obtendo muitas curtidas de quem concorda com você. Isso é apenas mais um sintoma da depressão, o discurso poliqueixoso.

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Dezembro, 2017

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