De volta aos anos 80!

De volta aos anos 80

Infelizmente não estou falando da tradicional festa que agrega os quarentões saudosistas como eu aqui em Brasília. Dessa vez, estou me referindo aos valores sociais em debate no momento.

Parece que eu, do mesmo modo que o Marty McFly, entrei num DeLorean capaz de viajar no tempo e voltei para os debates da adolescência sobre castidade, moralidade, esquerda, direita, uso de preservativo, gays, lésbicas e travestis.

Os filhinhos de papai, no final dos anos 80, início dos anos 90, tinham a prática cruel de roubar os extintores de incêndio dos prédios onde moravam, pegar os carros dos pais, geralmente escondidos, e partirem para os pontos de prostituição de rua na cidade. Talvez você que não tenha vivido essa época e não faça ideia do que eles faziam com os extintores, mas pode imaginar sozinho. Pois é, eles paravam ao lado e uma garota de programa ou de um travesti e acionavam o extintor sujando e humilhando aquela pessoa na rua. Saiam em seguida arrancando o carro morrendo de dar risadas.

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Esses mesmos jovens, também dirigiam até os “points” da cidade para “bater pegas”, ou “rachas” como se fala hoje em dia. Sem pardais e sem a lei seca, voavam bêbados pela cidade deixando as marcas de sua destruição. Quando abordados pela polícia, vigorava a impunidade do “Você sabe com quem está falando?”. Também era comum jogar água ou urina pela janela dos prédios nas pessoas, geralmente humildes, que circulavam pela calçada. Nas festas juninas da cidade e nos shows de axé music, a graça desse pessoal era brigar. Gangues de classe média de 20 a 30 jovens tentando encontrar outras gangues ou outros grupos de jovens, geralmente em menor número, para massacrar. Talvez os nomes MTZ, GS e a Galera da 109 sejam familiares a vocês.

Infelizmente, a Brasília dos anos 80 e 90 não era só feita só da Zoom, da Piscina de Ondas, do Legião Urbana, da Plebe Rude e do Capital inicial. Era uma cidade paroquiana, reacionária e cheia de preconceitos. Se você fosse pobre e precisasse dormir na rua, cuidado! Podiam atear fogo em você só por brincadeira. Se você fosse gay ou lésbica, então estava perdido. Eu me lembro de um jovem da minha escola que não se comportava de acordo com o padrão hétero normativo. Ele era perseguido por toda a escola na hora do recreio que gritava impropérios do tipo: “Bicha! Veado! Mariquinha!”. Daí você pode imaginar o que acontecia se dois homens se beijassem ou andassem de mãos dadas em público.

Mas em meados dos anos 90 até o início dos anos 2010 houve grande mudanças. Passamos a parar nas faixas de pedestres; os pardais e a lei seca nos protegeram, ainda que parcialmente, dos velozes de furiosos das ruas; o Brasil virou modelo na prevenção da AIDS, com grande adesão ao uso de preservativos e distribuição de seringas; a legislação avançou em termos de direitos dos homossexuais, como a união estável e o direito de adoção (ainda que aquém do desejável); algumas decisões judiciais foram favoráveis à prática do abordo em certos casos de morte certa após o nascimento; a eleição de diversas mulheres como presidentas da república ou primeiras ministras; a eleição e reeleição de um presidente afrodescendente nos EUA; passamos a conviver de modo mais harmonioso com demonstrações públicas de afeto de pessoas do mesmo sexo (teve até o ploc do Félix e do Anjinho na novela das nove); a sexualidade passou a ser discutida de forma mais franca e científica nas escolas; dentro outras mudanças, ao meu ver, progressistas.

De repente, tudo volta. Gays, lésbicas e travestis são espancados só por existirem; professores não poderão mais falar de sexualidade e sobre ideologias nas escolas; o uso de preservativos é abandonado e o HIV volta a se propagar entre a juventude; um congresso repleto de conservadores e de fundamentalistas religiosos, tentando mudar nossas leis para aquelas do século passado; o presidente emitindo opiniões machistas em rede nacional; a eleição de presidentes ultraconservadores em todo o mundo que, com as suas posturas beligerantes, nos aproximam da terceira guerra mundial; agora, o mais maluco é o conjunto de pessoas que pedem a volta da ditadura militar.

Eu deixei um típico de evento dos anos 80 por último de propósito. Nós jovens da época, adorávamos ficar batendo papo embaixo dos prédios ou nas praças da cidade. Tomávamos nosso vinho Sangue de Boi, tocávamos violão, cantávamos, alguns de nós fumavam um baseado até que, subitamente, nas palavras de Dinho Ouro Preto, surgiam as “Veraneios Assassinas”. De lá saiam policiais que revistavam de forma agressiva e autoritária os jovens que estavam meramente se divertindo. Quem não lembra dos nada saudosos “baculejos”. Tapas na cara e na nuca, chutes nas pernas e até cacetadas. Fora a censura. As músicas eram editadas para que trechos ofensivos aos preceitos morais não tocassem. As faixas nos vinis eram arranhadas de fábrica para o disco poder ser lançando. Artistas exilados. Filmes proibidos de serem exibidos. Políticos e estudantes perseguidos, torturados, desaparecidos e executados. Em suma, toda liberdade cerceada. Me pergunto, quem, em sã consciência, pode querer isso de volta.

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Sim, da mesma forma que você, quero que os corruptos vão para a cadeia. Todos os corruptos e não apenas aqueles que, por usar vermelho, são identificados com os inimigos do Rambo e do Chuck Norris nos velhos filmes de ação dos anos 80. Mas combater a corrupção não é e não pode significar oprimir negros, pobres, gay, lésbicas, transexuais e travestis. Combater a corrupção não é impedir as pessoas de viverem a sua própria sexualidade como bem quiserem. Combater a corrução não é cercear o direito de greve e de livre manifestação. Combater a corrupção não é censurar artistas e professores. Adorei os anos 80 e 90, mas daquela época, só quero de volta as coisas boas, como o velho pop-rock, por exemplo. Quanto aqueles velhos modos de pensar, que fiquem enterrados por lá. Quero sim, entrar de novo no DeLorean, mas dessa vez, de volta para o futuro!

BDF na Rede

         

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Dezembro, 2017

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