Você sabe amar?

Você sabe amar?

Na semana do dia de Santo Antônio e, consequentemente, dia dos namorados, é pertinente abordar a temática do amor. Não raro ouvimos uma pessoa dizendo à outra “você não sabe amar!”. Alguns clientes meus já me relataram terem ouvido isso de terapeutas que me precederam. Essa forma de se referir ao amor sempre me soou meio esquisita porque parece que “amar” entraria na mesma categoria de “dançar”, “tocar violão” ou “andar de bicicleta”, por exemplo. Essas atividades me parecem completamente distintas do que viria ser amar, a despeito de envolverem verbos. Percebemo-nos amando sem termos voluntária e conscientemente tentado fazê-lo. Somos simplesmente “acometidos” pelo amor. O mesmo não acontece com tocar violão, por exemplo. Precisamos, inicialmente, tentar aprender a tocar de forma voluntária e consciente o instrumento.

Além disso, podemos dançar, tocar violão e andar de bicicleta bem ou mal, ao passo que adverbializar o verbo amar do mesmo modo não faz muito sentido. Não amamos bem ou mal. Amar não é uma coisa que se faz bem feito ou mal feito. Ademais, para aprendermos a dançar, tocar violão e andarmos de bicicleta, precisamos de algum de tipo instrução, ainda que informal. Precisamos parar o que estávamos fazendo e iniciar uma dessas atividades, do tipo, agora vou dançar. Amar não funciona do mesmo jeito, podemos amar assistindo um filme, dirigindo, cozinhando, dançando, tocando violão e andando de bicicleta.

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A partir desse breve ensaio de análise conceitual, concluí que não faz muito sentido dizer que uma pessoa não sabe amar do mesmo jeito que dizemos que alguém não sabe tocar violão. Mas continuou a dúvida, o que leva as pessoas a fazerem esse tipo de uso ampliado ou não convencional do conceito de “amar”? Na realidade, o que elas querem dizer quando dizem que alguém não sabe amar?

A divertida música “Você não soube me amar” da banda “Blitz” talvez nos dê uma pista do que poderia ser. Muitas pessoas quando dizem “você não sabe amar” na realidade estão dizendo que você não soube “me” amar do jeito que eu gostaria. Uma pessoa que não recebeu a atenção e o carinho que gostaria; cujo parceiro não assumiu a relação de forma pública; que foi traída; e/ou que foi rejeitada ao final do relacionamento, pode concluir que o parceiro não soube amar. O mesmo vale para uma pessoa que se relacionou com alguém ciumento, controlador, possessivo e violento. Também costuma-se dizer que alguém que inicia relacionamentos, seduz, se apaixona e, quando acaba a paixão, rompe inesperadamente, iniciando o mesmo ciclo com outra pessoa, não sabe amar. Dizer “você não sabe amar”, nesses casos tem a função de “mude”, “sinta-se mal pelo que fez comigo”, “não me rejeite”, “volte para mim” ou, simplesmente, “me ame”.  

Não podemos afirmar que essas pessoas exemplificadas acima não sabem amar. Seria mais apropriado dizer, após uma análise mais cuidadosa, que elas simplesmente não amaram. Não se trata de amarem bem ou mal, de terem sido instruídas ou não, de desejarem voluntária e conscientemente amarem ou não, e sim de que amaram ou não.

Por outro lado, praticamente não temos dúvida em dizer que sabe amar aquela pessoa que se doa, que se molda, que se sacrifica, que sofre e vive em função do outro. Novamente, como discutido acima, não se trata de saber amar ou não, e sim, de amar ou não. Nesse caso, na minha opinião, pessoas que vivem o relacionamento dessa forma não necessariamente amam seus parceiros.

O padrão subserviente de relacionamento geralmente está associado a um histórico de abandono parental ou de relacionamentos amorosos fracassados. Pessoas como essas aprenderam de forma equivocada que ficar sozinho significa necessariamente ser infeliz. Além disso, aprenderam, também de forma equivocada, que os abandonos que sofreram na infância ou nos relacionamentos passados foram responsabilidade delas e que, por isso, não têm valor. A única forma que encontraram para rechaçar a ideia de que não possuem valor é iniciar e, principalmente, manter um relacionamento. Essas pessoas não amam ou amaram os seus parceiros e sim, dependem de relacionar-se e, em decorrência disso, são os alvos mais fáceis para aquelas pessoas acima que diz-se não saberem amar. Na minha opinião, nenhuma dessas pessoas descritas no meu texto de hoje amam ou amaram os seus parceiros.

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O amor é provavelmente o termo relativo às emoções mais complexo e difícil de definir. Mas certamente, o verbo amar, não faz o menor sentido sem o seu objeto direto “alguém”. Devemos amar o beijo, o carinho, o cheiro, o papo, a companhia, o sexo, o jeito do outro e não, amar “estarmos em” ou “iniciarmos um” relacionamento. Não se trata de saber amar e sim, amar tudo que o outro é, e não o que estar numa relação supostamente diz acerca de nosso valor pessoal.

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Dezembro, 2017

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